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domingo, 23 de julho de 2017

Pedrógão: e se afinal houver mais mortos que a contagem oficial, fica assim?

 Jornal i:


Isabel Monteiro, empresária de 57 anos, natural de Lisboa, reuniu uma base de dados com as vítimas mortais do incêndio dos concelhos de Pedrógão Grande e já contabilizou mais de 80 mortos, dos quais 69 estão confirmados pelas famílias com nomes completos, localidade e local da morte.
A intenção era criar uma lista de vítimas para a criação de um memorial na Estrada Nacional 236, hoje conhecida como “Estrada da Morte”, mas foi ao recolher a informação junto das famílias, funerárias, bombeiros e dados da comunicação social que Isabel constatou que o número de vítimas mortais seria superior ao número oficial divulgado pelas instituições do Estado. Começou então uma investigação de fundo e o total de mortos contados até à data, na sua base de dados, já ultrapassa os 80.
A experiência dizia-lhe que, para ser útil na situação de Pedrógão, teria de ir directamente ao local e perceber de que tipo de ajuda as famílias precisavam.
O instinto tem uma história. Em 1996, na guerra do Kosovo, Isabel viu um apelo da AMI e da Cruz Vermelha Portuguesa e decidiu ajudar, mas apercebeu-se que os donativos não estavam a ser encaminhados. Organizou, nesse ano, o Concerto dos Cobertores, na Praça Sony, cujo bilhete de entrada era um cobertor que seria enviado para Kosovo. O evento foi um sucesso e Portugal foi o segundo país a entregar o maior número de cobertores no Kosovo.
Isabel entrou em conflito com a AMI e pressionou o governo para ir directamente no avião C130, que transportou muita da ajuda humanitária enviada de Portugal. Quis ir directamente ao local dos acontecimentos entregar em mão a ajuda às vítimas do histórico conflito.

Isabel contou ao i que aprendeu com essa experiência a não doar dinheiro ou a entregar donativos sem ser directamente a quem precisava e, ao saber da catástrofe de Pedrógão, decidiu pôr em prática mais uma vez o método de solidariedade direta.
“Fui a primeira vez a Pedrógão no dia 21 de junho. Dirigi-me ao quartel dos bombeiros e fiquei mesmo muito impressionada com tudo o que vi. Decidi então recolher donativos e voltei no dia 3 de Julho. Fui directamente à junta de Castanheira de Pêra levar donativos que uns amigos da família que teve nove vítimas mortais me pediu para entregar”, conta. “Fui recebida por uma senhora que me disse que não era a Junta que tratava desse assunto e mandou-me entregar tudo aos Médicos do Mundo”.
Isabel que se recusa a entregar donativos às ONG, decidiu seguir caminho pelas aldeias. Foi então que o seu grupo de voluntários se cruzou com quatro senhoras que recolhiam sementes de eucalipto, na localidade de Vermelho, certificando-se de que estas árvores não voltariam a crescer perto das suas zonas de habitação. As mulheres, apesar de terem perdido todas as árvores e hortas, não quiseram receber donativos uma vez que as suas casas por dentro estavam intactas. "Foi aí que me disseram pela primeira vez que o número de mortos seria muito superior ao anunciado".


A Contagem
“Falaram-me de uma família de duas pessoas que salvaram tudo sozinhos e deixámos lá donativos, já que tinham dado abrigo à sobrinha que só tinha a roupa do corpo desde o dia do incêndio”, conta ao i.
Foi depois deste contacto que Isabel decidiu ir à aldeia de Nodeirinho, uma vez que tinha sido uma das localidades mais faladas na comunicação social. “Quando cheguei lá, as pessoas estavam todas reunidas na capela. Falei com toda gente, disseram-me o que lhes fazia falta e voltaram a confirmar a teoria de que o número de mortos seria muito superior ao anunciado” .
Isabel, intrigada com o assunto, terá falado telefonicamente no sábado dia 8 de julho com uma agência funerária em Vila Facaia que pelo telefone lhe confirmou, mais uma vez, que o número era muito superior. Abordou os funcionários com uma história que acabara de inventar. “Tive de inventar uma história, caso contrário nunca se iriam abrir comigo. Falei-lhes então que procurava um rapaz amigo de uma amiga minha que estaria a chegar para o tentar encontrar e que precisava de saber se o nome dele estaria entre os 64 mortos”.
Terá sido neste momento que a primeira pista lhe foi dada. Uma das funcionárias terá respondido sob pressão com um sincero “eu sei lá menina, são muito mais, só eu vi mais de 95 corpos”, desabafo que Isabel nunca mais conseguiu que se repetisse, já que a senhora em causa nunca mais o confirmou.

