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quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Marcello Caetano e Álvaro Cunhal


Atente-se nesta entrevista de Marcello Caetano ao Diário de Notícias de 25.10.1973, ao jornalista João Coito ( que apresentava então um programa na tv, tv sete, salvo erro). Nela fala sobre a emigração portuguesa, a guerra no Ultramar, a autonomia das províncias ultramarinas,  os "monopólios", os salários ( o salário mínimo), o custo de vida, a inflação, a campanha eleitoral e partidos políticos ( os da oposição democrática desistiram então de concorrer às eleições), a iniciativa privada e as suas virtudes e...o futuro.
A linguagem é clara, toda a gente percebe o que Marcelo diz e quer dizer.


Agora atente-se nestoutra entrevista, de Álvaro Cunhal à revista Vida Mundial de 14.VI.74, escassos oito meses depois daquela.
Também Cunhal fala sobre o Ultramar ( então já apelidado de "guerra colonial", numa alteração de linguagem significativa e que pegou de estaca), sobre o destino  a dar ao problema; fala sobre a situação económica ( depois de termos gasto mais de metade do Orçamento de Estado no início dos anos 70 do séc-XX, em 1974, pós 25 de Abril ainda gastávamos cerca de 45%, diz-se na entrevista), sobre o custo de vida. a inflação, o salário mínimo ( O PCP defendia antes de 25 de Abril, através das suas correias de transmissão sindical,  um aumento do salário mínimo para 6 000$00 mensais. Em Junho de 74, Cunhal já achava tal montante "incomportável para a economia nacional"...); fala ainda sobre outros assuntos mas há uma diferença de vulto nas duas entrevistas: a linguagem usada.
Para além dos termos que se passaram a usar e dantes não se utilizavam ( colónias, fascismo, massas trabalhadoras, massas populares, classe operária, contra-revolução, forças democráticas, burguesia, campesinato, proletariado, etc), a linguagem da entrevista é cifrada e críptica. Quando Cunhal fala em liberdades democráticas não se refere às mesmas que um PS então já instituído como partido, por exemplo. E democratização não significava o mesmo que para os restantes partidos à direita do PCP, quase todos com exclusão da extrema-esquerda, numerosa e muito aguerrida.
Ainda além disso, a linguagem de Cunhal, concretamente críptica é abstractamente explícita. Cunhal não enuncia os princípios do comunismo soviético mas sabe-se que é exactamente isso que pretende.  Quem ler a entrevista de Cunhal -e diga-se que nunca Cunhal foi mais explícito em qualquer outra entrevista que deu ao longo da sua vida em Portugal ( passou muito tempo nos países da cortina de ferro)- fica sem se saber exactamente o que pensar da política concreta que o mesmo pretendia para o país, embora ficasse ciente que era a tal "democratização" em prol dos trabalhadores e "não receamos o futuro", como acaba por dizer Cunhal.
Nunca disse mais do que isto que aqui nesta entrevista diz. Nem sequer a Maria João Avilez do Expresso ou a Miguel Esteves Cardoso, no Independente, muitos anos depois desta. Na televisão, aquando do célebre "olhe que não..." nunca foi mais explícito ou claro. Perguntaram-lhe uma vez numa entrevista de TV, mais ou menos nessa altura quanto ganhava por mês. " O salário mínimo nacional", (salvo erro 7 500$00 na época). Toda a gente se riu da boutade.

É esta diferença de linguagem que separa a Esquerda do que era Marcelo Caetano. A clareza contra a obscuridade; a inteligência contra a obstinação numa doutrina fossilizada e o senso comum contra os amanhãs a cantar.

A Cunhal, ainda há quem lhe dê crédito ao fim destes anos todos. A Marcelo Caetano muitos já nem sabem quem foi e muito menos o que pensava.









1 comentário:

Floribundus disse...

as sobrancelhas ramalhudas impediam o barreirinhas de ver o país