terça-feira, 13 de outubro de 2009

Os privilegiados do jornalismo caseiro

O programa da RTP Prós & Contras, de ontem, mostrou a quem precisava de ver e ouvir, o que são os nossos directores de informação, pública e privada. Tudo a mesma igualha, mesmo que gradativamente distinta de outra que dá pelo nome de João Marcelino.
Para marcar a diferença, o director do Expresso mencionou em tonalidade depreciativa, a pertença de Marcelino ao jornalismo desportivo. Tal menoscabo suscitou a intervenção do provedor da tv, o sociólogo Paquete de Oliveira que há vinte anos fazia exames de admissão ao CEJ, sobre temas de sociologia preparados na Revista de Ciências Sociais.

O panorama do jornalismo de informação que nos foi apresentado por esses representantes da fina flor dos media portugueses é pouco brilhante e a basura da discussão sobre as fontes, a sua credibilidade, importância e respeito deontológico que lhes é emprestado, mostrou que há clivagens importantes entre os jornalistas tradicionais e os arrivistas vindos do fast food informativo dos golos, transferências, competições em catadupa e campeonatos de várias ligas.

No entanto, um pormenor, entre vários, escapou e assume relevo de tomo: quanto ganham os jornalistas e que é feito do estatuto socio-profissional dos mesmos?

Todos os que ali estavam ganhavam seguramente mais do que o presidente da República, pelo cargo que exerce e alguns, incluindo até as reformas todas.

Portanto, que leque salarial terão esses órgãos informativos? Quanto ganham aqueles oito jornalistas que José Manuel Fernandes mencionou e que estão na sua redacção do Público, comparativamente ao director e adjuntos da publicação?
Quanto ganham os jornalistas da TVI e da SIC e da TSF e da Antena Um e do Diário de Notícias e do Correio da Manhã e do Expresso e do Sol que fazem o produto final que se vende nas bancas ou se consome virtualmente? Quanto ganham em relação a quem dirige?

Pouca gente sabe, porque tal é segredo. Na RTP vai-se sabendo que jornalistas do gabarito intelectual de um José Alberto Carvalho, Judite de Sousa, ou José Rodrigues dos Santos, ganham pouco, nem sequer 3 mil euros por mês, segundo consta. Mas levam para casa no fim do mês, mais do triplo e em alguns casos seis vezes mais...pagos pela entidade pública e fatalmente com as compensações do Orçamento de Estado.
Isto vale o quê e para quê?
O que justifica que Judite de Sousa ou José Alberto Carvalho ganhem várias vezes o salário base, em pagamentos tipo bónus, para fugir à regulamentação?
Será para lhes pagarem o serviço que prestam à estação pública de tv? Para lhes conferir independência, ou pelo contrário, para os cativar na dependência atávica ao poder do momento?

Em Maio deste ano, o blog Um Homem das Cidades, dava conta de uma entrevista de Mário S. acerca deste tema. Dizia assim, a velha raposa aquando de um outro programa Prós & Contras, de 27.4.2009:

Mário Soares: [...] E realmente isso mostra que há aí um conúbio... nem é com os jornalistas em si, mas com os directores. Uma das coisas que sucedeu é que formar um jornal, que era fácil logo a seguir ao 25 de Abril, não era difícil, formava-se um jornal, quatro jornalistas e tal, o papel, tudo aquilo era fácil de conseguir. Pois bem, agora um jornal, não há! Uma pessoa não pode formar um jornal, precisa de milhares de contos para formar hoje um jornal e, então, para uma rádio ou uma televisão, muito mais. Quer dizer, toda a concentração da comunicação social foi feita e está na mão de meia dúzia de pessoas, não mais do que meia dúzia de pessoas.

Fátima Campos Ferreira: Grupos económicos, é?

Mário Soares: Grupos económicos, claro, grupos económicos. Bem, e isso é complicado, porque os jornalistas têm medo. Os jornalistas fazem o que lhes mandam, duma maneira geral. Não quer dizer que não haja muitas excepções e honrosas mas, a verdade é que fazem o que lhes mandam, porque sabem que se não fizerem aquilo que lhe mandam, por uma razão ou por outra, são despedidos, e não têm depois para onde ir. É difícil, porque há muito pouca... é por isso que nós vimos muitos jornalistas, dos mais notáveis que apareceram depois do 25 de Abril, já deixaram de ser jornalistas. Fazem outras coisas, são professores de jornalismo, são professores de outras coisas. Bem, há aqui portanto um conúbio.

Fátima Campos Ferreira: Sr. Dr., mas então onde fica aí a liberdade de expressão?

Mário Soares: Ah, fica mal, fica mal, como nós sabemos.


3 comentários:

joserui disse...

É uma pouca vergonha! Entretanto, acabou a campanha eleitoral e de repente só há problemas laborais, despedimentos, salários em atraso... Onde estava esta gente durante as várias campanhas? Estavam bem na vida, ou nos orgãos de informação decidiu-se que não era conveniente que existissem em tão sensível época? Para não sobressaltar o senhor primeiro ministro.
Há muito sacanita neste país a trabalhar como formiguinhas para manter e aprofundar este estado. E muitos estão nas redacções, a fazer fretes, muitas vezes por uma côdea. -- JRF

Neo disse...

Foi respigado de outro blog,mas parece apropriado,

"“During the Cold War, a group of Russian journalists toured the United States. On the final day of their visit, they were asked by their hosts for their impressions. “I have to tell you,” said their spokesman, “that we were astonished to find, after reading all the newspapers and watching TV, that all the opinions on all the vital issues were, by and
large, the same. To get that result in our country, we imprison people, we tear out their fingernails. Here, you don’t have that. What’s the secret? How do you do it?”
John Pilger address to Columbia University 2006 - ‘War by Media’

Karocha disse...

Nunca pensei estar de acordo com o Marocas na minha vida José!!!

Os escombros do apocalipse