segunda-feira, 21 de março de 2011

As ideias que falharam

Se há em Portugal uma construção que seja o paradigma do nosso avanço e do nosso atraso, simultaneamente, ela é o Centro Cultural de Belém.
O Público de hoje dá relevo à efeméride porque foi neste dia de 1993 que foi inaugurado pelo governo de Cavaco Silva. Segundo o Público, a obra foi construída, em parte sem respeitar a legalidade vigente, foi muito contestada na época e inaugurou ou pelo menos deu continuidade de marco a um fenómeno que se iria repetir vezes sem conta nos anos vindouros: os trabalhos a mais e a derrapagem das obras públicas. De uns 32 milhões iniciais, acabou por ficar muito acima dos 135 milhões, sem contar com obras adjacentes. Foi um sorvedouro de dinheiro e foi essa uma das primeiras vezes que os governantes ( no caso, Santana Lopes) tiveram que dar explicações que nada explicam a não ser o óbvio: a corrupção inerente, muitas vezes insindicável, nas obras públicas. É por isso que essa obra é simbólica. Na década de noventa iriam repetir-se estes fenómenos sem que alguém, mormente o poder judicial lhe pusesse cobro. Já então se dizia que a sindicâncias destas obras pelo poder judicial representava a "república de juízes"...

O CCB tem a marca de Santana Lopes e na altura o Expresso, fez-lhe uma folha pouco abonatória, por causa do estilo arquitectónico. Tem a marca de Santana mas a matriz é de Cavaco, entenda-se.
Quem lá vai por estes dias, ou até há uns anos atrás, nota uma obra grandiosa, que se enquadra bem no local e em 2002 foi considerada património emblemático da arquitectura portuguesa.
O problema no entanto é de outra natureza: para que precisávamos nós de uma coisa assim, logo nos anos noventa?
Para promover o quê e quem? Para gastar dinheiros da então CEE? Para dar a ganhar a empreiteiros de regime que reclamavam obras públicas?
É certo que bem perto dali fica o Restelo e os velhos de há muitos séculos foram lembrados para desmontar as críticas, mas o essencial permanece: foi a primeira obra de um regime cujas ideias falharam. Redondamente. E por isso é o símbolo delas.

2 comentários:

joserui disse...

Muito bom este post e esta lembrança. Eu também considero o CCB um marco. E mais do atraso, corrupção e betonização do país, do que da arquitectura (que na verdade acabo por gostar). E sim, Cavaco Silva está por toda a parte quando se fala de ideias que falharam.
O Pedro Arroja escreveu um texto muito bom sobre o presidente e sobre o seu exemplo. -- JRF

ZéBonéOaparvalhado disse...

"A obra tem o cunho da Santana Lopes"

O Pedro não tocava nada, tocava nos namoricos.

A Obra começou em 16 m contos e acabou em 76 m contos

É uma obra do Cavaco - que nos deixou - Centro Comercial de Belém, dá de prejuizo mensal perto 400 mil contos.

Aqui o "custo/beneficio" não foi considerado

È chamada a obra de Cavaco,- diziam as populações quando passavam de comboio em Belém, que era o meu caso