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domingo, 13 de dezembro de 2015

Um jornalismo corrupto e de mundos paralelos



A corrupção no jornalismo português é fenómeno de que ninguém fala. Corrupção no sentido estrito, criminal e também no sentido lato, moral.

Porém, a estranheza que certas notícias provocam e  principalmente o que a ausência delas convoca é sinal evidente de que tal fenómeno existe e tem protagonistas variados, localizados mas protegidos pela impunidade da ausência de exposição e a completa e rematada anomia.
O meio jornalístico em Portugal é muito pequeno e todos se conhecem, presumivelmente. Se não pessoalmente pelo menos em referências profissionais e em casas de redacção.

Quais são os principais media em influência determinante na sociedade? As televisões, obviamente e também os rádios, a par das primeiras páginas dos jornais.

Esta realidade nunca foi esquecida ou desprezada por nenhum governo e não há distinção de relevo entre a Censura institucionalizada que existia antes de 25 de Abril de 1974 e a Censura de facto que agora existe.
Antes, por imposição de regime e justificada pelo sistema vigente, com regulamentação legal conhecida ( barreiras à subversão comunista e a alguns costumes  de época, entendidos como perniciosos, neste aspecto com largas imitações nos países civilizados que não descuravam tal censura) . Agora, por imposição tácita do regime e justificada por um sistema de facto que não de direito e com manifestações práticas idênticas ( omissão de factos e ausência de notícias incómodas para senhores de um novo feudalismo político, ideológico ou mesmo económico).

A diferença essencial é que esta Censura nova não se executa em nome de um regime que coarcte liberdades cívicas aceites na sociedade moderna, com vista à defesa do próprio regime político identificado com uma certa concepção de integridade da Nação.
Agora, a nova Censura é manifestamente oculta, denegada e nem sequer é susceptível de ser positivamente identificada enquanto tal porque é mais perversa e assenta na censura interna de cada jornalista responsável pela edição que a pressente como obrigação,  sempre que os interesses diversos dos novos senhores feudais possam estar em risco e a sua carreira profissional com os inerentes proventos substanciais, ameaçada.
Tal acontece uma vez que os novos servos deste sistema que se apresenta como democrático carecem de uma autonomia profissional que se encontra impedida pela objectiva precariedade do vínculo laboral, profissional e pessoa, em muitos casos e pela natureza do sistema que necessita de balanços económicos positivos. Tal só se consegue, em muitos casos, com o apoio desses poderes e nunca contra os mesmos. É esta a perversão máxima entre quem deve ser independente e quem o não pode ser de todo.

Os jornalistas de hoje têm um poder mais alargado que antes , na obtenção de conhecimentos e notícias e paradoxalmente não o podem usar com a liberdade que deveriam ter e afinal é proclamada como existente e modelo de superioridade relativamente ao outro regime.
O que é conhecido na vox populi e no nosso pequeno meio, pode e deveria ser sindicado jornalisticamente através de indagações sumárias em círculos concêntricos de poder em que os jornalistas participam. Porém,  há o sentimento difuso de que existe em Portugal uma realidade oficial, mediatizada  e outra paralela que decorre num universo similar e de faz-de-conta e só incidentalmente se encontram.
Tal revela a falsidade deste pequeno mundo que se vive em Portugal e ao mesmo tempo a discrepância entre quem exerce esses poderes repartidos mas concêntricos e quem é alvo dos mesmos, pelas influências exercidas, ou seja a esmagadora maioria do povo, o que vota e principalmente o que deixou de votar por isso mesmo.

