Páginas

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

A Geni (alidade) do arrivismo

O director de informação da TVI, alcandorado ao devido sítio por quem manda na estação, com a conivência activa senão determinante de certos  sectores políticos  agora outra vez na ribalta, escreve hoje um apontamento no Diário de Notícias, lamentando-se como se fosse "geni".
Para quem não saiba, "geni" é personagem de uma obra musical de Chico Buarque, A Ópera do Malandro, de 1979. É um travesti desprezado que encanta um bárbaro invasor, tripulante de um zeppelin,  prestes a aniquilar a terrinha que visitou e que se demoverá se a desgraçada se lhe entregar. E entrega...perante as súplicas lancinantes dos restantes habitantes que a desprezavam antes, durante  e...depois. E daí a "pedra na Geni" ( a canção que assim se intitula é a melhor do disco)  que este antigo administrador de fundação ( EDP), agora director de propaganda informativa, portanto travestido de jornalista,  menciona identificando-se com tal personagem.
Sintomática esta pequena genialidade arrivista, esta identificação com o alvo de um desprezo, da rasquice e da marginalidade que se sublimam na entrega ao sacrifício pela liberdade de informação, contra os que o fustigam. Em vez de um cristo habitual temos por isso uma geni num voo de zeppelin. Um artigo de opereta, portanto.
Quando tenta explicar o que fez na TVI no passado Domingo à noite, a propósito do Banif-  "Sim, a TVI soube antes de todos que o Estado Português tinha uma semana para evitar a liquidação do Banif"- antevê-se o sacrifício de entrega ao domínio do dever e à submissão de quem manda, lá do   zeppelin que paira no alto.
Vai daí, antes que fosse tarde demais, a notícia foi lançada ao ar como pedrada definitiva, com a funda da Geni,  ao banco que assim perdeu logo a seguir, num efeito necessário, previsto e eventualmente desejado ( só quem é estúpido não entenderia tal efeito e não parece que este sofra desse defeito) o capital necessário para eventualmente se recompor. 900 milhões, escreveu-se na primeira página de um jornal que este jornalista agora travestido refere como sendo o que "publica mulheres nuas nas primeiras páginas". A nudez cruel de uma verdade  jornalística, premente e sem adiamento possível, desta vez já não é liberdade informativa mas  apenas de jornal com mulheres nuas na primeira página...

Só falta referir quem lhe terá encomendado o recado, porque a fonte de informação não o fez desinteressada do efeito e particularmente se foi alguém deste Governo ou outrém, em paralelo assimétrico, na sombra da administração que  pilota o comando do zeppelin rutilante. Prefere assim proclamar a excelência do seu jornalismo de fretes políticos variados, como se viu na última entrevista a outra sacrificada geni e que subentende como tal no requisitório que escreve sobre alguns proscritos da sua ópera particular contra malandros sem nome.


Para justificar porque decidiu afundar um banco de um dia para o outro, liquidando-o de facto, com uma simples notícia de rodapé, conta uma história alheia que "gostaria de ter escrito" e que aparece na revista do Expresso da semana passada.
Por causa disso fui comprar o jornal e li o artigo de Pedro Guerreiro e Isabel Vicente intitulado "o diabo que nos impariu".

O artigo tem seis páginas da revista, em duas colunas e que começam quase a meio da página. Duas páginas inteiras chegavam e está escrito num estilo que se lê como um artigo de blog, sem grandes ademanes e fracote no conteúdo substancial.
Aquele putativo Geni gostaria de o ter escrito mas duvido que fosse muito mais além desta frase sobre um dos casos citados: " Quando o Expresso revelou no início do verão deste ano quais eram os 50 maiores devedores do BES antes do colapso, mostrou que eles agregavam mais de 700 empresas que tiveram um crédito total de dez mil milhões de euros. Muitas dessas empresas faliram, em prejuízo do ainda chamado BES, que ora é nome de banco mau, O peso dos construtores e promotores imobiliários nessa lista de 50 é avassalador, incluindo o Grupo Mota-Engil, que era chamado construtora do regime" na década passada, e o grupo Lena, que foi colocado sobre suspeita pelo Ministério Público num alegado esquema de favorecimento envolvendo José Sócrates".

