domingo, 19 de janeiro de 2020

O regime corrupto de Angola é passível de investigação criminal pelo DCIAP português?

Sapo, declarações do "activista" angolano Sedrick de Carvalho:

A viver em Portugal desde 2017, após o desfecho do processo conhecido como 15+2, no âmbito do qual esteve preso em Luanda, o ativista e jornalista disse à Lusa que, sendo “produto dos maiores esquemas de corrupção do país a partir do seu pai”, o anterior Presidente de Angola, José Eduardo dos Santos, a empresária “sente-se com legitimidade de reclamar porque ela está a ver que outros que também são beneficiários desse esquema gigantesco continuam incólumes ao lado do Presidente da República”, como é o caso do ex-vice-presidente Manuel Vicente.

“O que ela está a tentar transmitir é que não merece ser julgada porque outros também beneficiaram do saque, do roubo, que é, na verdade, um discurso que tem razão de fazer, porque quem a está a julgar, a apertar, a colocar contra a parede, são também corruptos e deste ponto de vista não há legitimidade para corruptos julgarem corruptos. Agora se estivéssemos perante instituições sérias no país, claro que Isabel dos Santos tem que ser julgada e até condenada”, afirmou.

Para Sedrick de Carvalho, há em Angola “um grande truque de ilusionismo político” e a luta contra a corrupção é uma “pedra de arremesso” num processo de mudanças de poder internas no MPLA, não existindo, de facto, uma mudança no país, mas “uma continuidade, uma mesmice de comportamentos”.


A luta contra a corrupção é, no seu entender, “um bom pano de fundo” que “atrai as massas”, mas que não tem correspondência real, a começar pelo facto de os principais protagonistas serem os mesmos.

Sublinhando que o discurso de luta contra a corrupção que João Lourenço faz “não é muito diferente do que o José Eduardo dos Santos fazia”, o ativista afirmou que nada foi feito para “começar do zero”, enquadrando o atual Presidente na “classe rica” fomentada pelo seu antecessor.

Se não, “como se vai compreender que João Lourenço era acionista, ou é acionista, de bancos sem ter conseguido essas ações pela via da corrupção, num sistema em que José Eduardo dos Santos liderava e todas as vias de acesso ao capital angolano eram pela via da corrupção. Não há nenhum processo transparente de acesso”, declarou.

Para o ativista, a assunção de se ter usufruído da corrupção para “fazer uma catarse nacional” não interessa ao regime.

“Não pode começar do zero, porque ele precisa de iludir as pessoas com o discurso da corrupção. Daí é que ataca, por exemplo, a Isabel dos Santos, que é um dos principais rostos da corrupção em Angola, porque representa sobretudo a família Dos Santos, mas não ataca o Manuel Vicente, antes pelo contrário, ataca Portugal a defender o Manuel Vicente, exatamente pelo mesmo motivo, pela corrupção”, afirmou.

Apontou ainda a ausência de “alarido” perante a notícia de processos em Portugal contra Isabel dos Santos, quando João Lourenço “moveu mundo para defender Manuel Vicente” no caso do processo de corrupção que correu em Portugal e que culminou com a condenação do Procurador Orlando Figueira.

“São essas dualidades que pouca gente compreende, mas cada vez mais pessoas estão a compreender que não é para levar a sério a luta contra a corrupção. É tudo uma manobra muito grande de ilusionismo político levada a cabo por João Lourenço”, acrescentou.

“Não é mera convicção minha que o país não está a mudar. Há pessoas muito respeitadas, no país e fora, que chegaram a acreditar que havia uma mudança no país, mas que eles dizem atualmente que não, é tudo retórica”.

“Há um grande truque de ilusionismo político no país, mas no essencial é a mesma coisa”, disse, salientando que o que existe é uma luta pelo poder “muito forte” dentro do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola, que governa o país desde a independência, em 1975).

“A forma como o país tem sido governado não é uma visão do Presidente, é uma visão do partido”, afirmou, sublinhando a sua convicção de que “é muito mais fácil o partido tirar João Lourenço do que João Lourenço mudar o partido”.

O processo movido a Isabel dos Santos “é político, mas é político como sempre foi no tempo do pai dela”, pois o MPLA “não consegue conceber, não compreende, a lógica de divisão do poder num Estado de direito democrático”, salientou.

“Toda e qualquer ação que é levada a cabo com os tribunais é levada a cabo com o apadrinhamento, o incentivo, do poder político e basta ver que o despacho do arresto de bens e contas de Isabel dos Santos tem o serviço de inteligência e segurança do estado envolvido nele. Isto é inevitável em Angola”, salientou.

Para Sedrick de Carvalho, a ideia de “perseguida política” e de “defensora da democracia” que Isabel dos Santos “tenta passar”, e de que está a ser “combatida” por ter tentado acabar com a corrupção na Sonangol, “é tudo uma mentira, uma falácia”.

Sobre a situação social em Angola, o ativista alerta que “é cada vez mais caótica” e sublinha que se mantém a “repressão política”.

“De 2017 para cá houve pelo menos cinco casos de repressão política. Neste momento em que estamos a falar, há presos políticos no país”, acrescentou.

Perante isto que é uma denúncia de um regime, tão válida quanto as participações dos bancos para efeitos de investigação do crime de branqueamento de capitais, como deve agir o MºPº português, mormente o DCIAP?

Atirar a tudo o que mexe e fazer uma sindicância gigantesca ao regime angolano in totum? Distinguir entre as denúncias politicamente correctas e veiculadas pelos bancos em prol do poder que está e desprezar as outras? 
Investigar tudo em nome do princípio da legalidade e da igualdade dos cidadãos perante a lei? 

Ou simplesmente cair no ridículo?

A escolha nem é difícil...

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