Essa realidade paralela participa de um pequeno universo, também paralelo, em que a lei é apenas uma referência vaga que não tem aplicação nesse pequeno mundo, sempre que possa evitar-se medindo as consequências em grau desprezível. A corrupção de alto coturno em Portugal ( ou por exemplo no Brasil)  tem ampla margem de manobra para evitar a exposição devido à sua natureza difusa e misturada com a aparência de legalidade estrita assegurada por leis à medida e escolhas políticos de quem garante a impunidade.
Quando, por qualquer casualidade, um dos protagonistas desses poderes é  capturado  em evidente exposição de falsidade e ilícito, logo os notáveis que participam desse poder se unem para fazer barreira à denúncia e castigo devido, usando os mecanismos que inventaram para se protegerem de tal efeito, dando ao mesmo tempo a aparência da estrita legalidade e invertendo a lógica da realidade, assumindo claramente a do mundo paralelo. A questão da violação do segredo de justiça é um dos exemplos mais claros desse fenómeno.

O universo paralelo é o do poder em toda a sua forma de expressão: económico, político, mediático e académico e mesmo o judicial em certas instâncias.
Por força do permanente convívio espúrio com esse mundo paralelo, os jornalistas escolhidos pelos poderes para dirigir os media, acabam por participar nessa farsa permanente e é disso exemplo o que sucedeu com os acontecimentos já aqui relatados,  da conferência do 25 de Novembro.
Este acontecimento singular tem importância acrescida porque não deriva da corrupção por motivos económicos estritos e de protecção deste ou daquele malfeitor inserido no sistema, mas é mais amplo e ideológico, o que revela até onde chegou a perversão.
O caso José Sócrates, por outro lado,  é a expressão máxima deste fenómeno, conjugado no singular, porque congrega todos esses elementos apontados, convocando toda uma série de perigos para os responsáveis desse poder do mundo paralelo.
O modo como os jornalistas chegados ao sistema relatam o caso é exemplar do comportamento referido. Creio que tal não deriva da consciência de cada um dos jornalistas que sabem, se forem minimamente inteligentes, que estão a colaborar numa farsa, mas apenas da imposição iniludível e até certo ponto inelutável de cada um deles, isolado.
O que se passou com a SIC-N no caso da conferência sobre o 25 de Novembro é simplesmente assustador porque revela até que ponto já chegou a opressão ideológica e política que se exerce nas redacções por quem tem o poder de decidir e participa daqueles círculos concêntricos de poder, no caso os directores de informação apontados, com a complacência dos donos que apenas se interessam pelos resultados económicos, assim melhor protegidos.

Desta forma, o poder dos jornalistas que devia ser independente, responsável e assegurado pelos próprios donos dos media, com vista à realização das finalidades básicas do jornalismo ( ser essencialmente contra-poder e órgão vigilante desses poderes de facto e de direito) não se exerce em plenitude e está seriamente condicionado, de modo talvez mais grave do que se existisse Censura como existia antes de 25 de Abril de 1974.
A liberdade de informação em Portugal é um mito porque os jornalistas não podem usar o seu poder de informar livremente sobre o que realmente se passa no país, mesmo que individualmente o quisessem.

Não o podem usar porque estão condicionados por quem chefia as redacções e edita notícias, escolhendo a importância das mesmas e seleccionando o que interesse, pondo de lado o que é desprovido de importância, segundo critérios que não são explícitos mas implicitamente se denotam e evidenciam.
Tal tarefa, básica, essencial e determinante para que se possa avaliar a liberdade de expressão e imprensa é a chave do segredo da Nova Censura que é prévia e mais insidiosa que a dos coronéis reformados de antigamente.

A criação de uma ilusão acerca do poder político é a chave dessa Censura e é nas televisões que tal prestidigitação se opera com maior eficácia e arte.

Parece-me isto de uma evidência tal que até grita.  Curiosamente ninguém quer aceitar publicamente este estado de coisas e a maioria dos jornalistas conforma-se com esta nova opressão.

O que se passa actualmente no Brasil e o que ocorreu em Itália nos anos noventa e seguintes é o melhor exemplo para compreender este fenómeno.
Lá , o que se passa no mundo paralelo da delinquência político-institucional é alvo de atenção mediática como por cá não acontece, nem sequer com os media do grupo Cofina. A revista Veja, cujas reportagens já tenho colocado aqui, em recortes, é  um órgão de informação de referência que tem escrito várias vezes na capa o que por cá nenhum jornal ou  revista escreveu ( nem mesmo o Correio da Manhã) sobre o significado do combate à corrupção existente nesse mundo paralelo.

