segunda-feira, outubro 05, 2015

A tentação esquerdóide do PS

Há 40 anos, em 25 de Abril de 1975  ocorreram as primeiras eleições ditas livres ( porque incluíam pela primeira vez partidos comunistas e socialistas) e o PS ganhou com 37,87% dos votos, seguido do PPD com 26,38%. O PCP obteve então 12,53%. Num universo de um pouco mais de 6 milhões de eleitores votaram mais de noventa por cento, um record eleitoral em Portugal.
A esquerda no total conseguiu mais de 80% dos votos e os deputados tinham uma "clara maioria de advogados", cerca de 24 do PS e 20 do PPD.

As eleições eram para a Assembleia Constituinte porém colocava-se o problema da legitimidade eleitoral com reflexos no governo. Tal competia ao presidente da República e ao Conselho da Revolução e em Abril de 1975 o PREC estava em marcha acelerada.

Mário Soares, então ministro dos Negócios Estrangeiros,  terá dito ao director do Jornal Novo ( Artur Portela Filho), que os resultados eleitorais deveriam ter influência na composição governamental e conduzir a modificações na mesma.
Na edição de 29 de Abril de 1975 ( o jornal saíra pela primeira vez, 10 dias antes) Mário Soares escrevia uma carta ao referido director a desmentir tal afirmação e resultado de "um equívoco" gerado numa conversa de madrugada eleitoral. A resposta foi demolidora: " Já não acho inteiramente Mário Soares, nem profundamente socialista, que telefonando-me V. a pedir uma rectificação e sugerindo-lhe eu uma entrevista através da qual o seu pensamento surgiria clarificado, perante os leitores do Jornal Novo, o secretário-geral do PS tenha concordado "desde que eu lhe desse a ver as provas".

Na edição de 28 de Abril de 1975 a análise dos resultados eleitorais nesse jornal era esta, efectuada por três comentadores de vulto e cuja ideologia continua pervasiva no Portugal de hoje, passadas estas décadas.


No dia seguinte a análise continuava e parece que os problemas ideológicos e políticos que temos actualmente, com a distância do tempo não são assim muito diversos dos que então se elencavam: de um lado uma esquerda marxista-comunista bem implantada e influente; do outro as forças de oposição a essa tendência esquerdizante na sociedade portuguesa que se iria impôr ainda mais nos meses seguintes.
O Jornal Novo de 29 de Abril de 1975 mostrava como os estrangeiros nos viam na altura: " derrota da direita", ou seja, não consideravam o PPD como sendo de direita. O editorialista do Le Monde escrevia: " dispondo de maioria absoluta, socialistas e social-democratas inflingiram derrota esmagadora à direita". O CDS? Nem contava...






O PS era por isso o pivot de um problema: alcançar uma maioria de esquerda marxista para governar Portugal.

A questão era claramente colocada no segundo número de O Jornal, de 9 de Maio de 1975, por Cáceres Monteiro e acicatado pela imagem da primeira página: "só a unidade é revolucionária".

A questão do PS se situar no seu lugar político de social-democracia mais esquerdizante ou tomar o partido do marxismo é tão velha quanto estes problemas antigos.
Há uma parte desse PS que anseia a experimentação aventureirista do esquerdismo e lá estão os Ferros Rodrigues que vieram da extrema-esquerda de então para proporem sempre tal opção. Outra parte, a que tem vencido a contenda ao longo destes anos, actualmente representada por um Francisco Assis ou mesmo um Seguro,  encosta-se ao que Mário Soares sempre defendeu: um partido de "socialismo democrático" sem ceder ao marxismo comunista a possibilidade de um entendimento ideológico e mesmo político em  matérias fundamentais de organização da sociedade. Isso apesar de resistências permanentes à alteração da Constituição, até 1989 e que nos entravaram o desenvolvimento durante décadas e causaram alguns dos males actuais da nossa economia, incluindo a bancária.
A mãe do actual secretário-geral do PS, Maria Antónia Palla é certamente uma das que optaria pelo marxismo esquerdizante, tal como muitos outros que aparecem agora em posição de destaque.
Veremos por isso o que o PS vai fazer.

Quanto a outros indivíduos como Marcelo Rebelo de Sousa que sabe muito bem como estas coisas aconteceram,  é ver o que diziam nessa altura, sobre o mesmo PS e a sociedade portuguesa:

Expresso de 3 de Maio de 1975:


E ainda do Expresso de 17 de Maio de 1975:  como é que o jornal encarou uma das maiores revoluções na Economia portuguesa?
Assim, com esta displicência típica de um Marcelo Rebelo de Sousa ou a cretinice de um dos seus directores actuais:


O PS encontra-se actualmente, passadas estas décadas, perante uma nova encruzilhada ideológica, desta vez sem grande dificuldade de opção.
O PCP e o BE são forças políticas fossilizadas ideologicamente num comunismo fora de época. O BE não se revela como tal porque esconde o marxismo de raiz e as contradições inerentes. Conseguiu fazer uma campanha em que os problemas ideológicos nunca foram levantados e discutidos concretamente porque teve da parte dos media, particularmente da cretinice televisiva o apoio e o amparo que precisou.

A escolha do PS é simples: ou continua o socialismo democrático da social-democracia ou enfeuda-se num beco ideológico que só tem comparação com um Syriza.
Uma lástima e uma tragédia se assim for.

Aditamento:
Nem de propósito, faz hoje anos que saiu, em 5 de Outubro de 1979, o diário Portugal Hoje, afecto ao Partido Socialista e financiado por fontes que então eram as do costume e Rui Mateus conta no seu livro proibido pela censura socialista.
Aqui fica a primeira página do jornal tal como publicada aqui.
Nela se pode ler claramente o que Mário Soares pensava das eleições desse ano, com a AD e a impossibilidade de acordos com o PCP,  por este se esconder numa sigla ( APU) de modo a ocultar o seu programa e símbolo ( Mário Soares dixit) e terem programas "antagónicos" ( idem). Mário Soares admitia abertamente acordos com a AD. Tempos...

Questuber! Mais um escândalo!