Páginas

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Os 50 anos da banda do sargento Pimenta



Há 50 anos atrás, mais ou menos por esta altura  saiu um disco Lp dos Beatles que deu brado: Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band.
O disco vinha precedido de um single saído em Fevereiro desse ano, com músicas que dele não fizeram parte ( mas podiam ter feito), Penny Lane e Strawberry Fields Forever e foi sucedido por outro single, em Julho, All you need is love. Clássicos da música pop.



A última edição da revista inglesa Mojo, em grande parte dedicada ao cinquentenário do disco ( a concorrente Uncut dedica o número ao "Summer of Love" de 1967, na ausência de exclusivo) , traz uma entrevista com Paul McCartney em que o mesmo afirma ter o grupo sentido a necessidade de compor coisas mais arrojadas porque tinham parado os concertos e por isso tinham mais tempo para compor.
Na época os Beatles eram  o maior grupo  do panorama pop/rock e Portugal não estava isolado nesse panorama, apesar do que possam dizer alguns fósseis do antifassismo primitivo.
Como era costume nessa época e durou ainda muitos anos, os discos que se publicavam “lá fora” ou eram importados, necessariamente em pequenas quantidades ou eram depois prensados por cá, longos meses depois. Sgt Peppers foi eventualmente um dos importados e depois prensados mas não há notícia da data em que tal sucedeu porque a Valentim de Carvalho ardeu para esses registos no incêndio do Chiado de 1988.
A revista Século Ilustrado de 5 de Agosto de 1967 já mostrava algumas letras do disco e fazia uma pequena recensão crítica ao mesmo. Contava até um pormenor curioso: uma das canções, A day in the life tinha sido censurada na BBC ( na verdade, outra, Lucy in the sky with diamonds também o foi, pelos mesmos motivos) por fazer apologia do consumo de drogas, o que juntou pontos de exclamação e interrogação ao escriba da revista...

Imagem tirada do livro de Abel Rosa,  Os Beatles na Imprensa portuguesa

 Tal curiosidade fica porém esclarecida na edição de agora da Mojo que publica em fac-simile a carta do director da BBC ao presidente da EMI, a confirmar o acto de censura, coisa vulgar nas terras de sua majestade mas por cá muito vituperada:


Na altura havia em Portugal um programa de rádio que tinha começado em 1965 e durante a semana passava as novidades da música popular de expressão anglo-saxónica. Em Órbita, a modernidade então existente , era único até no panorama europeu. 

O programa costumava no final do ano fazer um apanhado classificativo das melhores músicas e discos.
No final de 1966 tinha sido assim, como mostrava o Século Ilustrado de 14 Janeiro de 1967:


Nesse ano de 1967 aquelas três canções dos Beatles foram consideradas pelo Em órbita como algumas das melhores, como aqui se refere num regresso ao passado.
O  disco Lp  foi mesmo considerado o melhor do ano de 1967, tendo como concorrentes imediatos, o disco de Simon & Garfunkel, Parsley Sage Rosemary and Thyme, seguidos dos discos de Peter Paul and Mary, Jefferson Airplane ou dos Byrds, com Younger than Yesterday.
Para além de uma espécie de top dos Lp´s também se fazia uma classificação idêntica para as cançonetas no ano.
A que ficou em primeiro lugar, para os votantes do programa e com 217 pontos, foi Hazy Shade of Winter dos  Simon & Garfunkel, seguida de Penny Lane com 213 pontos e Nights in white satin dos Moody Blues, com 208.   Os Procol Harum, com o sucesso desse ano, Whiter shade of pale ficaram num pálido e recuado 15º lugar, recolhendo uns meros 111 pontos.

