quarta-feira, 4 de abril de 2018

O mito do som perfeito, gravado, para sempre.


 No início dos anos oitenta dei por mim a poder comprar discos, novos,  dos poucos artistas que apareciam e me interessava ouvir ou dos antigos,  que eram reeditados de vez em quando em reprensagens ao sabor de critérios comerciais.
Alguns discos que não ouvira originalmente por ser ainda bastante novo, surgiram outra vez nos escaparates.
 Uma dessas reedições foi a discografia dos Beatles, pela editora Valentim de Carvalho no início dos anos oitenta que permitiu ouvir músicas que nunca tinha ouvido. Outra, algum tempo depois, foi a dos Roxy Music, prè Avalon. 
Com a nossa entrada na CEE houve uma cornucópia de importações de discos “ a bom preço” e “nice price”, muitos deles da WEA alemã e discos que nunca ouvira tornaram-se de repente em realidade tangível nas montras das lojas de discos.Grupos americanos que nunca tinha ouvido a não ser no rádio e episodicamente em programas com "convidados" como Bernardo Brito e Cunha que traziam e emprestavam essas músicas estranhas vindas de algures, como os Grateful Dead e os Little Feat.

Surgiu então uma revolução na produção desses artefactos: na primeira metade dessa década apareceu o cd, acrónimo de compact disc que pegou de estaca e que prometia um som perfeito, para sempre.
A promessa não se cumpriu mas iludiu muita gente durante muito tempo porque as primeiras impressões eram superlativas e a ilusão foi permanecendo ao longo dos anos, já mais de vinte, embalada em artifícios e também em avanços técnicos significativos .  
 
 O primeiro artigo elaborado sobre a comparação entre o som do vinil e do cd li-o na revista americana High-Fidelity de Janeiro de 1983, seguido de outros, como o publicado na Rolling Stone de 11 de Março de 1983 e também na Record ( grupo Rolling Stone) de Agosto de 1983.




O artigo da Rolling Stone era particularmente encomiástico e exultante, revelador do mito criado: o som perfeito, para sempre e uma revolução que pretendia deixar para trás, completamente,  o LP que vinha dos anos 50, ultrapassado pelo disco mais pequeno de plástico, gravado literalmente com números e linguagem binária.
Os americanos tiveram oportunidade em ouvir o primeiro aparelho comercial de reprodução de cd´s no final de 1982 e segundo se lê ficaram rendidos à excelência do produto que batia qualquer aparelho anterior na reprodução sonora, pelas facilidades de utilização instantânea das músicas, repetição ou sequência.
Os primeiros cd´s produzidos ainda a partir das bandas analógicas não passavam de uma dúzia, misturando música clássica, pop e jazz. 

Logo nesse número de Janeiro de 1983 a High Fidelity publicou um debate entre especialistas que se pronunciaram sobre o som comparado do cd e do lp e concluíram logo o que se tornou evidente mas apenas se generalizou anos mais tarde: a conveniência prática do cd não suplanta de todo a riqueza musical que o lp confere.   





  Os ingleses não ficaram atrás e publicaram a  Wich Compact disc? aqui numa imagem da edição de Abril de 1988 ( Vol. 4, nº2) e que já ia no 4º ano de publicação.


Os americanos pareciam mais sofisticados nesta matéria. A CD Review sucedera à Digital Audio e esta edição de Fevereiro de 1989 era já do 5º ano de publicação pois foram lançada em Setembro de 1984.



Um dos principais cultores do som "digital" era Donald Fagen dos Steely Dan e um dos primeiros discos a serem gravados em máquinas digitais ( 3M)  foi o seu primeiro a solo, The Nightfly publicado em 1982 ( antes e em primeiro tinha sido o de Ry Cooder, Bop Till you drop, de 1979). 
Quando saiu comprei a versão espanhola do disco, em vinil. Depois comprei o cd quando saiu, no ano 2000, na edição alemã e há pouco tempo a versão original, americana, do LP. Evidentemente prefiro esta última.
Segundo os entendidos a melhor versão do disco será a  que resulta de um ou dois singles em 12´ que sairam do álbum, mas em formato de LP. Depois há quem jure que é a original, americana, com matriz Masterdisk RL ( Robert Ludwig). É esta que tenho agora, desse disco, mas há quem diga que afinal será a prensagem alemã, a melhor... mas para mim, a melhor capa é a americana.
O artigo da High Fidelity de Março de 1984, abaixo publicado, explica melhor como esse disco foi gravado.


