Foi em nome dessa tolerância democrática que o PS lutou contra a esquerda comunista, em 1974-75, pelo repúdio do totalitarismo que então nos ameaçou.
O caso do jornal República, um jornal dirigido por gente do PS e do qual o esquerdismo comunista queria apoderar-se nessa altura do PREC e o caso da unicidade sindical em que o mesmo esquerdismo comunista pretendia unificar todas as forças sindicais numa central única dirigida pelos "partidos da classe operária", sempre foram bandeiras emblemáticas da sempre celebrada luta do PS pela "Liberdade".
Infelizmente em várias ocasiões essa "luta pela Liberdade" deixou muito a desejar quanto à coerência da proclamação solene.
O PS em várias situações da vida democrática dos últimos 40 anos procurou controlar a informação pública, nos media mais importantes como a rádio e tv nacionalizadas e nos anos mais recentes até as privadas ( o caso mais notório é o da TVI que o PS acabou mesmo por controlar, através do inefável Figueiredo que estava numa fundação apropriada). Ao mesmo tempo lançou vários jornais e revistas com o propósito de complementar a propaganda política e cultural já assegurada por aqueles meios de informação.
Nos últimos 40 anos, não é arriscado dizer, a tendência ideológica predominante nos media é de esquerda, particularmente a de pendor "socialista democrático".
A putativa direita, sempre designada como a inimiga de classe a que o socialismo reivindica pertença, quase nem existe em Portugal, desde há muitos anos. Praticamente desde o golpe de 1974, a direita que se identificava com certos ideais do salazarismo e do caetanismo desapareceu da cena da relevância política. O que restou dessa tal direita incorpora agora figuras do estilo de um Freitas do Amaral ou de um Marcelo Rebelo de Sousa, seres híbridos que deslustram o carácter do que foi um país.
Talvez por isso o socialismo democrático enfileirado no PS entenda que tem um direito quase consuetudinário a governar e orientar intelectualmente o país. Quem ouve ou lê uma figura de jornal tipo São José Lopes ou a mãe do candidato Costa e do jornalista Costa, uma tal Palla, antiga jornalista do fassismo, na Flama, tem o retrato completo dessa esquerda fossilizada que repudia o totalitarismo comunista mas não afeiçoa verdadeiramente a liberdade.
No Público de hoje, VPV dá dois exemplos recentes dessa tentação censória, permanente, do PS.
Ao longo das últimas décadas há outros exemplos. Porém, o mais flagrante, sinistro e preocupante é o da revista Grande Reportagem que acabou logo depois de ser dirigida pelo jornalista Joaquim Vieira.
Este jornalista foi autor de uma biografia de Mário Soares, "patrocinada pelo mesmo" e que depois de publicada apareceu com passagens que só não foram censuradas porque tal fugiu da alçada directa daquele...mas ainda assim, sobre o fax de Macau o assunto foi tratado como os gatos quando passam em telhados de zinco quente.
A revista, em 2004, no dealbar do caso Casa Pia, apresentou uma reportagem de investigação, daquelas que "mexem com alguém", assinada pela jornalista Felícia Cabrita e visando uma rede de pedofilia que entroncava na França de Mitterrand e de um seu amigo chegado, Hubert Védrine, também safado in extremis.
A reportagem era "Casa Pia até Paris"...
Numa altura em que se falava em boatos "muito mentirosos" sobre a envolvência de figuras gradas do PS nestes esquemas de abusos sexuais com menores, uma capa destas podia ser mortal para um partido socialista e provavelmente a revista que então pertencia à Lusomundo, do centrão nacional.
É de notar que Mário Soares nesta altura esteva absolutamente silencioso sobre o assunto e assim passou muitos e muitos meses. Só no fim, quando Souto Moura foi fustigado pelo PS, pouco antes das eleições de 2005 ( que deram a vitória ao figurão que agora mora no 33 do bairro dos actores), Mário Soares deitou achas para essa fogueira. Antes de algumas figuras gradas do PS ( Paulo Pedroso e Ferro Rodrigues, além de Jaime Gama e outros) terem sido citadas nesse caso, tinha desfilado na Avenida de braço dado com um tal Ramalho, sempre presente nestas ocasiões. Depois, o silêncio profundo, mesmo com o PS a desmoronar-se, o que se evitou in extremis, com uma célebre e apoteótica recepção nas escadarias da A.R. a um dos suspeitos entretanto ilibado por um tribunal superior. Algum tempo depois o principal condenado nesse processo assumiu a condição de "boi piranha".
Porém, o que ditou a sorte da revista que no final de 2003 já estava associada ao grupo Lusomundo e vendia uma dúzia de milhar de exemplares?
Sabe-se que em 2005 era dirigida por Joaquim Vieira e que publicou nessa altura vários pequenos artigos sobre "o polvo" , relatando acontecimentos de Macau e da presidência de Mário Soares.
Podem ser lidos aqui e a história foi então comentada aqui: os cinco artigos sobre o "polvo" de Mário Soares foram publicados em Setembro e Outubro de 2005 e versavam sobre sobre o escândalo Emaudío, com Rui Mateus e Mário Soares envolvidos directamente.
A 27 de Outubro desse ano a administração da Global Notícias comunicou o encerramento da revista, previsto para Dezembro seguinte. Joaquim Vieira foi demitido de imediato.
É assim que o PS lida com a divergência que o faz perigar como partido. Uma tolerância proverbial...
E como cereja no topo deste bolo, uma passagem do livro de Rui Mateus, Contos Proibidos que repesquei daqui:
pp.85-86 “O
antigo chefe de gabinete do ministro dos Negócios Estrangeiros e
secretário-geral do PS, Vítor Cunha Rego, tivera contacto anteriores ao 25 de
Abril com o chefe da CIA em Lisboa, John Morgan. Após o assalto ao «República»
e quando Carlucci adquirira a certeza de que Soares entrara no «bom caminho»,
seriam designados Cunha Rego e Bernardino Gomes para veicular os futuros
contactos e o apoio da CIA ao PS. Com o caso «República» ainda fresco e tendo
em conta que aquela organização considerava prioritárias as acções na imprensa
e em editoras, como o senador Edward Boland de Massachusset apuraria no final
dos anos 70, foi decidido combater a predominância do PC nestes sectores. Assim
nasceria a editora Perspectivas & Realidades, ao mesmo tempo que era
adquirido o edifício onde iria funcionar a CEIG, Cooperativa de Edições e
Impressão Gráfica, com a finalidade de imprimir o diário «A luta» em
substituição do «República». O contacto americano era um «operacional» das
chamadas «covert operations», ou operações clandestinas, da CIA, a que chamarei
apenas KC.”