quinta-feira, abril 15, 2021

Mas...o que é isto na Sábado?!

 Sábado de hoje:





A Sábado gasta nove páginas da edição de hoje a dissecar um depoimento prestado nos autos do processo do "marquês" por Pedro Queirós Pereira, em que o empresário contou o que sabia do relacionamento pessoal entre o banqueiro Ricardo Salgado e o actual presidente da República, antes político do PSD e comentador de tv e sempre professor de Direito. 

Aparentemente o relacionamento entre ambos ficou a dever-se inicialmente à amizade entre a mulher do banqueiro e a mulher que acompanha Marcelo R. Sousa, Rita Cabral, que vinha pelo menos dos anos noventa. 

No final desses anos tal amizade ficou abalada porque Marcelo R. Sousa e Ricardo Salgado se incompatibilizaram de algum modo por causa da "política". Meia dúzia de anos depois, a reaproximação entre ambos operou-se através das respectivas mulheres e um dos sinais de tal facto ocorreu aquando da contratação do escritório de advocacia da mulher de Marcelo R. Sousa, pelo GES/BES, de Ricardo Salgado. 

Pedro Queirós Pereira afiançou que tal escritório teria mais de metade do trabalho, 60%, "dado" pelo BES e que tal "era uma forma de comprar o professor Marcelo R. Sousa". 

E qual era o valor desse tal "trabalho" da sociedade de advogados de que Rita Cabral fazia parte? Uma avença mensal de 3 500 euros. E quem lidava com os problemas jurídicos seria um advogado, identificado como Pedro Eiró e não aquela Rita Cabral. 

Porém, esta, já durante os anos 2000 passou a fazer parte da administração do BES, como membro da comissão de vencimentos. E isso já não é a mesma coisa que uma avença para lidar com problemas jurídicos. E tal contratação teria ocorrido a convite de outro administrador do BES que não Salgado, identificado como Rui Silveira, alegadamente um "pau mandado" daquele, quando a advogada era administradora de empresas de Pedro Queiroz Pereira e o mesmo também fazia parte dos "quadros" de administração.

Isto denota a grande proximidade pessoal e de negócios entre os dois grupos económicos e as pessoas em causa, incluindo Rita Cabral, por via familiar e que evidentemente Marcelo R. Sousa não podia ignorar nem tão pouco fazer de conta de que poderia ser algo completamente alheio ao seu mundo pessoal. 

Não obstante, em 2010 e por causa do negócio da PT com a Vivo, ou melhor, sem a Vivo e por causa da compra da OI, as relações entre ambos- Salgado e Marcelo- terão novamente entrado em crise.

Porém, objectivamente, durante o ano de 2010, os encontros e almoços entre ambos e respectivas mulheres estão devidamente documentados, o que permite concluir que não se zangaram. Afinal, Ricardo Salgado tinha conseguido o que queria: sacar dinheiro à PT, às centenas de milhões, com prejuízo para a OPA da Sonae, quando o banco já estava virtualmente falido, desde há algum tempo a essa parte. 

Disto tudo o que resulta? Alguma coisa que permita uma capa daquelas, da revista na edição de hoje? E com o uso do verbo "usar" naquele contexto e do verbo comprar, num contexto que pode muito bem ser diverso do apontado?

Duvido muito. E por isso é lamentável que a mensagem que perpassa vá além da que se torna evidente: Marcelo Rebelo de Sousa foi amigo de Ricardo Salgado, mas nada permite supor que terá sido "comprado" por este. 

O que sucedeu, neste como noutros casos, é mais subtil e mais elucidativo do que é a sociedade portuguesa da elite que governa e administra coisas importantes no país: todos se conhecem e quando se zangam, certas verdades tornam-se conhecidas, por motivos ínvios de vindicta pessoal. 

Tal aconteceu antes do 25 de Abril de 1974 com personagens como Marcello Caetano e António Champalimaud, por exemplo. E continua a acontecer nos dias de hoje. 

Porém, tais relacionamentos podem ser bem diferentes do que a família de Belmiro de Azevedo dizia a propósito da OPA à SONAE e que vale um livro e um documentário: "estavam todos feitos!" 

Neste caso quem estava "feito" era o poder político do momento com certos interesses de determinados indivíduos como Ricardo Salgado. O poder político do momento estava corporizado num corrupto: José Sócrates, conhecido como tal pela entourage do PS a qual nunca ligou nada a tal fenómeno. Se ligasse nunca teria existido politicamente um Jorge Coelho ou a comandita inenarrável dos apaniguados que gravitam às dúzias, à sombra das benesses que tal poder lhes conferiu e continua a conferir. Uma cambada de pindéricos, quase todos sem sítio onde cair mortos e alcandorados a grandes senhores da riqueza adquirida por via sindicada à política. 

Contudo, não creio, mesmo com estes factos conhecidos, que Marcelo R. Sousa fizesse parte da pandilha dos que "estavam todos feitos" e muito menos do grupo de pindéricos que pulula por aí. 

Do que faz parte inevitavelmente é do grupo de elite que governa e administra o país. E tal grupo sabe perfeitamente o que se passou em Portugal durante os governos de José Sócrates: o assalto mais despudorado a um pote que não lhes pertencia e que era de todos. A ruína de empresas como a PT em benefício de uns poucos e o desgoverno criminoso que nos atirou para uma bancarrota. 

E Marcelo R. de Sousa, mesmo sendo "incomprável" como ele diz, sabe muito bem que o fenómeno José Sócrates é algo indigno de qualquer regime que se preze e que é verdade o que está na acusação deduzida contra ele. 

Sabe também que é indigno o que Ricardo Salgado fez para tentar salvar um grupo financeiro falido por culpa própria. E sabe igualmente que o dinheiro que corrompeu José Sócrates e alguns cúmplices veio em boa parte dos cofres do GES/BES, por artifícios ilegais e criminosos. 

E portanto, a amizade com Ricardo Salgado conta com este passivo. Ricardo Salgado nunca precisou de comprar Marcelo R. de Sousa porque este há muito que estava vendido, ou melhor rendido. À contemporização com estas práticas; à cumplicidade com estes personagens da nossa opereta trágico-cómica e a estes pindéricos de circunstância que administram e governam o que é de todos, há décadas a esta parte. Só por estar assim rendido é que foi eleito para onde está. Os portugueses em geral não sabem isto que me parece simples de entender: Marcelo Rebelo de Sousa sempre fez parte deste regime, tal como existe: corrupto e incompetente para governar um país decente. Faz parte deste regime desde o começo do mesmo. É aliás um dos seus esteios mais robustos. 

Marcelo R. de Sousa sabe tudo isto e cala porque se vendeu e rendeu há muito a tal ambiente nacional de corrupção generalizada. Ninguém precisou de o comprar. 

Marcelo R. Sousa tem defeitos insuportáveis, mas este de se deixar comprar por um prato de lentilhas, ou contentores delas, como o outro que agora faz figuras patéticas,  julgo que não terá. Ou estarei enganado?

Seja como for a capa da Sábado parece-me uma grande aldrabice indesculpável porque o problema é mais grave do que a simples corrupção moral de um presidente da República, do modo exposto. 

Talvez por isto é que aceito melhor o editorial deste mesmo número de hoje que põe o dedo na ferida de um modo mais perfeito do que chamar corrupto ao presidente, mesmo em eufemismo e mesmo que seja só para vender papel e ganhar dinheiro com isso, o que desmente ipso facto o que o seu director escreve aqui:



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O vício do sensacionalismo