 Em Março de 1984 a revista High Fidelity já se interrogava sobre o que soaria melhor: o cd ou o lp. E respondia: nem sempre o cd soava melhor...




 A Sony, co-inventora do artefacto nem duvidava: som perfeito, para sempre era o do cd. E assim o anunciava na High Fidelity de Abril de 1983:


 Não obstante o aparecimento do novo meio digital, as gravações domésticas continuavam a ser realizadas em fita analógica, em cassetes ou bobines. 
E a publicidade começou a reflectir as novas possibilidades, como mostra esta publicidade na High Fidelity de Agosto de 1984:


 As cassetes nessa época ainda eram o meio preferido de gravação, apesar dos receios da indústria, por causa das cópias maciças que tal permitia.

Em 1991, como mostra esta publicidade na Musician, de Outubro desse ano, ainda era assim:


 Porém, a nova tecnologia prometia outros desenvolvimentos, como o futuro veio demonstrar. Aqui na High Fidelity de Agosto de 1984: o dsd não estava longe...


Em Fevereiro de 1984 a expressão digital já se declinava em vários aparelhos de som, pelo menos na Sony:


 Em 1985 estava já lançado o futuro no digital, neste caso na gravação original e não apenas na reprodução em cd.

High-Fidelity de Dezembro de 1985: um dos gravadores digitais, de estúdio, neste caso da Sony.


E o aparecimento dos instrumentos electrónicos digitais, como os sequenciadores e aparelhos de ritmo:


Em 1985 estava em preparação um dos discos que serviu melhor a onda digital:  Brothers in arms, dos Dire Straits e que se tornou um cavalo de batalha ganhador nessa corrida à novidade tecnológica no som. Aqui um artigo na Musician de Dezembro de 1985, em que se fala desse disco ainda em preparação, na altura em que os Dire Straits eram o grupo do momento, vindo de Love over gold que aliás é uma pequena maravilha sonora:


 Foi mais ou menos por essa altura que ouvi os primeiros sons do digital cd. Em Espanha, num El Corte Inglès, numa aparelhagem Sony de gama superior, numa espécie de redoma passavam os cd´s numa daquelas demonstrações que convencem em primeiro lugar pelo aparato e depois pela função espectacular. O som do cd passou a ser excepcional mesmo sem comparação concreta e aturada como o do vinil. A novidade fez o resto. O aparelho e colunas de demonstração eram as que se encontram na publicidade acima mostrada, na altura o melhor da Sony. Até o aspecto metálico das colunas ajudava a esquecer o vinil que ali também se vendia, já em saldos. Foi nessa altura que comprei discos baratos em LP de JJ Cale, por exemplo.

Por cá a febre do cd também alastrou, embora lentamente e nem me lembro de referências de imprensa ao fenómeno tecnológico revolucionário. É verdade que também não precisava porque as tinha no original de onde os portugueses que escreviam sobre o tema também iam bebericar ( os que iam...) e nem sei se José Victor Henriques já escrevia em algum jornal ou revista sobre o tema...

A maior divulgação que então se fazia era pelo rádio, no caso uma emissora espanhola de Vigo, Radio Popular de Vigo, que passava em determinada hora, à tardinha, uma selecção de músicas de várias latitudes embora quase todos a cantar em inglês.

Nesses tempos de descoberta do som digital, a emissão de rádio em Fm podia ser um veículo privilegiado porque as emissões de rádio nesse formato atingiam uma qualidade assinalável e dava perfeitamente para distinguir o som do cd pela magnífica sonoridade asséptica que transmitiam e que se confundia com o supra-sumo da qualidade.
Dessas emissões especiais gravei em cassete alguns temas que guardo ainda:

( Ry Cooder,  Look at granny run run do disco Bop Till you drop, de 1979, o primeiro  gravado em digital, da música pop/rock) Led Zeppelin ( Going to California do disco IV) Joni Mitchell, Twisted, de Court and Spark; Ry Cooder, do mesmo disco:  The very thing that makes you rich e Don´t mess up a good thing e Down in Hollywood; Foreigner Urgent e Boston Peace of Mind.  

Esses discos já nem eram da primeira fornada de cd´s que apareceram no mercado e em Janeiro de 1983 anunciavam-se outros, às dezenas, como se pode ler na acima mostrada Hig-Fidelity.