Por cá vamos vivendo como na caverna de Platão em que as sombras da realidade são as que entrevemos perante o silêncio cúmplices daqueles directores de informação que por motivos ideológicos ou simplesmente de vidinha corrente ( talvez os mais plausíveis) escondem do povo o que sabem e deveriam investigar.

O caso mais paradigmático é o de José Sócrates cujas evidências de existência nesse mundo paralelo já são tantas que só quem viva nele ou nele prefira viver, encontra justificação para continuar a acreditar que tudo foi um equívoco e possivelmente uma cabala.
O caso dos "vistos gold", por outro lado e perante as confluências de poderes que convocou e se tornaram evidentes é ainda mais exemplar desse mundo paralelo que durante alguns anos existiu, numa completa impunidade e cujos contornos foram entretanto podados e circunscritos aos bodes expiatórios que serão julgados, ficando de fora peões de brega que acabaram por se inserir no sistema e por ele foram salvos. Para já.
Esta corrupção de altos funcionários não é a de grande coturno  mas apenas a pindérica, equivalente à do antigamente das cunhas pela passagem de certidão, mas revela o estado do Estado de direito que nos proclamamos de ser e torna mais clara a existência real daquele mundo paralelo. E revela como pode ser certa esta visão da realidade: o caso judiciário andou sem entraves de maior, foi mediatizado sem os rasgares de vestes dos patrícios do regime e assente em provas em tudo semelhantes às que permitiram descobrir o outro caso.
Não foi censurado nas tv´s do mesmo modo, não teve visitas de estado às cadeias nem os arguidos tiveram o apoio dos que querem fazer dos outros estúpidos.

Veremos se este panorama se mantém, altera ou agrava...porque as perspectiva não são boas, perante o exemplo que vem detrás. 


14 comentários:

Lura do Grilo disse...

Excelente. Nunca vi o assunto do jornalismo actual exposto desta forma. Muitos jovens, se vissem televisão desde pequeninos, nunca teriam ouvido falar das purgas estalinistas, da fome na ucrânia, dos processos de Moscovo, de che como ele foi, da invasão da Hungria e da República Cheka, do PREC, do Verão quente, da tomada de poder nas colónias pelos comunistas, etc, etc

Neo disse...

Tocou num ponto fulcral. O jornaleirismo português é um dos pilares do poder mafioso que capturou os órgãos políticos.
O que sucedeu a Manuela Moura Guedes é paradigmático e deve ter feito soar alguma campainha na mente de alguém mais arrojado.
Ou participam na farsa ou são excretados do sistema balsemónico oliveirístico.
O José tinha vaticinado 10 anos para o amigo de Paris. O meu palpite é que nem vai ser julgado.
Vai à TVI dar uma entrevista, creio. Aposto que o perguntador não vai ter coragem de ser jornalista :)

josé disse...

Continuo a vaticinar o mesmo prognóstico porque o sistema judicial já deu a cara ao mais alto nível e já percebeu que o caso tem pernas para andar.

E vai andar.

josé disse...

Porém, este desgraçado vai ser o bode expiatório de alguns outros, a par do Vara, seu conterrâneo, com curso na Independente tirado do mesmo modo e destino semelhante: o desterro político.

Ou muito me engano.

josé disse...

Quanto mais entrevistas der mais se enterra, como iremos ver amanhã

lidiasantos almeida sousa disse...

https://youtu.be/oIG9Ja33gxc

josé disse...

Faz também parte de uma certa facção do sistema que apresentei ridicularizar o actual presidente da República.

Contudo, já me esforcei por tentar perceber a razão verdadeira do pó que lhe têm.

