segunda-feira, 5 de abril de 2021

Salazar por Vasco Pulido Valente

 Vale a pena ler este livro recente de João Céu Silva em que se publica, além de alguns relatos,  uma longa entrevista de Vasco Pulido Valente, feita de 42 conversas que começaram em 15 de Outubro de 2018 e foram interrompidas a 20 de Janeiro de 2020. VPV morreria um mês depois. 

As conversas no livro com quase trezentas páginas, foram sobre o passado mais recente de Portugal, abrangendo os últimos dois séculos. Uma parte mostra o que VPV pensava sobre Salazar e o tempo em que viveu. 

Algumas afirmações são polémicas como a de considerar que não há nenhuma biografia de Salazar que valha a pena ler ( pág. 112) ou a de considerar Franco Nogueira uma "nulidade" como historiador apesar de ter recolhido alguns factos importantes. 

Por outro lado considera que Salazar apareceu numa época em que o poder real estava na Igreja e nos militares e Salazar fez o que a Igreja quis que fizesse, apesar de algumas páginas à frente ter referido insistentemente que Salazar se opôs firmemente aos desejos da Igreja em restaurar posições antigas, anteriores ao jacobinismo republicano e consideradas anticlericais. 

Aliás, segundo VPV Salazar só revogou as leis republicanas e jacobinas naquilo que representavam algo de incompatível com o regime e no caso da Igreja deixou a maior parte delas intacta. Por exemplo manteve a lei que retirou à Igreja o poder de mandar nos cemitérios, mantendo-os debaixo do poder civil das juntas de freguesia, como acontece até hoje.

Por outro lado considera que Mário Soares foi o fundador da democracia portuguesa e que se não fosse ele nem teria havido democracia. E até coloca Marcello Caetano na equação, sabendo que este considerava Mário Soares um medíocre e uma desgraça nacional. E até diz que Mário Soares era indivíduo que preparava tudo que pensava em tudo. Enfim. Uma cegueira por simpatia.

Uma das partes mais interessantes é por isso sobre o papel da Igreja na ascensão de Salazar ao poder. 

VPV nunca escreveu grande coisa sobre Salazar e explica-o assim:




Sobre o episódio da "portaria dos sinos" ( uma portaria publicada à revelia de Salazar e  que retomava a velha tradição, abolida pelo jacobinismo republicano, de os sinos das igrejas tocarem sempre que fosse conveniente, de meia em meia hora se preciso fosse, em locais onde não havia qualquer barulho ambiente, para além desse). 





Portanto é pelo menos contraditório que a Igreja seja a grande responsável pelo salazarismo e Salazar tenha afinal contrariado uma boa parte dos desígnios dessa mesma Igreja logo que chegou ao poder. 

Por outro lado há um retrato psicológico de Salazar que não me agrada porque não representa o que acho ser a índole e a estrutura moral e intelectual do mesmo: para VPV Salazar nunca passou de um rural e procura justificar tal ideia com circunstâncias que denotam um desconhecimento do que é a essência de um rural ou sequer o que é o verdadeiro perfil de Salazar representado numa única fotografia que já por aqui publiquei e que mostra para quem quiser e saiba ver o que era mesmo Salazar. 



A foto em causa é esta e é tirada de um livro fotobiográfico,  de Joaquim Vieira, de 2010: 


Salazar não é um rural. É outra coisa que um ateu algo jacobino nunca compreenderia, mesmo que quisesse.

Nota apócrifa: VPV diz ao entrevistador, logo no início do livro que a sua máxima ambição tinha sido escrever um ensaio biográfico sobre Hitler. E achava possível fazê-lo, com um óbice da sua parte: não saber alemão e portanto tal ser contra "todas as regras académicas". 

A sua ambição derivava de nunca ter lido um livro de que pudesse dizer: "ora aqui está explicado". 

Enfim, se relativamente a Salazar nem sequer descortina a sua essência como é que VPV poderia alguma vez escrever alguma coisa de útil e sem ser nulidade, sobre o tal Hitler? 

O homem já morreu e por isso não será possível obter resposta, mas fica a pergunta. 

Sem comentários:

Os escombros do apocalipse