segunda-feira, 30 de abril de 2018

Não houve Descobertas: foi tudo inventado!

Transcrevo um artigo de Miguel Sousa Tavares no Expresso de ontem sobre a nova manifestação da brigada de activistas do politicamente correcto. Desta vez não aceitam que as nossas Descobertas dos séc. XV e XVI sejam isso mesmo, descobertas. Por uma razão sincrética e portanto confusa: já lá havia gente quando os portugueses aí passaram.
É capaz e já Camões o tinha escrito: além do mais, havia o Adamastor, as ninfas e lémures que deixaram descendência, como se torna visível.

Pelo sim, pelo não aqui fica o escrito de Tavares para demonstrar que quando tem razão, tem. Tirei-o daqui, porque o encontrei no Google:

Pobre Fernando Medina, do que ele se foi lembrar: fazer um Museu das Descobertas, ou dos Descobrimentos, em Lisboa! Uma ideia que pareceria absolutamente consensual e necessária e que só pecava por tardia, parece que se transformou numa polémica que já suscitou a indignação de mais de uma centena de historiadores e “cientistas sociais”, trazida a público num abaixo-assinado de professores de diversas Universidades, portuguesas e estrangeiras — se bem que, para dizer a verdade, quase todas de segundo plano, as Universidades, e quase todos, portugueses, os professores, com excepção de alguns, que presumo brasileiros, em decorrência dos nomes que ostentam e que só podem ter origem em antepassados portugueses e não em avós balantas ou mesmo tupi-guaranis.

Antes de, com a devida vénia e indisfarçável terror, entrar na polémica, deixem-me confessar a minha ignorância preliminar relativamente a duas questões, seguramente menores: desconheço quase por completo, não só os nomes, mas, sobretudo, a importância dos ditos historiadores para o que, num português em voga mas não recomendável, chamam “a riqueza problematizante” do que ora os ocupa; e desconheço ainda mais o que faça ao certo um cientista social que o torne uma autoridade na matéria.

Isto posto, e indo ao fundo da controvérsia, estas cem excelentíssimas autoridades indignam-se, em suma, contra o maldito nome do nascituro museu. Porque a questão, dizem eles, é que chamar-lhe Museu das Descobertas ou dos Descobrimentos, “não é apenas um nome, é o que representa enquanto projecto ideológico”. Este, esclarecem, é o projecto ideológico do Estado Novo, “incompatível com o Portugal democrático”. Bravo, António Ferro, o SNI continua vivo, os Descobrimentos portugueses mais não foram do que a antecâmara do colonialismo e o Estado Novo o seu apogeu e desfecho natural! O “mar sem fim português”, de que falava Pessoa, outra coisa não era, afinal, do que o Portugal do Minho a Timor, de que falava Salazar.

Pois, bem, se a palavra “descobertas” envolve um “projecto ideológico” de conotações maléficas, isso significa que as excelentíssimas autoridades têm outro projecto ideológico que se opõe e resgata este. Qual seja, e abreviando, chamar a atenção, por exemplo, para que os povos alegadamente descobertos pelos portugueses não se terão sentido descobertos, porque, de facto, já lá estavam. É um argumento tão fantástico, que, de facto, é irrebatível. Mas, salvo desconhecida opinião, ninguém sustenta que Vasco da Gama criou do nada o samorim de Calicut, que os Jesuítas encontraram o Tibete despovoado ou que Pedro Álvares Cabral celebrou a primeira missa em Terras de Santa Cruz para uns fantasmas vestidos de índios. Não, o que eles fizeram foi encontrar as rotas, marítimas ou terrestres, que ligaram o Ocidente e a Europa ao Oriente e às Américas, pondo em contacto dois mundos até aí sem contacto algum (com a excepção parcial das viagens de Marco Polo, por via terrestre, e as viagens marítimas, sem sequência científica ou outra, dos vikings). O que se sustenta é que não foi o samorim que se deu ao trabalho de largar o seu luxuoso trono e apanhar uma low-cost para a Europa, mas o Gama que se arriscou a ir mar fora naquelas cascas de noz ao seu encontro. Na época, isso significou — em termos de navegação, de cartografia, de indústria naval, de rotas comerciais e de avanços científicos em todas as áreas — um pulo de uma dimensão nunca antes e raras vezes igualado depois, na história da Humanidade. Sem falar das terras virgens que descobrimos e dos que não descobriram povos, dos que navegaram em pleno desconhecido, movidos por um verdadeiro sentido de descoberta tão extremo e destemido que só poderemos classificar como quase demência: Bartolomeu Dias dobrando o Cabo da Boa Esperança sem saber o que iria encontrar do outro lado; Fernão de Magalhães procurando insanamente o Estreito que ainda hoje tem o seu nome, ligando o Atlântico ao Pacífico e provando que a terra era redonda e circum-navegável em toda a sua extensão; os irmãos Corte-Real desbravando o limite extremo do norte navegável. Todos eles em mar aberto e em terra de ninguém, onde seria impossível às excelentíssimas autoridades encontrarem forma práctica de dar execução a outro dos argumentos arrolados para o conceito ideológico do seu museu: “Valorizar as experiências de todos os povos que estiveram envolvidos neste processo”.