Isabel explica ao i que, nas suas visitas às localidades dos concelhos afectados pelo incêndio, “os locais estão muito pressionados politicamente e há um estado de medo instalado”.
Mas ao falar com as famílias de luto, a ideia da criação de um memorial surgiu. “É o mínimo que se pode imaginar depois de uma tragédia destas, nada faz sentido se não houver uma homenagem a todos os que morreram”.

A empresária de Lisboa terá então iniciado um processo de recolha de informação. "Primeiro procurei tudo o que a imprensa tinha escrito sobre os mortos, chegando mesmo a perceber que tinham dado como mortas pessoas que estavam vivas. Com o é o caso da dona Gina, que estava internada e viva e na comunicação social deram o nome dela como falecida”.
Ao verificar se os dados da imprensa estavam correctos, comecei a ir de família em família, a abordar bombeiros e cheguei a contar as campas frescas de um dos cemitérios para confirmar que os números são superiores, parece macabro mas tive de o fazer”.

Segundo Isabel e dois bombeiros que não querem ser identificados, várias vítimas foram encontradas mortas depois de os números oficiais terem sido dado como certos. Terá sido o caso de Leonor Silva Henriques e Armindo Henriques Modesto que não estavam referenciados em lugar nenhum, mas morreram dentro do carro de Anabela Lopes Carvalho, de Sarzedas, que circulavam na EN236.
Otília, irmã de Anabela, teve de identificar o corpo da irmã na estrada e falou a Isabel dos dois acompanhantes da irmã que não faziam parte das listagens.

Também Fernando, de Campelo, foi encontrado carbonizado por uma local de Pobrais no meio do mato vários dias depois. “Estes corpos foram encontrados e enterrados mas os números nunca foram actualizados”, explica Isabel Monteiro.
O i contactou várias das famílias das vítimas que pertencem à listagem de Isabel e que pedem para não ser identificadas, mas que garantem que o número de mortos (64) dado pelas autoridades "está muito longe da verdade".

