sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Freitas do Amaral, o político administrativo

As notícias sobre a morte de Freitas do Amaral, nos jornais de hoje, são todas obituários. Nada de esclarecerem a causa de morte, preferindo fazer a autópsia política, ainda por cima em modo perfunctório e inodoro.
Freitas do Amaral, segundo Observador, morreu por causa de hemorragias derivadas de um cancro nos ossos que o consumia há tempos. Esta notícia simples não aparece nos jornais.

O que aparece é uma série de considerandos de obituário político muito resumidos e que não mostram a dimensão da figura política que desapareceu ontem.

Ora o que eu gostaria de ler era mais isto:

O que pensava Marcello Caetano de Freitas do Amaral como político? Depois de desfeito um equívoco relacionado com questiúnculas pessoais acerca da importância de Marcello Caetano na formação académica de Freitas do Amaral, no livro de Joaquim Veríssimo Serrão, (Marcello Caetano, Confidências no Exílio, saído no início de 1985, na Verbo), a páginas 284-285 diz isto Marcello Caetano, a propósito das eleições intercalares de 1979: Freitas do Amaral estaria melhor preparado para governar do que Sá Carneiro:



Porém, Freitas do Amaral era um fundador do...CDS. Um partido que se queria "rigorosamente ao centro".

Passado o Prec e as vicissitudes que o CDS sofreu, em 1976 a revista Opção, de pendor socialista entrevistou Freitas do Amaral em 20.5.1976, na qual o mesmo expõe o seu pensamento político de base e que essencialmente nunca terá mudado: a maioria dos portugueses eram do CDS, até o PS o seria... e nessa altura o CDS valia pouco mais de 14% do eleitorado, com pouco mais de 40 deputados.











A mesma Opção um ano depois apresentava outra entrevista, desta vez imaginária sobre a figura, com este género de perguntas e respostas:




Em 1978 Freitas do Amaral deu uma entrevista ao O Jornal, na edição de 28 de Abril de 1978 na qual expõe as suas ideias básicas sobre Portugal e a política portuguesa da época. Fazia então parte de um governo com...o PS de Mário Soares.
Na entrevista é claro sobre o que foram os "erros cometidos no período revolucionário de 1974/75" e já tinha ideias sobre a futura revisão constitucional que queria fosse no sentido de alterar a Constituição de 1976, relativamente "à organização económica do Estado" cujos termos o CDS contestara votando contra a Constituição. O PSD votara a favor...


Em 19 de Maio de 1978, por ocasião da celebração de aniversário de O Jornal, publicou uma explicação escrita sobre a sua formação de juventude: passava férias grandes na Inglaterra e apreciava o modelo político inglês, de democracia.



Em 30 de Junho de 1978 o mesmo O Jornal convidara-o, juntamente com outros líderes políticos para discursar sobre os anos oitenta. Ideias básicas: integração na Europa e abertura de cooperação mais estreita com África.



Em 1979 surge outra ideia: a criação da Aliança Democrática após a ruptura da coligação com o governo PS.
A génese da AD foi assim explicada em 28.12.1979, pelo O Jornal: Freitas do Amaral, no final de 1978 no congresso do Porto decidira dar a mão ao PSD...


A AD teve uma maioria absoluta dos votos nas eleições intercalares de Dezembro 1979. Em Outubro de 1980 repetiu-se a vitória da AD e Freitas do Amaral tinha afirmado que até os pobres votaram na AD o que o Jornal indignado, desmentiu. A política, essencialmente era e continua a ser esta: a dramatização à esquerda, incluindo o PS apresenta sempre os mesmos chavões quais seja, os pobrezinhos, as conquistas de Abril e pouco mais. A Direita, de que Freitas do Amaral fazia então parte e era um dos máximos expoentes punha em causa tudo isso...enfim. Há quarenta anos que é esta a essência do discurso político em Portugal.
Pela primeira vez em muitos anos, Rui Rio e o PSD distanciaram-se desse figurino falso. Talvez tenham um bom resultado eleitoral no próximo domingo, por causa disso. Apenas por isso...





Em Dezembro de 1980, na disputa para a eleição presidencial aconteceu o desastre e Freitas do Amaral foi quem anunciou a tragédia na RTP nessa mesma noite de 4 de Dezembro, com uma comunicação muito cautelosa:




Quanto a Freitas do Amaral, agora desaparecido, teve algum azar, em 1986. Mas essencialmente foi sempre um político algo administrativo e talvez tenha sido isso que o tramou nessa altura. Faltava-lhe um certo carisma...mais que os votos que quase teve.
A caricatura que Portela Filho lhe fez em 1977,  conjugada com o percurso político nos anos noventa, foram fatais para se poder dizer que tivemos uma figura de grande relevo político que desapareceu. Não tivemos e também foi esse um dos dramas. Nunca conseguiu ser uma primeira figura e contentou-se, malgré lui, com uma ribalta ocupada por outros. Marcello Caetano enganou-se.

Freitas do Amaral nem sequer no direito administrativo que ensinava foi o maior. Deve tal papel a Marcello Caetano. Historicamente Freitas do Amaral conseguiu escrever coisas incríveis para limpar uma sujidade mais entranhada que lismo em casco de barco...

Ironicamente, Salazar, na primeira vez que Freitas do Amaral lhe foi apresentado, para além do cumprimento formal,  ignorou-o ostensivamente, o que irritou o jovem neófito e ambicioso.

Portugal poderia ter sido diferente. Mas não foi. Estas figuras tramaram-nos.

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