A piorzinha desse ano, para o Em Órbita, seria a canção vencedora do festival da Eurovisão, Puppet on a string, cantada descalça por Sandie Shaw. Critérios do snobismo da época...que se nota demasiado nas escolhas idiossincráticas que deixaram de lado o fenómeno do Verão hippie, o summer of love, sintetizado na canção de Scott MacKenzie, San Francisco, saída em Maio desse ano ou os discos dos Pink Floyd ( The piper at the gates of dawn) ou dos Beach Boys ( Smiley Smile) ou mesmo dos Love ( Forever changes).
O destaque desproporcionado que é dado a Simon & Garfunkel confere uma datação implacável aos critérios de escolha . Percebe-se que o Em Órbita tenha estiolado e acabado em Maio de 1971, precisamente a altura em que comecei a dar importância à música rock e por isso tive que descobrir todo esse período fundamental,  em retrospectiva.
Nesse hit parade das cançonetas, não aparecia nenhuma  de Sgt Peppers  e percebe-se porquê: o disco não tem canções evidentes para sucesso imediato, como single. É um todo. O produtor musical Glyn Johns  que também trabalhava na época com os Rolling Stones diz à referida edição da Mojo que para ele, na altura, o disco Sgt Peppers se assemelhava a uma vista para uma obscura peça de arte moderna depois de passar horas a olhar para uma composição clássica de retrato.
Houve já quem considerasse Sgt. Peppers o melhor disco da música popular de sempre ( Rolling Stone, 27 de Agosto de 1987) , nesta expressão anglo-saxónica, apesar de não ser um disco de música rock, estritamente.



 Na época, o sucesso foi também imediato e global, possivelmente ajudado por aqueles singles fabulosos que saíram ao mesmo tempo, mas dele não faziam parte e pelo historial do grupo. O impacto do disco, no universo da música popular e não só, foi tremendo, neste e no outro lado do Atlântico.

Não obstante, as grandes obras dos Beatles ainda estavam para aparecer. Em 1968, o "disco branco" e nos anos seguintes Abbey Road, possivelmente o mais perfeito de todos e o derradeiro, Let it Be, obras-primas da música popular.

Ao longo dos anos o interesse público e mediático pelos Beatles e respectiva música nunca abrandou, como o denotam estas capas de publicações que se espaçam no tempo de 1970 a 2017:


Em vinte anos, só em revistas dedicadas ao tema "Beatles" foi possível reunir este acervo:



Passados 50 anos temos uma reedição desse disco, renovada em vários formatos e com novidades: a inclusão até do single fundamental lançado antes- Penny Lane e Strawberry Fieds Forever -como fazendo parte do que nunca fez mas poderia ter feito.

Antes desta novidade agora saída, o disco tinha sido publicado em cd em Junho de 1987 e depois, em 2009, rematrizado em stereo e mono, em cd e lp. A história toda do disco está aqui bem relatada.

Em Setembro de 2009, por ocasião das reedições rematrizadas em cd,  a revista Uncut tentou  apanhar os efeitos que a música dos Beatles provocou em diversos domínios, particularmente musicais e publicou uma imagem de figuras míticas a condizer que ficaram algo a dever aos Beatles:


Glyn Johns diz na entrevista à Mojo que nenhum disco , antes ou depois, soa como Sgt.Peppers e que nem deixou descendentes artísticos por causa disso. Por mim, não sei, gosto de ouvir os Electric Light Orchestra que ficaram a dever bastante a esse disco. Lucy in the Sky with Diamonds, por exemplo foi uma boa fonte de inspiração para esse e outros.
 Seja como for, a reedição actual de Sgt. Peppers, segundo Paul McCartney justifica-se pela recuperação da dimensão “mono” do registo sonoro original, através de uma remistura de instrumentos e vozes. A versão original sendo em mono, a verdade é que também foi publicada na altura em stereo, por obra e graça do produtor George Martin. Aquando da reedição em cd da obra dos Beatles, em 2009, rematrizada, também saiu em stereo e foi considerado então o nec plus ultra da obra em causa.
Porém, a versão mono é agora remisturada e modificada para aquilo que Paul McCartney se lembra de ouvir como foi e que julga que pode “soar melhor”, apesar de não ligar demasiado a esses aspectos “técnicos”. Uma versão 3d do registo em mono, como se refere na entrevista.
Então como se deve escutar Sgt. Peppers, em modo de recordação?
Por mim, tal como no caso dos Beach Boys ( Pet Sounds, saído no ano anterior) deve ser conforme me lembro de o ouvir inicialmente, em stereo. Mas não foi em 1967 e sim alguns anos depois, no rádio ( que então passava os discos inteiros, em certos programas, convidando ipso facto a gravações pirata) , já em stereo e depois em disco Lp. A experiência física com o lp, aconteceu no início dos anos oitenta, com a reedição que a Valentim de Carvalho fez por cá, com data incerta, dessa discografia, possivelmente durante o ano de 1982.

