domingo, 19 de setembro de 2010

A falta de sentido

No Público de hoje, o Provedor do Leitor volta à carga com o assunto do jornalista que se constituiu assistente num processo penal e relatou no jornal o que tomou conhecimento processual por causa desse estatuto.
A questão melindrosa, pelos vistos, é a contestação que agora o Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas faz ao jornalista/assistente, por causa de o mesmo se "ter servido de um expediente contrário ao espírito da lei". E a acusação tem conteúdo "ético", porque a razão de fundo prende-se à circunstância de o jornalista se ter constituído assistente para se colocar em posição mais favorável para o relato jornalístico que tal permitiria, recorrendo a tal expediente para obter informação que de outro modo talvez não tivesse. O CDSJ acha que isso é "tornear o espírito da lei". A penal, segundo se depreende.
O Provedor Leitor até cita uma carta do advogado José Augusto Rocha, que escreveu um artigo no jornal também a vituperar a atitude do jornalista a quem acusa de "sob pena da invocação da liberdade de expressão acabar por neutralizar o bem jurídico da honra e inocência do PM".
O Provedor não está de acordo e lá raciocina que a divulgação de um despacho final de um processo penal que se tornou público não contende com esse valores que JAR defende à outrance.

Porém a questão de fundo continua a mesma: o CDSJ acha que o facto de um jornalista se constituir assistente num processo penal é uma "deriva profissional", e que constitui um factor de "desigualdade de acesso às fontes entre jornalistas" e até- pasme-se!- que houve uma violação de norma deontológica porque " o jornalista deve utilizar meios legais para obter informações".

Este Conselho Deontológico é um espanto! Fui ver o que é e quem são os membros de tal Conselho. São cinco efectivos e três suplentes: Presidente – Orlando César ; Vice-presidente - Otília Leitão; Secretária – Susana Oliveira; Vogais – Ana Machado e Etiano Branco.
Foi um conselho que considerou "reprovável" a actuação de Manuela Moura Guedes no Jornal Naciona da TVi, sintonizando pareceres comuns ao governo que está e apaniguados correntes.
O presidente Orlando César é indivíduo versado em teorias que estudou e apresenta em discurso, citando Max Weber, muito lido em certos círculos para forrar mestrados e doutoramentos à pressão.
Já este ano, Orlando César deu uma definição sucinta de jornalismo: " a principal tarefa dos jornalistas é buscar acontecimentos, escrevendo, narrando e atribuindo-lhes sentido."

Repare-se bem na última expressão, "atribuindo-lhes sentido". Significa certamente que ao jornalista é pedido e esperado deontologicamente que interprete as notícias, dando-lhe sentido. Um sentido que naturalmente será distinto do sentido estrito da compreensão da mensagem escorreita. Portanto, o presidente do Conselho Deontológico pretende um jornalismo engajado em notícias com "sentido" que os jornalistas lhes conferem, subjectivamente, claro. Politicamente, eventualmente. "Só de punho erguido a canção fará sentido", era o mote de um arrependido desse tempo.

A notícia que José António Cerejo deu no Público, depois de ter consultado o processo Freeport, como assistente, não tem o sentido correcto. A interpretação não está conforme os cânones deontológicos que se espera de um jornalista engajado nesses códigos, ocultos por vezes, mas conhecidos dos jornalistas certos e com sentido de responsabilidades.

Todo o mal de JAC é precisamente esse: o de não fazer o sentido correcto aos olhos do CDSJ , da ERC e de outros que pululam no universo mediático da correcção dos sentidos.

A resposta de JAC a esta falta de sentido da sua actuação, além do mais, resume-se em poucas frases também citadas pelo Provedor do Leitor:
Quanto à desigualdade no acesso às fontes é muito claro: " o que cria desigualdade no acesso às fontes é o tráfico de influências que toda a gente conhece" e que tem como consequência que " a informação que devia ser pública seja mercadejada a torto e a direito por jornalistas, editores e directores com magistrados, polícias, políticos, empresários e por aí adiante".
Isto que JAC disse da posição do CDSJ é exemplificado no Público de hoje com uma notícia sobre a FPF de Madaíl: "Uma fonte próxima do líder federativo adiantou à Lusa que os contactos com Bento serão feitos já na segunda-feira." Mas este é apenas um exemplo da tal critério de "igualdade" no acesso às fontes e os jornais de hoje e de todos dos dias vivem disto, à sombra da bananeira do CDSJ.