Isabel Monteiro e a sua amiga Ana Sousa e Silva juntaram algum dinheiro e, com a ajuda e confiança do padre da Paróquia de Nossa Senhora dos Navegantes, no Parque das Nações, e um de Bragança, conseguiram uma quantia de dinheiro que lhes permitiu a aquisição local de animais e hortícolas para doar às famílias. Compraram 80 animais (com 208,99 euros) e com 197 euros compraram 700 mudas de hortícolas que transportaram às famílias afectadas pelos incêndios. Foi aí que constataram que, depois de 30 dias, a ajuda ainda continuava por chegar. “Chegaram-me a dizer que havia certamente mais de 100 mortos, eu não queria acreditar. Mas realmente assim que comecei a juntar toda a informação percebi que pelo menos mais de 80 mortos tínhamos listados”.
Para Isabel há demasiadas falhas em tudo que se relaciona com este assunto, como o exemplo dos questionários online para as vítimas dos incêndios. “Como é que o ministério da agricultura espera que idosos que não fazem ideia do que é usar a internet, depois de todo o trauma, ainda preencham formulários?”, pergunta. O formulário poderia ser entregue na Câmara Municipal até ao sábado dia 15 de julho.
Como Alcafache 
No dia 13 de julho, às 18h21, Isabel publicou a lista na sua página do facebook pedindo que a ajudassem a actualizar e a corrigir os dados disponíveis. “As chamadas, até hoje ainda não pararam, sempre com novas informações”.
“Isto como bombeiro não me surpreende, já tivemos situações destas em Portugal, como no caso do comboio de Alcafache que nunca chegaram a dar o número real de vítimas e soubemos de corpos enterrados em vala comum”. O bombeiro de Viseu conta que militares já lhe haviam falado de um número de mortos muito superior ao anunciado, logo no primeiro dia de acção em Pedrógão. “Entre pessoal das operações sempre se ouviu falar em mais de 100 mortos. Mas sempre se falou disto sem provas, eram apenas boatos. Agora há nomes, como é que se mentem nomes de pessoas?”.
Segundo a empresária e os dois bombeiros que o i contactou, têm sido várias as pressões para que este assunto “morra na praia”. “Disseram-me que devia estar calada porque isto envolve interesses nacionais. Mas eu não quero viver num país em que interesses do Estado valem mais do que vidas humanas”.
A Autoridade Nacional de Protecção Civil (ANPC) reiterou neste sábado que o incêndio do mês passado em Pedrógão Grande fez 64 vítimas mortais, em "consequência directa" do fogo, e que outros eventuais casos não se integram nos critérios "definidos". Os critérios que foram identificados para apurar as vítimas do incêndio são "mortes por inalação e queimaduras", resultantes do fogo, adiantou à agência Lusa a adjunta nacional de operações Patrícia Gaspar.
Segue-se a listagem das vítimas mortais contabilizadas por Isabel Monteiro, que reuniu informação com famílias, populares, funerárias e bombeiros.

Comentário:

Factos são factos e mortos são mortos. Ou há esclarecimento cabal e completo ou ficar-se-á sempre na dúvida sobre o número de pessoas  que  pereceram na tragédia de Pedrógão Grande na tardinha de 17 de Junho de 2017.

Os serviços oficiais que dependem do governo e pouca autonomia têm para poderem ser autoridade credível e suficiente já contaram 64 vítimas e nem querem contar mais. O Expresso, ontem, relatava que houve uma pessoa que foi atropelada naquelas circunstâncias que rodearam o incêndio e por causa dele. Não a querem contar como vítima porque não pereceu devido a queimaduras ou inalação de fumo...e estamos nisto. Como terá sido atropelada por veículo que se pôs em fuga, nem o seguro quererá nada com ela...
Por outro lado, o que relata o i é assustador:

"Segundo Isabel e dois bombeiros que não querem ser identificados, várias vítimas foram encontradas mortas depois de os números oficiais terem sido dado como certos. Terá sido o caso de Leonor Silva Henriques e Armindo Henriques Modesto que não estavam referenciados em lugar nenhum, mas morreram dentro do carro de Anabela Lopes Carvalho, de Sarzedas, que circulavam na EN236.
Otília, irmã de Anabela, teve de identificar o corpo da irmã na estrada e falou a Isabel dos dois acompanhantes da irmã que não faziam parte das listagens.

Também Fernando, de Campelo, foi encontrado carbonizado por uma local de Pobrais no meio do mato vários dias depois. “Estes corpos foram encontrados e enterrados mas os números nunca foram actualizados”, explica Isabel Monteiro."

Isto são factos que podem ser investigados e confirmados ou não.  Será que alguém o irá fazer?


15 comentários:

Floribundus disse...


«Isabel Monteiro, empresária de 57 anos, natural de Lisboa, reuniu uma base de dados com as vítimas mortais do incêndio dos concelhos de Pedrógão Grande e já contabilizou mais de 80 mortos, dos quais 69 estão confirmados pelas famílias com nomes completos, localidade e local da morte.

A intenção era criar uma lista de vítimas para a criação de um memorial na Estrada Nacional 236, hoje conhecida como “Estrada da Morte”, mas foi ao recolher a informação junto das famílias, funerárias, bombeiros e dados da comunicação social que Isabel constatou que o número de vítimas mortais seria superior ao número oficial divulgado pelas instituições do Estado. Começou então uma investigação de fundo e o total de mortos contados até à data, na sua base de dados, já ultrapassa os 80. »

censura tipo urss

Floribundus disse...

o PR, ao reunir os Conselhos e ao desaparecer das tvs,

mostrou a sua incapacidade de impor os factos

antónio das mortes
continua risonho
a fazer a sua propaganda

a divida aumenta, mas isso é problema dos contribuintes

José Domingos disse...