Era isto que "gostaria de ter escrito"? Não perde pela demora porque poderia tê-lo feito depois de perguntar devidamente como é que estas coisas aconteceram, ao próprio José Sócrates aquando de uma das quatro vezes que foi a casa do mesmo para preparar a tal "entrevista".  Está sempre a tempo e pode escrever outro artigo em que parta a pedra que falta partir e então arranje lenha para se queimar. Pode começar por inquirir sobre o que se passou com o caso BCP, Joe Berardo, Armando Vara e a CGD. Depois até pode indagar sobre o BES e Hélder Bataglia. Se há alguém que sabe de gingeira o que se passou é o seu protegido da TVI...e nem precisa de perguntar nada pelo "gordo" ou mencionar a palavra "offshore"

"É pau, é pedra, é o fim do caminho" é paráfrase das palavras que encerram aquele artigo...deste arrivista social do jornalismo caseiro.










7 comentários:

Manuel Queiroga disse...

Desde que vi a fotografia do trio, Sérgio Figueiredo, Centeno e Ferro Rodrigues, já não sei em que revista de jornal, fiquei elucidado sobre o que aí vinha.

josé disse...

Porcaria da grossa.

Aníbal Duarte Corrécio disse...

A propósito deste post e porque de alguma forma está associado, queria referir o seguinte:

Não existe canal de televisão mais manipulador e a fazer o jogo, entre outros, da dupla António Costa/Ricardo Costa - dupla sombria e com projecto na manga - que a SIC Notícias do cretino Pinto Balsemão.

É notório, no âmbito da cobertura das Presidenciais, que esta televisão hostiliza sistematicamente Marcelo Rebelo de Sousa - o menos mau dos candidatos...- em detrimento dos restantes, especialmente do inanarrável Sampaio da Nóvoa, testa de ferro dos interesses velhacos da corja que tomou de assalto o 25 de Abril, bem como da politica com ares de fadista Marisa Matias, tão estúpidasinha e ignorante, coitadinha.

Hoje, por exemplo,assistimos a um apontamento de reportagem dos candidatos, em que, no caso de Marcelo, aparecem imagens de ruas vazias, sem pessoas, a sugerir desolação, solidão, e a querer injectar veneno audiovisual anti-Marcelo na mente dos telespectadores, a que não faltou no final a intervenção de um Alentejano.

A SIC-Notícias é o exemplo maior em Portugal da manipulação ideológica, pretensamente jornalista e informativa.







foca disse...

Curioso, é que este rapaz Sérgio agora tão defensor da moral, na altura em que dirigia o Diario Económico não se tenha lembrado de recusar as famosas sessões de charme que os bancos faziam com jornalistas económicos, algumas lá para os lados das estâncias suiças de neve, onde iam durante uma semana, em executiva, e ficavam hospedados em hotéis de topo.
Algumas vezes para ouvirem palestras de 2 horas do Rebelo de Sousa e outros do género.

Lições de moral e ética de gajos destes é como ter o presidente da AR a defender crianças!

Zephyrus disse...

Ora aqui está um grande artigo:

http://observador.pt/opiniao/os-buracos-da-banca-andaram-par-os-do-pais/

Zephyrus disse...

«Primeira questão: como é que construímos castelos em cima de areia? Porque o capitalismo português não tem capital, tem dívida. O capital que existia foi em boa parte destruído com as nacionalizações e, quando chegaram as privatizações, estas foram suportados por dívida. Sendo que esse processo começou exactamente na banca, o primeiro sector a ser privatizado, o que por isso mesmo começou por atrair os melhores quadros, o que se dizia ser dos mais modernos da Europa.»

JMF

josé disse...

Sobre a ausência de capital em Portugal tenho escrito neste blog, ao contar o que se passou em 1974 e 1975.

Essa História deve ser contada para se entender bem o que sucedeu porque ainda há muita gente que não sabe.