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terça-feira, 13 de outubro de 2015

O comunismo nunca existiu

Assiste-se nos dias que correm a uma infrene tentativa de reescrever factos histórios e mudar ideias à pressa para vestir casacas que sirvam à esquerda comunista. Objectivo? O poder político em Portugal que de facto nunca mais tiveram, após a experiência do PREC de 1974-75.

Desta vez, como convêm à farsa histórica, é o próprio PS que sempre se opôs a tal conluio, a alimentar a ilusão do "e tudo era possível", com décadas de serodismo. Já salivam novamente os desejos e as facas estão a afiar.
O jornal Público é o melhor veículo desta nova ilusão e a prova está neste artiguelho publicado hoje.

Em resumo: o comunismo estalinista nunca existiu e o PCP nunca o aprovou. E se aprovou, desligou-se dele logo em 1957, com uma crítica a Estaline publicada numa das "teses" de congresso habituais. E está o caso arrumado.
Sobre o leninismo do PCP, idem aspas porque é apenas uma ideia vaga sobre uma referência e nada mais. O PCP é um partido que sempre seguiu Álvaro Cunhal, o guru insubstituível e por isso é citado: "Mas ser leninista não consiste em endeusar Lenine"...

No artigo cita-se uma entrevista de Álvaro Cunhal ao Independente de 1990. É esta:

Na entrevista, aliás muito soft mas a única em que foi possível colocar ao então líder do PCP tais questões e obter respostas, Cunhal não esconde o desgosto sobre o que se passou com a queda do muro de Berlim...e a falência do regime comunista:




O que é que se denota nesta entrevista de Cunhal nos idos de noventa? A mesma ideia simples que o PCP agora procura transmitir: a de que é um partido com a democracia burguesa instalada e que afinal o jogo democrático é algo  que lhe é inerente aos princípios e valores. O dicurso oficial do PCP em entrevistas, artigos e publicações de congresso sempre foi esse, com algumas excepções e pormenores em que escondem os verdadeiros propósitos.

A única vez que Cunhal falou claro sobre os verdadeiros propósitos do PCP foi numa entrevista a uma jornalista italiana, Oriana Falacci, em Junho de 1975, publicada no L´Europeo e que por cá foi apenas mencionada no Expresso, mas sem transcrição integral ou discussão aberta sobre o assunto. O jornalismo de então, aliás como o de agora, do Público e das tv´s em geral, escondem estes assuntos deliberadamente e não há discussão pública sobre a natureza do PCP, o seu estalinismo convicto mas reciclado e o seu leninismo de sempre adaptado às condições nacionais " do nosso povo".

Que ninguém tenha ilusões disso porque é inerente ao programa do PCP e aos seus princípios de pensamento político, o seguinte, publicado na revista francesa Paris Match de 28 de Junho de 1975:



"Em Portugal jamais haverá uma chance para uma democracia como as que têm na Europa ocidental".


O PCP mudou alguma coisa, ideologicamente, desde então? Nada, nem um milímetro programático. O que mudou foi a táctica que é a mesma de sempre aliás: fazer-se de morto quanto a estas questões fundamentais ( Cunhal negou a autenticidade da frase, Falacci disse que tinha gravado a entrevista e que poderiam sempre verificar. Nunca o fizeram, nem o Expresso de então, de Balsemão e  Marcelo Rebelo de Sousa se mostrou alguma vez interessado...).
O que Cunhal então disse não foi um lapso ou uma declaração irreflectida; antes exprime o genuíno pensamento lógico e coerente do comunismo de então e também de agora que no caso do PCP nunca mudou, como aliás fazem gala em proclamar.

Não é possível ao PCP ou a qualquer outro partido comunista com as mesmas características e todos eles aliás acabaram na Europa ocidental com excepção do PCP, tomar o poder e governar de acordo com as regras da democracia parlamentar burguesa. É uma impossibilidade metafísica que agora só uma visão surrealista ou oportunista ( PS de A. Costa) da sociedade pode esquecer.
O PCP não é um partido democrático como nos habituamos a conhecer durante estes anos e nunca o foi. Foi apenas um partido reaccionário do comunismo, ressentido pela derrota de 1975 e ansioso sempre por reverter às conquistas revolucionárias do "nosso povo". E conseguiu-o em parte, sempre com a colaboração  do PS, como aconteceu na Constituição de 1976, embora a contradição inerente lhes sirva sempre de leit-motiv político. O PCP vive disso e para isso, como se pode ler no O Militante, essa nostalgia permanente do PREC de 1974-75 e a vituperação da "recuperação capitalista", contra as privatizações, etc etc. 