É verdade que Orlando César não aprecia o jornalismo travestido por "press-release", mas daí a vituperar diariamente os jornais, que assim prosperam, vai um passo deontológico maior que a perna.
Mesmo assim há queixas com sentido e outras sem sentido algum, porque derivadas de notícias bem interpretadas pelos jornalistas. Correctas politicamente, portanto.

uma outra recomendação do Conselho Deontológico do SJ que neste contexto, espanta deontologicamente um pouco. Diz assim:

"Os jornalistas não incorrem em incompatibilidade deontológica ou legal quando aceitem emprestar a sua assinatura, a sua voz ou a sua imagem a mensagens de propaganda de causas ou ideias que, em consciência, entendam subscrever desde que esteja garantida a completa ausência de benefícios materiais por essa aceitação. "

É esse o sentido correcto da tal asserção acima citada: " a principal tarefa dos jornalistas é buscar acontecimentos, escrevendo, narrando e atribuindo-lhes sentido."

Será que todos estes percebem ou isto tudo não faz qualquer sentido?

PS: Não faço ideia de quem seja realmente Orlando César e pelo que leio será um agente activo do politicamente correcto, habituado a dar o sentido certo aos fenómenos, coisas e loisas. Para além do mais é filho de Orlando Gonçalves, antigo director do Notícias da Amadora, um viveiro de jornalistas correctamente políticos e de sentido certo. Talvez por isso e deontologicamente, escreve uma biografia jornalística sem dizer que é filho do biografado. Os leitores que adivinhem, porque além dos dois nomes não se encontra na net o apelido ou referência pública ao perfil.

Por isso estou em pé de igualdade, nesse anonimato relativo, porque julgo o seu politicamente correcto pelo que leio publicamente. Escusa por isso de se incomodar com os habituais "cobardes anónimos".

5 comentários:

lusitânea disse...

O que estes interpretadores querem é estupidificar o rebanho.estilo não cansem os neurónios que nós os bons lhes dizemos o que é bom para consumir.Ao fim e ao cabo são afinal uns simples propagandistas ao serviço de quem lhes paga bem...

Floribundus disse...

'in uculo descansum est'

Zé Luís disse...

Tou como o José: não conheço, nunca ouvi falar desse tipo.

Se a pusilanimidade do SJ já é, sempre foi, aterradora, os sucessivos presidentes do CD sempre me causaram perplexidade. Do Óscar Mascarenhas a quem, um dia, o "Independente" deu o... Óscar Mascarenhas, a este nóvel tribuno amadorense e amador do politicamente correcto, nunca percebi como os jornalistas perpetuam gente deste calibre no órgão que devia estar acima de toda a suspeita e, se possível, "ensinar" o que é e como é ou deve ser feito o jornalismo, a partir de factos concretos, tipo Provedor do Jornalismo, independente, claro.

Enfim... causas nobres não se vêem e posições motivadoras, esclarecedoras e engrandecedoras do Jornalismo muito menos estão à vista. A não ser o desnorte total de uma classe sem rumo.

helena disse...

Sobre o Conselho Deontológico deixo aqui o meu testemunho

A propósito do comunicado do Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas sobre a TVI espero que tenha havido debate e quorum. Coisa que não existiu quando fizeram sair um comunicado sobre o processo Casa Pia. Não sei como funciona agora o Conselho Deontológico mas sei como funcionou porque o integrava aquando do processso Casa Pia e não esqueci como foi aprovado o comunicado sobre o Processo Casa Pia : chegou por mail algures no meio do Verão aos membros do Conselho Deontológico e estava implícito que fosse unanimemente aprovado. Não foi porque me recusei a votá-lo. Mas não só. Até eu ter batido com a porta dificilmente podia ter sido aprovado porque nunca não houve quorum. O que sucedeu depois não sei.


Helena Matos
http://blasfemias.net/2009/05/30/memoria-3/

Fernando Martins disse...

É uma pena os jornalistas não terem uma Ordem e um verdadeiro Conselho de Ética - muitas manipulações seriam assim barradas...