Enfim, e sempre resumindo, vem depois o argumento da escravatura. É incontornável e eu subscrevo-o: deve estar referenciado num museu sobre as Descobertas, e subsequente colonização portuguesa. Sem esquecer, porém, que não foram os portugueses que inventaram a escravatura, mas apenas aproveitaram o comércio de escravos que encontraram florescente nas costas oriental e ocidental de África. E sem esquecer também que, sem desculpar o que foi a tragédia da escravatura, não há erro mais simplista de cometer do que julgar a História pelos padrões éticos contemporâneos. E estou à vontade no assunto, pois escrevi um romance histórico cujo tema central era a escravatura em São Tomé e Príncipe e em que, apesar de ela ter durado até à primeira metade do século XX (!), não encontrei, curiosamente, entre tanta fonte pesquisada e tanto historiador preocupado, nenhum trabalho histórico de referência que a contemplasse.

Não resisto a uma palavra aos invocados historiadores brasileiros que assinam esta petição. Conheço muito, de ver e de ler, da herança história de Portugal no Brasil — e tenho um profundo orgulho nela. Todos os ciclos de prosperidade histórica do Brasil, ligados às riquezas naturais, tirando o primeiro — o do pau-brasil, irrelevante, em termos económicos — foram feitos graças a árvores levadas para lá pelos portugueses: a cana de açúcar, a borracha, o cafeeiro, até os coqueiros, que levámos da Índia. E o ouro, o célebre ouro, roubado pelo D. João V? Ah, o ouro do Brasil! Do célebre “quinto real” (tudo o que cabia à Coroa), nem um quinto cá chegou. O resto? Perguntem a todas as ‘Lava-Jato’ que saltearam o Brasil, desde 1822. Pedras, monumentos? Tudo o que ficou de pé é português: no Pará, em Pernambuco, em Salvador, em Minas, no Rio, em Paraty, onde quiserem. E o Amazonas, cujo desbravamento por Pedro Teixeira é uma aventura assombrosa de coragem e persistência e cuja colonização, que incluiu a construção dos sete fortes de fronteira, erguidos com pedras de granito levadas de Portugal a mando do marquês de Pombal, e a que o Brasil ficou a dever milhões de quilómetros quadrados de floresta virgem preciosa, e que foi, no dizer do grande historiador brasileiro Joaquim Nabuco, “talvez a maior extraordinária epopeia de todos os Descobrimentos portugueses”? É bem provável que os brasileiros não saibam nem queiram saber dessa história. Os portugueses não sabem com certeza. Mas deviam saber.

Que haja portugueses que tenham vergonha desta história e queiram reescrevê-la numa espécie de museu de autoflagelação é problema deles. Mas não pode ser problema dos outros. O dinheiro dos nossos impostos não pode servir para fazer um museu contra a nossa História, contra uma História que foi tão grandiosa que, se calhar por isso mesmo, nem a conseguimos entender, na nossa pequenez actual. Tudo isto me faz lembrar o que escreveu no início de um poema uma senhora que, por acaso, era minha mãe: “Navegavam sem o mapa que faziam/ Atrás deixando conluios e conversas/ Intrigas surdas de bordéis e paços…”.

Para terminar: já me tinha pronunciado sobre isto antes. Antes de esta irrepetível oportunidade para fazer uma coisa bem feita ter sido capturada pela intelligentsia ociosa dos abaixo-assinados. Mas volto ao que então escrevi: eu não queria apenas um Museu das Descobertas em Lisboa. Queria um Museu de Portugal e do Mar ou dos Portugueses e o Mar. Onde coubesse também a história de duas outras extraordinárias epopeias que o comum dos portugueses e dos estrangeiros que nos visitam desconhece: a nossa contribuição única e indispensável na história da pesca à baleia (juntamente com os cabo-verdianos), no Atlântico e Pacífico, e na história da pesca ao bacalhau à vela, na Gronelândia e norte do Canadá. Desse modo se tornaria patente que não foi por um simples acaso, nem para espalhar a fé e o império, ou apenas para trazer a pimenta e a canela da Índia, que este pequeníssimo povo, entalado entre o fim da Europa e o mar, escolheu o mar como destino. E, porque o espaço tem relação directa com isso, porque está miseravelmente desaproveitado, porque é lindo e porque sai mais barato aos contribuintes, queria vê-lo na Cordoaria Nacional.

