Em 1972, três autoras portuguesas, assumidas "feministas" publicaram um livro incaracterístico que chamaram de Novas Cartas Portuguesas. O livro, mal saiu, escandalizou a sociedade mediática da época e não demorou muito a ser considerado "proibido" pela Censura.
Não obstante, pelo menos um jornal da época, o Diário de Lisboa num suplemento, publicou algumas das cartas tal como já foi aqui mostrado.
Em função de procedimento judicial, o escândalo chegou além Atlântico por via da revista Time que tinha cá uma correspondente ( Martha de La Cal) muito sensível a estas questões que serviram para acicatar o regime. O julgamento das Três Marias vítimas da censura fassista prosseguiu durante o ano de 1973 e chegou até depois do 25 de Abril de 1974, altura em que as mesmas foram absolvidas porque então "the times they are a-changing". Numa questão de poucos meses, o livro deixou de ser "pornográfico e imoral", para ser uma das obras da nossa literatura de costumes...digamos assim.
Em Fevereiro de 1974, o cronista Vasco Pulido Valente publicou na revista Cinéfilo um comentário a uma entrevista de uma das Três Marias- no caso, Maria Teresa Horta- à revista Vida Mundial. O modo como o fez, suscitou o reparo atento de uma outra feminista de então, sempre de esquerda e punho erguido, mesmo quando dirigia a Máxima, como revista.
Maria Antónia Palla, mãe do Costa da Câmara ( tinha escrito que era também do Costa do Expresso mas não é) a quem transmitiu os sagrados valores da Esquerda democrática, criticava asperamente no número de 23 de Fevereiro de 1974 dessa revista o artigo de VPV, numa carta aberta. Assim:
Lendo a carta aberta ficamos elucidados sobre a ideologia da Esquerda portuguesa de então e que aliás é a mesma de agora. Nada mudou, nem mesmo por causa da Máxima.
No número seguinte Vasco Pulido Valente respondia assim, denotando igualmente o lugar da Esquerda mediática que não pode ser muito incomodada pelos poderes da intelligentsia.
Essa mesma esquerda que já antes de 25 de Abril de 1974 dominava o panorama mediático, poucos meses depois apresentava assim as suas ideias para a música que passava nos rádios...como se pode ler neste artigo do Cinéfilo de 15 de Junho de 1974. A prosápia de um tal Mário Contumélias é de antologia.
Este PREC cultural, muito mais profundo e duradouro que o político, ainda perdura. E é essa uma das razões profundas do nosso atraso económico e social e um dos motivos por que vemos a Esquerda da troika Avoila,Arménio e Jerónimo, albardados pelo Silva que não corta o bigode nem que a vaca tussa, sempre presente nas pantalhas televisivas, nos debates radiofónicos e nas páginas dos jornais.
Esta saga dura há mais de 40 anos...como se pode comprovar.