O director geral editorial do Correio da Manhã, Octávio Ribeiro é um jornalista polémico que agora está na berlinda e é atacado por um grupo de cágados que pretendem domesticar o jornalismo caseiro, colocando-o sempre ao serviço dos seus interesses.
Octávio Ribeiro explica hoje em pequeno editorial a sua concepção de jornalismo: sempre, sempre ao lado do povo e contra o poder. Huummm...desconfio destas proclamações porque são sempre hipócritas.
O jornalismo que Octávio Ribeiro pratica é mais simples de entender: sempre, sempre ao lado daquilo que pode dar lucro e portanto vende exemplares. Normalmente é ao lado do povo, ou seja do contra-poder e junta-se assim o útil ao agradável. Mas nem sempre é assim e algumas veze não é nada assim.
Esta acefalia ideológica e mera obsessão pelo lucro conduz a uma certa desumanização e desleixo informativo, próximo do fenómeno feiquenius porque não deixa de respeitar o politicamento correcto e ao mesmo tempo reduz a sociedade a fenómenos isolados e a fait-divers, sem contexto explicativo quando noticiado por quem o não conhece e são muitas essas ocasiões.
As notícias sobre justiça, para me cingir este assunto, resumindo factos e relatando acontecimentos deveriam sempre reflectir um contexto e enquadramento que as torne compreensíveis para todos mormente pelos destinatários, ou seja o tal povo, ou cidadãos ou os que "sofrem a História", eufemismo que o editorialista prefere. Tal só é possível se o jornalista o entender e para isso é preciso saber e não apenas relatar o que lhe parece, como acontece na maior parte dos casos. E este "parece" pode não ser a realidade que deveria ser apresentada, daí o aparecimento da fakenews, inevitavelmente.
Portanto, não se trata de algo contra a alegoria da caverna, o jornalismo do CM, mas exactamente isso que fica em marcha muitas vezes e é dado à estampa: a notícia falsa, parcialmente falsa ou completamente distorcida da realidade. Uma sombra da verdade, por isso mesmo.
E em nome de quê? De quem sofre a História? Não. Em nome das vendas, apenas e tão só. Fraco desígnio.
Na revista do CM aparece outro articulista a escrever sobre a excelência do jornalismo de investigação e lá vem o sempiterno caso do Watergate. Parece que em Portugal não temos exemplos, mas temos: António Balbino Caldeira e alguns amigos descobriram sozinhos que José Sócrates tinha concluído uma licenciatura a um Domingo, tornando-a suspeita ipso facto. Quem pegou na altura no assunto?
Octávio Ribeiro não. E já era jornalista há muitos anos. Foi José António Cerejo que lá conseguiu convencer o então director do Público, José Manuel Fernandes da importância do assunto, dois anos depois de se saber. Se fosse hoje, com o Dinis, Dinis alguém assim quis, era notícia capada à nascença. Seria o CM a publicar o assunto? Duvido...
Portanto, deixem lá o caso Watergate, aprendido nas actuais madrassas do jornalismo e dêem atenção ao que é nacional e é bom. Melhor ainda: pratiquem. Lá no sítio do mesmo autor, Do Portugal Profundo há meses largos que tem outra notícia do género e a quem ninguém do jornalismo nacional pegou até hoje: o apartamento de António Costa na Avenida da Liberdade e o que se lhe seguiu.
Porque é que o jornalismo nacional não pega neste assunto? Precisamente pelo mesmo motivo por que não pegou no outro: em quem está a mandar não interessa para já incomodar. Pode prejudicar-nos e é uma chatice...
Portanto, jornalismo deste, sempre sempre ao lado de quem sofre a História, não é?
Deixem-se de hipocrisias e tenham pudor!