Porém, nessa altura para conhecer os Beatles não era necessário ter ouvido religiosamente todos os seus lp´s.  A difusão mediática, nos rádios particularmente, das músicas dos Beatles, era suficiente. O impacto mediático dos discos anteriores tinha sido importante e apesar de o mercado nacional não ser tão alargado como noutros países, quem ouvia o Em Órbita ficava a conhecer tudo o que era importante na época.

Este desenho de Alan Aldridge, publicado originalmente em livro de 1969 dava uma ideia da diversidade temática e poética das canções porque nele se encontram alusões a uma dúzia de canções dos Beatles:


E como é agora publicitada esta nova versão do disco? O Expresso "viajou a convite da Universal"  a Londres, ao lançamento realizado no estúdio Abbey Road e de lá trouxe este apontamento, assinado por uma Lia Pereira. Quem não tem um Luís Pinheiro de Almeida ou um Abel Rosa  caça artigos deste género. Podia ser pior...


 O Diário de Notícias de hoje, pela pena semiótica de João Gobern, escreve isto que me provoca logo um desgaste penoso, pelas ideias confrangedoras. Passa o artigo todo a tentar demonstrar que hoje não seria possível gravar uma obra destas por causa do tempo de estúdio...esquecendo que os métodos actuais de gravação digital permitiriam isto e muito mais, em casa se preciso fosse e equipamento singelo houvera, caso houvesse talento para tal.



Quanto à tradução no Expresso dos pequenos trechos da Mojo, particularmente a entrevista de Paul McCartney torna-se interessante verter para português corrente a expressão "Well, in the Beatles we weren´t into stereo" por "nós não gostávamos do estéreo". Porém, não acrescenta que a versão em estéreo foi realizada por George Martin, porque o trabalho feito em mono tinha sido definitivo, para eles, Beatles.
 Estes artigos críticos na imprensa nacional de sempre são geralmente medíocres porque lhes falta o essencial: serem escritos por quem gosta da música  e a sabe apreciar e ao mesmo tempo tenha talento para relatar o que essas obras lhes dizem pessoalmente, onde as ouviram, como quando e porquê. À míngua disso tudo fazem redacções com ideias alheias que evidentemente copiam de qualquer lado disponível e são miríade nos tempos que correm na internet.

O que um Luís Pinheiro de Almeida, Abel Rosa ou Teresa Lage poderiam escrever sobre tal assunto não é compensado pelas informações factuais recolhidas algures e que todos podem verificar na internet. Os jornais ainda não perceberam isso e queixam-se depois da falta de leitores...
Somos ( quem lê jornais...) inundados de artigos impessoais, escritos sem estilo próprio, copiando ideias avulsas e alheias. Falta na crítica musical um indivíduo como o Rui Tovar filho que escreve sobre futebol como poucos ou ninguém. Mesmo o MEC dos velhos tempos dos anos oitenta deixou sempre algo a desejar. Enfim é o que temos e por isso vale a pena ler a Mojo, a Uncut, por vezes a Rolling Stone ou a Rock&Folk ou a  Guitar Player ou Musician dos velhos tempos que foram sempre as bíblias impressas destes boas novas e cuja leitura pelos vistos dispensou sempre o esforço pessoal da crítica subjectiva de quem escreve.
 