Até quando, vamos continuar a viver com medo e pressionados pela verdade oficial.
Nem no tempo do Salazar. O 25 a foi uma treta para roubar o povo português, esse povo em que alguns, demasiados, morreram queimados.
Somos roubados por gentalha, que não faz diferença dos negreiros.
Batemos no fundo

muja disse...

Não batemos no fundo porque, como diz Brandão Ferreira, já não há fundo...

Unknown disse...

Como já disse alguém, "esta corja nem para administrar um condomínio"...

Floribundus disse...

antónio da mortes e a dupla pcp+be

montaram um estado soviético

estaline levou mais tempo a matar gente

este Campo de extermínio é pior que Auschwitz

joserui disse...

"estaline levou mais tempo a matar gente

este Campo de extermínio é pior que Auschwitz"

É sempre bom constatar que há sempre alguém mais exagerado que nós nos comentários! :)

joserui disse...

Outro assunto: estava a ler a entrevista com o Alvaro Costa no Observador e fiquei a saber que Vila do Conde tinha uma grande tradição anti-fassista (e se calhar ainda tem). Não há cão e gato neste país que não tenha sido anti-fassista ou que não tenha sido tocado pela aura anti-fassista… grandes artistas.

João disse...

Isto é como a URSS quando se deu o acidente de Chernobyl. Se ficar assim é porque somos uns bananas e não merecemos melhor que estes tristes que fingem governar e apenas se governam. Com sorte ainda vão convencer-nos de que não houve incêndios.
Já agora, alguém sabe informar-me com rigor por que razão mais de 65 mortos é uma desgraça? já li que tem a ver com os apoios da UESS mas como, concretamente?

Floribundus disse...

desiludido abandonou o ps como militante
“A responsabilidade pela morte de 64 pessoas inocentes, famílias inteiras, não pode continuar a ser uma questão alienada pela propaganda política. Pessoalmente, tenho de afirmar o que me parece óbvio: Costa tem a maior carga de responsabilidade, pelo que fez e pelo que não fez”, lê-se no texto de Henrique Neto.
“Costa colocou a sua cultura propagandística à frente do seu papel de primeiro-ministro”, diz ainda Henrique Neto, referindo-se ao caso do roubo de material de guerra nos Paióis Nacionais de Tancos.
Para Henrique Neto, a “recusa em esclarecer os portugueses” tem sido uma “forte característica” do actual Governo, com implicações em casos como o Banif, Montepio, Novo Banco ou Caixa Geral de Depósitos.
“António Costa é um bom executante da política à portuguesa e um erro de casting como estadista e primeiro-ministro”, escreve ainda o candidato à Presidência da República em 2016.

joserui disse...

Muito de longe a longe, aparece um Henrique Neto.

Floribundus disse...

o monhé
antónio das mortes
continua a pavonear-se de ar risonho

com a maior insensibilidade e falta de vergonha

a nova urss vai continuar

o be é o partido com mais diplomas aprovados na AR social-fascista
por isso a poia

o rectângulo arde

a anpc parece uma velha palavrosa de soalheiro

verdade única
no gulag

lusitânea disse...

O Mamadou Ba que exija a verdade.É tiro e queda que ficam logo todos sensibilizados...

foca disse...

Calma
O Primeiro coiso já disse que quem conta os mortos não é ele, e que na barcaça dele a responsabilidade nunca é do capitão.

Amanhã vão descobrir que havia um erro na fórmula da folha de cálculo, que só somava as primeiras 64 linhas, ou então que o software foi comprado pelo governo do Passos (que o brinquinhos irá explicar com a sua conhecida eloquência!).

Unknown disse...

Vergonha....essa senhora devia ser presa! Não falta gente a querer aproveitar-se destas situações