terça-feira, junho 22, 2010

A nostalgia é uma arma carregada de futuro

O PCP anda a comemorar efemérides e a juntar nostálgicos do regime que prometia amanhãs a cantar. Tudo lhe serve para a função, mesmo funerais.

Hoje, num tribunal antigo, comemorou um julgamento célebre: o de Álvaro Cunhal por delitos políticos e não só, contra o regime de Salazar, o regime constitucionalmente instituído na época.

E publicaram fac-similes de notas histórias do antigo líder, enquanto esteve preso, por ocasião da comemoração desse julgamento na Boa-Hora, no qual, segundo Jerónimo de Sousa, Cunhal "passou de acusado a acusador do regime de Salazar".

Bravo!

É por isso que trago aqui um artigo publicado na revista americana Wired, na edição inglesa deste mês.

É um artigo sobre a STASI, a polícia política da antiga RDA e cujos métodos e actuação concreta, sobre o povo alemão de Leste, deixam a PIDE de Salazar a milhas náuticas dos resultados alcançados: mortos sem conta possível. Desaparecidos, presos e uma repressão política permanente e de tal modo eficaz que deixam a PIDE de Salazar com uma imagem pálida de um corpo de escutismo de seminário.

A revista menciona o facto de A STASI ter ao seu serviço cerca de 90 mil oficiais e 180 mil agentes, num rácio de um espião para 63 cidadãos. Isso numa população de cerca do dobro da portuguesa de então.

Os factos que se podem ler no artigo e já publicados em livros e artigos avulsos são de tal modo aterradores que por mero reflexo de pudor, um partido comunista como o PCP que tão perto se colou ideologica e pragmaticamente ao partido comunista da RDA, onde aquele Cunhal esteve acolhido, devia pura e simplesmente guardar um voto de silêncio, constante, permanente, pelos mortos do regime comunista da RDA e pela repressão absurda que fizeram abater sobre todo um povo que sacudiu essa ditadura mais cruel do que a de Salazar alguma vez foi.

A ironia deste destino trágico dos comunistas portugueses é o seu exacerbado romantismo, de prometidos amanhãs a cantar e sempre levantado do chão nestas efemérides avulsas, ao mesmo tempo que reprimem na inteligência, o horror que deviam conhecer sobre aqueles que infligiram ao seu próprio povo, as piores torturas da repressão política, da morte física e da ditadura mais feroz que jamais o salazarismo conseguiu ser.

O PCP queria para Portugal um regime idêntico e de igual violência na repressão aos "reaccionários" e "fascistas". Ainda hoje o defendem, embora o escondam cautelosamente mudando conceitos, trocando noções e enganando o povo e os próprios militantes, pessoas simples e de bom fundo que acreditam em boa-fé nas premissas do comunismo.
Os verdadeiros salafrários do comunismo há muito abandonaram esse barco porque o poder que pretendiam não passava nesses portos esquecidos da maioria. E transferiram-se de armas ideológicas disfarçadas e tralha pragmática reciclada para outros partidos do "arco do poder". Vital, para esses ditadores sempre dispostos à repressão dos outros.

Aqui fica a maior parte do artigo da Wired, ( que se pode ler com um clique na imagem) com imagens dos cerca de 9000 sacos de papel armazenados em Magdburgo, à espera da composição dos milhares de papelinhos rasgados por uma apressada STASI, logo que o muro ruiu. São apenas uma pequena parte dos documentos que destruiram para apagar as marcas do terror.
Estão à espera de tratamento informático de composição digitalizada e constituem um testemunho contra os que ainda se aninham em instituições públicas e privadas da Alemanha, escondidos dessas revelações do seu papel no sistema repressivo da antiga RDA, exemplo máximo para o PCP de Portugal.

Para esses comunistas encantados com as propostas do partido dos trabalhadores e da classe operária, um texto como este que escrevo, é um insulto à memória dos reprimidos pelo Salazarismo. Uma afronta aos trabalhadores que defendem e outras enormidades no mesmo tom.
Esquecem que é apenas a lembrança do que poderia ser o nosso regime, no caso de o PCP ter tomado as rédeas do poder político efectivo, em 1975. Não seria muito diferente a repressão política. Não seria muito diferente a censura real. Não seria nada diferente a limitação da liberdade de associação e reunião e de qualquer modo muito mais rígida do que a de Salazar alguma vez foi. Não seria muito diferente a miséria prática em que mergulharíamos em poucos meses.

Mudaria apenas uma coisa: a linguagem. Essa seria a arma principal da mudança. A Censura tomaria outro nome, não muito diferente de "Exame Prévio" com os intelectuais do costume a aplaudir a medida contra os contra-revolucionários. A limitação prática e efectiva da liberdade lograria convencer o povo que seria uma avanço revolucionário sobre as liberdades burguesas tão nocivas ao povo e toda a novilíngua experimentada na RDA se adaptaria à morfologia do nosso pequeno país.
Era isso que nos estava prometido e é essa nostalgia que Jerónimo de Sousa e os seus acólitos celebram hoje e amanhã. Com hinos, tipo "Camaradas, lutemos unidos, porque é nossa a vitória final".

Viu-se.




Questuber! Mais um escândalo!