Portanto é relativamente fácil de desmontar o artiguelho do Público: basta ler o que os comunistas portugueses publicaram desde 1975.
Desde o golpe de 25 de Novembro que o PCP se tornou um partido pária, sempre à espreita de oportunidade de tornar outra vez "e tudo era possível". Nunca o foi e por isso o rosário e os muros de lamentações permanentes duram há quatro décadas ininterruptas nos seus escritos, discursos e proclamações.
Quem ler O Militante actual ou quem ler os Avantes de outrora ou os jornais da "verdade a que temos direito", como foi o diário, é isso que lê: uma catilinária permanente contra as privatizações, contra a retoma do sistema capitalista, contra o "imperialismo" ( Cunhal reafirma tal coisa naquela entrevista), contra o sistema burguês de representação e de governo.
Actualmente estão na fase da "democracia avançada" que aliás já dura há quatro décadas...mas ninguém pergunta concretamente o que tal significa.

Quem quiser saber o que é o PCP pode ler estes sumários dos dois últimos números de O Militante:


E quem quiser perceber por que razão o PCP nunca será um partido como os demais da democracia burguesa e acabará com a mesma logo que puder, basta ler o que escrevia o mesmo O Militante em Setembro/Outubro de 2014: o mesmo que poderia ter escrito ( e escreveu...) em 1975:


Estas realidades eram claras para muita gente, excepto para uma generalidade de jornalistas. Em 1984 uma dissidente do PCP e que conheceu bem Álvaro Cunhal e O Partido, dizia assim a O Jornal, desmistificando o mito corrente e ainda actual:

Quem pensa que o PCP é agora "um partido como os outros" e que afinal entra no jogo democrático da democracia burguesa, pense outra vez e leia. Leia principalmente O Militante que até tem um sítio online. Leia, por favor, prestando-se um favor a si próprio.

O PCP, tal como há 40, 30, 20 ou dez anos continua  um enigma.


Só esta gente não vê tal coisa...porque para elas o Muro ainda lá está...e é assim que deve ser.



 Quem fizer acordos de governo com o PCP, à semelhança do que ocorreu em 1974-75 arrisca-se a uma aventura perigosa. Nas autarquias e na representação parlamentar limitada ainda vá que não vá, uma vez que por força dos sapos que engolem todos os dias, vão espumando uma gosma que acaba por ser o antídoto às tentações de outros partidos, como a corrupção e o clientelismo. Mas é apenas uma situação de oportunidade. Dando-lhes as condições são como os demais ( Judas em Cascais...remember? A senhora de Almada... e mais festas de Avantes subsidiadas de modo esconso, etc etc).
O PCP não é e nunca poderá ser um partido de governo porque a única vez em que o foi deu no que deu: 1975 e o PREC. E a bancarrota veio logo a seguir.

É isso que o "nosso povo"  quer? Evidentemente que não e não adianta andarem por aí com artiguelhos de meia tijela a tentar demonstrar o indemonstrável: que o PCP é um partido democrático. Não é. Ponto final.



7 comentários:

foca disse...

Depois do sapo do Cunhal para evitar o Freitas na Presidência (como são as coisas!), agora vão engolir elefantes com sorriso de orelha a orelha.

Entre xuxalistas e extrema esquerda, de tanto dobrarem as costas estão quase a andar com o focinho pelo chão.
Para mim passaram a papa-formigas

Floribundus disse...

não sei o que vai suceder,
mas coisa boa não será

não existe povo

conheço comunas, xuxas, gente do centro
quase todos mal informados

todos a sonhar ser ricos sem necessidade de trabalhar

basta olhar para a miséria intelectual e outras da ar

antes de 1960 havia casas de tias onde o nível era mais elevado
e inspecção médica obrigatória

o barreirinhas deixou 'dez sem dentes'

capador precisa-se!
tem largo futuro

flash disse...

A que senhora de Almada se refere, o José? O que há a dizer sobre ela? Trata-se da ex. presidente da CMA?

Fernando Miguel

josé disse...

É por causa disto

DA disse...

O problema das autarquias do PC está longe de ser a corrupção. É mesmo o imobilismo.

contra-baixo disse...

"Nas autarquias e na representação parlamentar limitada ainda vá que não vá, uma vez que por força dos sapos que engolem todos os dias, vão espumando uma gosma que acaba por ser o antídoto às tentações de outros partidos, como a corrupção e o clientelismo."

Pode explicar melhor o que quer dizer com isto?

contra-baixo disse...

Já agora, sobre a notícia que o comentário das 18:53 hiperligou, é de 2003, desde então já deve ter havido acusação, pronuncia, julgamento, recursos e trânsito em julgado da decisão que condenou. Não se consegue uma notícia mais fresca?