Não gosto do Cavaco mas não sinto da mesma maneira este pó que lhe têm certos representantes da tal facção do sistema e do cerco que lhe fazem.

Há um mistério para deslindar porque "o Costa" é mais burro e mais básico do que o Cavaco e não sofre a mesma perseguição suspeita.

josé disse...

Esta ofensiva só tem um paralelo: o que fizeram ao Américo Tomás.

lidiasantos almeida sousa disse...

Senhor José tem mesmo a certeza que os vistos GOLD nãp são da autoria do chefão desse negocio. E o que acha do magnata chinês da FOSSUM? Poderá trazer-nos ainda mais problemas, pois abocanhou por reles quantia a FIDELIDADE E I HOSPITAL DA LUZ, fora o que não sabemos. o NOVO BANCO FOI POR UM TRIZ, o chefão do INDEX que agora já é uma PEN, não conseguiu ocultar a noticia que já circulava no Mundo. O Carlos Costa é mesmo um azelha, coitado, quer dizer coitados de nos que ainda não se resolveu o BES BOM E O BES MAU, já o BANIF esperneia. O que nos espera mais, pois as privatizações estão todas a rosnar. O aldrabão que vendeu os GTT ao Golden Sachs, incluindo a licença bancaria do BANCO POSTAL que tanta falta fazia para o BANCO DO Fomento ao serviço das pequenas e medias empresas. Deram~lhe um nome qualquer por não poder chamar-se BANCO, Contrataram um amigo para Administrador que está a receber ordenado há meses e agora a IGF descobriu que ele recebe do Estado e duma empresa privada, Coisas nunca vistas, O que fará no BDP o Sérgio ex secretário das obras publicas para o GOVERNADOR o contratar para vender o NOVO BANCO, Será que num mastodonte como o BdP não há ninguém capaz de fazer uma venda? , pois as sociedades de advogados a intermediarem este caso são mais que as mães e são as maiores de Portugal alem das 4 CASA ESPANHOLA, ESTAMOS A SAQUE.

Bic Laranja disse...

Esta Lídia sabe fazer muitas perguntas, e pertinentes, mas calhavam-me melhor aqui as respostas que insinua saber. Não estou a ser irónico. Se o José diz claramente mata a uns, porque não diz ela esfola da mesma maneira? O despique ao que se denúncia com razão não se justifica.
Cumpts.

josé disse...

Mas...o assunto BES é do mesmo âmbito que o processo do Marquês ou o dos vistos GOld?

Para mim, parece-me do mesmo género do BPN, agora muito esquecido depois de ter servido de conbustível para apagar qualquer discussão que pusesse em equação aqueles notáveis...

Por outro lado, o caso BES é um assunto de má gestão e daí até chegar ao crime vai a distância de uma falsificação de documentos e pouco mais.

Esta lídia é sempre faccios@

Lenocinio169 disse...

A FARSA DA DEMOCRACIA E DO "ESTADO DE DIREITO" PORTUGUÊS:
Um país nunca poderá ser uma Democracia sem ser também um "Estado de Direito".
ACONTECE que, Portugal não é um "Estado de Direito", logo também não é uma Democracia.
- Em Portugal existem, de facto, pessoas e empresas ACIMA da Lei.

- A violação da Lei faz-se às claras e pela mão dos próprios magistrados, causando milhares de tratamentos DESIGUAIS, em que se favorece SEMPRE os mesmos: quem mais poder tem.

No link está um exemplo, claro e indesmentível... que dura há 20 anos: http://lenocinio169.blogspot.pt

Adelino Ferreira disse...

...e o Banco?

http://www.dn.pt/dinheiro/interior/banif-vai-fechar-4928223.html

Gaivota Maria disse...

É falam na censura de antes do 25de Abril. A maior parte dos jornalistas nem era nascida. Censura mesmo é a de agora porque andam a enganar toda a gente para esconderem verdades que belisquem o regime, os seus apaniguados e os próprios jornalistas