quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

"Onde estava no 25 de Abril?" A geração BB

Crónica de Batista Bastos no DN de ontem:

Vítor Alves foi embora deixando a pátria numa situação que ele não desejava. Gostava muito deste homem sereno, culto, generoso, cordial a afável, que jogara, no regueirão de todos os perigos, a sorte pessoal e o desígnio colectivo. Ele e outros como ele são credores da minha maior gratidão. Ele e outros como ele resgataram os silêncios impostos e os medos compulsivos da minha geração e os das anteriores. O risco que Vítor Alves correu foi soberano entre os demais: o da vida, o da carreira, o da família.
Os jovens capitães de Abril possuem uma dimensão de coragem adveniente da espessura comovente do seu humanismo. Há qualquer coisa de épico e de poético na arrancada militar desse dia tão longínquo, tão próximo e tão delido no tempo e no esquecimento dos nossos desleixos. "O dia inicial inteiro e limpo", como lindamente lhe chamou Sophia, era o dia esperado pelos melhores de nós. E os melhores de nós desanimavam de o conhecer quando um grupo de homens muito novos nos convidou a ressurgir.
Às vezes, ia conversá-lo no seu gabinete. Os dias eram incertos, mas os sonhos nada tinham de indecisos. Ele transportava consigo uma cultura transeunte e uma bonomia que jamais ocultou as preocupações nascidas dos grandes embates ideológicos. Também bebíamos o uísque da amizade no João Sebastião Bar, reduto privilegiado de todos os imprevistos. Mais tarde, Álvaro Guerra, embaixador, escritor e jornalista, reunia, em almoços prolongados, nas casas de Mafra ou de Vila Franca de Xira, um grupo imponderável de amigos, em diálogos já perfumados de passado e de esperanças partidas. E era reconfortante ouvir este homem, apesar de tudo jovial e sorridente, a rematar os desalentos com uma frase benfazeja: "Mas as coisas estão muito melhores do que eram." A juventude já se fora; éramos uns senhores portugueses de cabelos brancos a quem a sabedoria do tempo ensinara a falar escasso para se dizer muito.
Queríamos mais do que havíamos obtido, porque sabíamos o que a "recuperação" consigo arrastava. A responsabilidade não deve ser dissimulada. Fomos nós todos que fizemos "isto". Víamo-nos mais espaçadamente. Mandava-lhe os meus livros, dirigia-me cartas generosas, calorosas e fraternas. Disse-me, há anos, que estava com problemas de saúde. Vasco Lourenço revelou-me a gravidade desses problemas. Estavam a ir alguns daqueles que eu mais respeitava; alguns daqueles, agora transfigurados em memórias e em penumbras, que tinham dado consistência à História.
Nada do que foi voltará a ser. Mas estar é, já em si, o bastante. Observo, na gelada noite da igreja do Paço da Rainha, os capitães de Abril, que se curvam ante o esquife do camarada de armas. Tínhamos todos a mesma idade.
Adeus.
Esta crónica de Batista Bastos (BB) soa a obituário maior. Um obituário de uma geração. Aquela que fez o "25 de Abril" e que falhou os propósitos, porque não os definiu com clareza e coerência, suscitando novos ""medos e silêncios impostos".
Para BB, o propósito era um: acabar com esses "silêncios impostos e os medos compulsivos". Traduz-se: acabar com a ditadura que governou até 25 de Abril. Mas falta o resto: em nome de quê? Não chega dizer - em nome da Liberdade! , porque isso é apenas poesia na rua e a Liberdade, quem a tem chama-lhe sua.
Um poeta cantor enunciou mais propósitos: "a paz, o pão, habitação, saúde, educação". Para todos, em pressuposto. Mas acrescentava-lhe outras condições: " só há Liberdade a sério quando houver, liberdade de mudar e decidir; quando pertencer ao povo o que o povo produzir".
Estas condições alteraram a noção de Liberdade, porque a geração de Vítor Alves/ Batista Bastos não sabia então o que fazer exactamente com essa Liberdade, perante as propostas políticas à escolha do votante. Durante anos a fio votaram à Esquerda. Uma Esquerda desnatada, mas embalada apelativamente. Elegeram parlamentos e presidentes da República, sempre com a palavra mágica como abre-te sésamo.
Como não sabiam, confiaram em quem julgavam saber. Propagandearam quem lhes prometia o mundo novo a sério e garantia que devia "pertencer ao povo o que o povo produzir." A Esquerda, pois claro.
BB sempre se considerou uma pessoa de Esquerda. Por Esquerda, entendida como todo o movimento político que garante retoricamente a Liberdade e promete " a paz, o pão, habitação, saúde, educação" com apoio popular e conquista do Estado pelos "trabalhadores", expulsando de um modo ou outro, a "burguesia" do capital, por não garantir essa liberdade, ser conta a solidariedade e pretender apropiar-se da mais valia produzida pelo povo.
Essa ideologia infiltrada nos partidos de Esquerda foi a razão do falhanço da geração BB. Porque a realidade social não suporta tais utopias e desde logo quem o descobriu foram alguns dos próceres dessa mesma Esquerda que meteram o socialismo na gaveta, mas não o discurso enganador e que ganha eleições em países pobres.
A contradição que daí adveio conduziu à desgraça em que nos encontramos. E os fautores da mesma são exactamente os utópicos da geração BB. Resta-lhes escrever obituários, com resquícios de nostalgia