O disco original, inglês ( versão stereo) é este e aos meus ouvidos soa muito bem. Não sei se me tento pela audição da remistura em blu ray, o que nunca sucedeu com qualquer disco dos Beatles. Até agora quem quisesse ouvir Beatles, para além dos originais em lp, mesmo reimpressos, só tinha o som em cd vulgar ou quando muito, na versão adulterada ( por George e Giles Martin) de Love, saída em 2006, em dvd-audio...e cuja experiência auditiva é um tanto ou quanto estéril e não faz esquecer o original em vinil. O mesmo se passa, aliás, com as regravações de algumas canções, por Paul MacCartney em discos  com os Wings ( Over America, ao vivo, de 1976) ou a solo ( Give my regards to broad Street, de 1984-Yesterday e Eleanor Rigby).


Acabei de ler o que João Cândido da Silva escreve no Observador sobre este disco e a efeméride que concita.

Qualquer um poderia escrever o artigo após a consulta deste livro:


Não custava nada ter escrito no fim do artigo: para a maior parte dos factos citados foi usado material original  escrito por Ian Macdonald, já falecido. Era bem mais bonito e honesto porque estas coisas são aflitivas.

9 comentários:

contra-baixo disse...

recomendo leitura

https://www.theatlantic.com/entertainment/archive/2017/05/how-the-beatles-wrote-a-day-in-the-life/527001/?mc_cid=95399d0d29&mc_eid=08c62a60f2&utm_source=fbb

para mim a melhor canção do SP.

josé disse...

Já li parte do artigo que é de facto muito bom e mostra bem o que gostaria de ler por cá: impressões subjectivas e bem organizadas sobre a música dos Beatles e dos seus discos.

Diz lá que Revolver ou Rubber Soul são discos melhores que este e isso é a tal impressão subjectiva. Por mim, é Abbey Road, o mais perfeito.

josé disse...


"As Giacometti told his biographer James Lord, “The more you struggle to make it lifelike the less like life it becomes. But since a work of art is an illusion anyway, if you heighten the illusory quality, then you come closer to the effect of life.” The illusion of something ordinary becomes something eternal, the forever day—and the song of a lifetime."

Esta parte final do artigo se fosse entendida por quem escreve sobre qualquer coisa, como a música pop, daria para bons artigos. Assim temos sempre porcaria escrita, sem interesse nenhum.

josé disse...

E escrevi isto a ouvir A day in the life na versão dvd-audio, do disco Love, remisturado por George Martin e pelo filho, Giles que agora remisturou esta nova versão do Sgt Peppers.

A seguir estou a ouvir Hey Jude, do mesmo disco. Antes vinha While my guitar gently weeps numa versão original de George Harrison que não é a que aparece no disco branco.

Visto e ouvido isso tudo, concluo que o som dos discos originais vale mais que estas novas versões, apesar estas serem mais perfeitas em termos sonoros.

josé disse...

Penny Lane, por exemplo:

Durante a canção pode ouvir-se um som de trompete que aqui e acolá debita umas notas. Parte dessas notas são imitadas do Segundo concerto brandeburguês de Bach, tal como MacCartney as terá solfejado no estúdio para o trompetista ( David Mason) e que Macca tinha ouvido na tv uma semana antes.

joserui disse...

Dos Beatles só posso dizer que gosto realmente de um álbum e praticamente só por causa de uma música "Tomorrow Never Knows". É perfeita e podia ter sido gravada ontem de tão actual — aprecio muito isso.
Há um episódio da série Mad Men que se me lembro acaba com essa música. Acho que até me arrepiei.

Anjo disse...

A "Day in the Life" é uma obra de arte. É a minha canção preferida do álbum. E parece estar bem distante da maior parte das composições deles até então: riqueza orquestral e vocal, muito mais longa, rítmica e melodicamente diferente do grosso da produção deles, letras surreais e oníricas mas interessantes (fora da ladainha dos amores e paixões), etc.

Não sabia que Penny Lane esteve para sair no Sgt. Peppers. Mas os meus conhecimentos de música não se comparam com os do José, claro.

Keytas disse...

Desculpe,vou pegar.

zazie disse...

Grande artigo!