De facto a Descoberta do caminho marítimo para a Índia não foi descoberta, foi aventura...

O mal destes intelectuais militantes do politicamente correcto pode não ser falta de conhecimento mas apenas de um conhecimento científico evolutivo, o mesmo que assegura que o homem vem do macaco, por descendência directa.  Portanto, resta saber se preferem ter como ascendentes os babuínos ou os gorilas ou, hipótese mais provável, do chimpanzé que já conheciam a teoria da bola saltitona. De qualquer modo, símios há muitos. 

Por outro lado, em Portugal há um défice acentuado de conhecimento histórico e se MST denota uma boa escola primária, eventualmente num colégio de padres, a verdade é que nem todos tiveram direito à mesma educação. 

Por isso aqui ficam uns recortes de uma revista francesa que agora perfaz quarenta anos de existência- A L´Histoire, aparecida em Maio de 1978- e cujo número especial de Agosto de 2016 mostrava o que foi a evolução histórica no continente africano, o tal em que se assegura ter havido a descoberta da origem do homem. Ou não terá sido descoberta e, sim, invenção? É perguntar a esses sábios...


A própria revista L´Histoire no número comemorativo dos 40 anos explica de onde vem aquela ideia nova e politicamente correcta:


19 comentários:

J H P disse...

No Porto já existe o "World of Discoveries" (para inglês ver) e nenhum excelso cientista social se queixou
v. https://www.worldofdiscoveries.com/

Já em Braga tivemos direito a ter a estátua do Marechal Gomes da Costa tapada para "por os bracarenses a pensar e a discutir a razão pela qual a escultura foi hoje tapada", de modo a perceberem "quem é esta personagem e o que ela representa", conclui."

https://www.jn.pt/local/noticias/braga/braga/interior/estatua-de-gomes-da-costa-tapada-por-ativistas-do-bloco-de-esquerda-9285038.html

Floribundus disse...

devolvam antónio das mortes à União Indiana
por ser migrante

Floribundus disse...

deviam merditar sobre isto

de modo que nada há de novo debaixo do sol.
Há alguma coisa de que se possa dizer: Vê, isto é novo? Já foi nos séculos passados, que foram antes de nós.
Já não há lembrança das coisas que precederam, e das coisas que hão de ser também delas não haverá lembrança, entre os que hão de vir depois.

Eclesiastes 1:9-11

joserui disse...

Estes indivíduos têm uma estratégia que é essencialmente merdiática e como controlam os mérdia, passa. Mas na minha opinião é um meio para um fim. O fim é o amanhã que canta, o meio é estar nas notícias, todos os dias, todos os dias, sem falhar um único.

josé disse...

O comunismo, tal como a ferrugem, nunca dorme.

E quem acha que é uma questão menor, faz o jogo da "reacção"...ahahaha. Ou seja dos que andam sempre a rabiar contra a tradição e o passado.

zazie disse...

Eu já estava à espera desta imbecilidade. Mesmo a exposição da Comemoração dos Descobrimentos Portugueses não se tinha feito agora.

Porque a escardalhada tomou conta disto tudo e a lavagem cerebral agora até tem patrocínio "estrangeiro" da ditadura do politicamente correcto.

Lembro-me de há cerca de 3 anos uma brasileira ter vindo ter comigo para ver se eu lhe orientava uma tese na área. Só que a área que ela queria era o "racismo do colonialismo".

E queria ilustrar este racismo com imagens portuguesas contra os pretos

ehehehe

Eu perguntei-lhe se tinha ideia do espaço e das datas e que nada. Já sabia que tinha de ser racismo desde sempre porque sim.

Para meu espanto, sai-se com esta: "sim, porque o racismo é tão grande que até se diz que tem medo do escuro às crianças porque o escuro é o preto".

A sério. Parece anedota mas ela disse isto mesmo- que temos um preconceito racial até por se ter medo de estar às escuras e não ver nada.

Eu recomendei-lhe o ISCTE. Disse que por lá encontrava de certeza quem lhe orientasse a coisa mas comigo não valia a pena.

zazie disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
joserui disse...

"sim, porque o racismo é tão grande que até se diz que tem medo do escuro às crianças porque o escuro é o preto".
Todos os dias aprendo uma coisa nova… nesta vou tentar ser como Sherlock Holmes e esquecer-me imediatamente.

joserui disse...

Não sei se alguém chegou a ver este apontamento da BBC sobre uma pintura que mostra Lisboa nos tempos do império (Facebook).