13 comentários:

lusitânea disse...

O Vitor Alves afirmou que a descolonização deveria ter sido mais bem feita.O que não ouvi a mais ninguém.Tendo-se acabado com a ditadura o MFA preconizou a "democracia" e portanto meteu no "programa" a "consulta" dos povos acerca do ultramar.Coisa arquivada uma semana "depois" do 25 a requerimento dos "negociadores" com os "movimentos" que sabiam muito bem o que eles queriam e já...

Por outro lado o Vitor Alves acabadas as "guerras coloniais" e enquanto ministro da Eduacação tomou uma medida que teria poupado muito dinheiro ao Estado:numa altura em que havia muitos professores com insuficiente preparação a ensinar deu oportunidade aos militares do quadro permanente de se passarem para a educação, o que levaria a um "esvaziamento" dos quadros a mais e os colocaria a "produzir".Coisa que logo de seguida o PPD ANULOU.Por puro revanchismo contra a "tropa" que como todos os outros se endoutrinaram a "detestar".Em qualquer circunstância...

zazie disse...

O que ele se esquece de dizer é que o Vítor Alves tinha fama e proveito de chulo.

Também fazia parte dos "sonhos de abril" essa decadência de bas-fond onde chulice e contrabando de droga também eram de esquerda.

Unknown disse...

Pois, era conhecido como o "Vítor das carteiras", mas isto da morte já se sabe, passa tudo a limpo e ficam todos gajos bestiais. Em todo o caso, paz a sua alma.

Pável Rodrigues disse...

A geração BB estava no 25 de Abril onde sempre esteve e continuou a estar : nas tabernas, nos prostíbulos e nas salas de chuto. Nos intervalos entretinha-se a brincar aos partidos, tendo fundado, no estrangeiro, o Partido Socialista.

zazie disse...

Salas de chuto? no 25 de Abril só se fosse em futebol de salão.

Pável Rodrigues disse...

Pois. Mas em 1974 a maior parte da geração BB não estava em Portugal... e lá fora, o que não faltavam eram salas de chuto ou similares. A Sorbonne em 1968 foi o quê?

Neo disse...

Não seria salas de chulos?

zazie disse...

Qual era o tuga revolucionário que estava na Sorbonne em 68?

E as salas de chuto de Maio de 68 ficavam no Quartier Latin?

Não digas disparates.
":O))))))

O que eu disse passou-se muito mais tarde e tinha a ver com casas de passe frequentadas por essa malta escardalha, entre as quais o VA.

zazie disse...

Mas onde é que estava o BB antes do 25 de Abril?

Ele tem a mania de se chegar à frente
com o eterno: "Fomos nós todos que fizemos "isto."

Há-de ser uma coisa mental porque ninguém sabe o que ele fez.

Lembro-me de uma vez no BA entrar uma rapariga num café onde ele estava com o grupo. A moça era toda "ecológica" e vinha de blusa cavada, vendo-se os sovacos com os pêlos à mostra.
Ele aproveita logo a ocasião para se armar em revolucionário e mete-se com a moça, dizendo bem alto: "foi graças a nós que podes andar agora assim".

E ela lá se desenrascou e respondeu que, já agora, se a mãezinha dela tivesse mau gosto, ainda era capaz de lhe dever mais qualquer coisa.

zazie disse...

A piada está que isto foi dito com sotaque pois a moça era das berças.

Na verdade, ela andava como sempre se andou nas berças. Sem depilação.

ahahahah

Carlos disse...

Cuidado ao abrir!

O vírus zazie anda por aqui.

C.S.

zazie disse...

Que serás tu que só andas na blogo atrás de "um vírus", ó desgraçadinho?

zazie disse...

Muito te deves abrir...

Enguias à Isabel dos Santos