Ricciardi disse...

A coisa está preta.
Denegrir.
Mercado Negro.
Serviço de preto.
Magia Negra.
Ovelha Negra.
Lista Negra.
.
Estas são expressões correntes que tem origem numa epoca. Época essa onde havia seres humanos de primeira e de segunda. Não está bem nem mal. Foram outros tempos e a língua acompanhou esses tempos.

Da mesma forma que a evolução moral e legal no que estes temas diz respeito mudará a língua para futuro. E bem.

Rb


Ricciardi disse...

A aristocracia de espirito não é coisa que se compre. Um bom berço ajuda, mas não é suficiente. Se não sabemos perceber que o destinatário das nossas palavras pode sentir-se ofendido e, mesmo assim, as usamos sem freio, só pode haver uma razão. A maldade. Deixa de ser o uso duma expressão normal para passar a ser uma ofensa deliberada.

Os americanos quando querem interiorizar um preto dizem-lhe: come here boy.

E depois, bem e depois eu perguntei ao meu motorista angolano se os angolanos levavam a mal se chamasse preto para indicar alguém. Ele disse-me que dependia. Da entoação. Oh preto chega aqui é ofensa. Mas se dissermos aquele preto é alto para caramba não é ofensa.

A diferença pode ser subtil nalguns casos mas prevalece sempre o bom senso, a boa formação moral, a educação.
.
Atributos que mui estão em falta na direita pisca pisca.

Rb

JC disse...

Mui bom senso, mui boa formação moral e mui boa educação deve ter o pisca pisca que disse isto:

"Não se espantem, porque entretanto os tais três reis magos que vêm em Fevereiro agora a Portugal (...). Um é do Banco Central Europeu, o outro também é da Comissão Europeia e até há um mais escurinho, que é do FMI".

zazie disse...

E sabe como reagiram por cá os toinos dos académicos à conta dessa pintura, não sabe, José Rui...

Pois, é como lhe digo. Uma anedota mas é anedota de lei e manda.

Anjo disse...

Não conhecia a pintura, nem nunca tinha visto nada semelhante.

Diogo Ramada Curto é um dos que questiona a autenticidade da obra. Pois é, estraga-lhe a narrativa...

Zephyrus disse...

Estes tipos sao a nova Inquisicao. Tal torna-se cada vez mais evidente. Se nao forem denunciados e travados agora agora daqui a 10 anos sera talvez demasiado tarde.

Vivendi disse...

Museu do Auschwitz Português » OK

Museu das descobertas » Ai que horror e colonialista.


A democracia arrebentou com a civilização ocidental.






joserui disse...

Não sei como reagiram… o meu contacto com o Mundo, designadamente o pequeno mundo português é quase exclusivamente através deste blogue. Já não olho para quase mais nada. Passo a tempo livre a ler e ver as coisas que me interessam.
Por exemplo, ainda ontem acabei de ler um livro sobre malaguetas — este ano vou cultivar umas 15 variedades. Sabia que não se deve conservar malaguetas em óleo ou azeite sem ser no frigorífico? E secas! As frescas fora do frigorífico podem desenvolver uma bactéria que provoca botulismo. Em casa dos meus pais havia sempre um frasco de piri-piri em azeite fora do frigorífico, tenho sorte em estar vivo!

Pedro disse...

Com certeza que o conceito de descoberta está hoje ultrapassado, porque de facto o resto do mundo sempre lá esteve.

Hoje num mundo globalizado é um bocado ridículo informar os outros, por vezes culturas muito mais antigas que a nossa, que nós é que os "descobrimos" como se a única parte importante da humanidade fossemos nós.

O que houve foi a expansão europeia de que o descobrir o caminho para chegar aos outros povos não passou d uma primeira etapa.

A maior parte desses povos até já eram conhecidos e eram conhecidos outros caminhos. Para nós a chegada à índia não foi nenhuma descoberta. Toda a gente sabia que existia e era por isso que queríamos lá ir.

Estava-se apenas a estudar vias alternativas no que foi apenas um pormenor na expansão e não um movimento de descoberta pela descoberta que aí sim mereceria tratar o período por essa designação.

Essencialmente o que se passou foi a expansão e o próprio termo descobertas só passou a designar o conjunto do processo muito mais tarde, quando a civilização se afinou e não ficou tão bonito gabar a conquista pura e simples como os reis da CONQUISTA faziam.

A designação de todo o processo pelo seu aspecto mais inócuo e progressista não passou de um politicamente correcto avant la letrre.

muja disse...

Ah isto é apenas o princípio.

Já andavam por aí a dizer que é crime contra a humanidade.

Pensavam que era só prós outros, não?

As cornetas do poder