Em 1989 já havia nos EUA uma revista dedicada ( CD Review) e em Fevereiro desse ano anunciava um catálogo que já contava com cerca de 25 mil títulos.


 O cd foi lançado em 1 de Outubro de 1982 ( informação recolhida na net) pela CBS/Sony,  no Japão com os primeiros 50 cd´s de demonstração, a par do primeiro leitor, o referido Sony CDP 101.

Um dos cd´s escolhidos para tal foi o de Billy Joel, 52nd street originalmente lançado em lp no ano de 1978.

Esse disco é exemplar na medida em que permite mostrar a evolução da gravação em suporte digital como o cd e o que se lhe seguiu.

Em 1992 foi lançada uma versão do cd em formato especial, pela Columbia/Legacy/Master Sound. Tal como outros que se lhe seguiram, por exemplo, Bridge over troubled water de Simon & Garfunkel aparecia em banho dourado, para além do tratamento em SBM, super bit mapping, cortesia da Sony. Anunciava-se como convertendo um sinal de 20 bits para o de 16 bits do cd, sem perda de qualidade, através de artifícios técnicos.
Em 1999 foi lançado o sacd, cuja reprodução é exclusiva de leitores desse formato.


Em alguns casos, por exemplo o disco One Size fits all, de Frak Zappa e os Mothers of Invention, o disco cd lançado pela Rykodisc em 1996 ( Zappa tinha negociado a publicação do seu catálogo, em 1988,  com essa etiqueta), aparecia embrulhado em celofane com o papel recortado e a sinalizar na capa Au20, com indicação de "20 bit master/24k gold" o que o tornava apelativo e irresistível. Tanto mais que a edição era numerada ( a minha tem o nº 5542). Zappa foi dos primeiros artistas a alinhar as gravações pelo formato digital e foi dos primeiros a usar um Synclavier, em 1984. Era um primitivo instrumento em plataforma de produção digital musical, sintetizador e "sampler", colector de amostras sonoras.


 A RykoDisco pegou na ideia do disco dourado e dos 20 bits e explorou assim, aqui numa imagem da CD Review de Setembro de 1984:



Uma etiqueta que se especializou em versões aprimoradas de cd´depois de o ter feito igualmente nos discos lp, na segunda metade dos anos setenta, foi a americana Mobile Fidelity, apostando nos discos dourados como método de convencimento dos cépticos acerca da superioridade desse som cd assim vendido.
Aqui um anúncio de 1991:


Outra que seguiu a mesma via negocial foi a DCC Compact, ,aqui num anúncio de 1992:


A Nimbus, aqui num anúncio de 1987 especializou-se em edições cuidadas e publicitavam esse cuidado como sinal de qualidade.


Assim não era de admirar que já em 1987 ( aqui uma página da Musician de Dezembro desse ano) se incentivassem os compradores a trocarem os velhos vinis pelos novíssimos cd´s. E muitos assim fizeram, desfazendo-se de colecções inteiras de discos em lp numa precipitação que mais tarde lamentaram.



 Portanto, já em 1987 os artifícios do comércio de cd´s tornavam-nos em alguns casos irresistíveis, tanto mais que o meio físico permitia a gravação de mais de 70 minutos de som, quase o dobro do disco de vinil e as editoras começaram a lançar cd´s com o disco original acrescentado de extras e por vezes de versões rematrizadas da versão original, supostamente para as tornar mais agradáveis ao ouvido.
Começaram então a aparecer caixas de cd´s, reunindo colecções inteiras da obra de certos artistas, a preço razoável, com discos de extras, inéditos, livretos explicativos e ilustrados sobre a história dos músicos, etc etc.

Estas foram publicadas ao longo dos anos. A primeira, que me foi oferecida e guardo como grande recordação de um tempo já passado em 1992, foi a caixa dos Byrds editada pela Columbia/Legacy, em 1991, com 4 discos compactos e reunindo temas dos discos desse grupo acrescentados de inéditos e versões alternativas. Uma prenda fantástica, ainda hoje.

Outra memorável é a dos Beach Boys, Good Vibrations, lançada em 1991, em cinco cd´s, igualmente ricos em temas inéditos e versões dos seus inúmeros discos. 



Em 1991 o panorama estava todo do lado do cd, como mostram estas imagens da cd review de Setembro, Julho e Dezembro de 1991:


Em Outubro de 1992 a High Fidelity fazia o balanço dos dez anos passados do cd:


Em meados da década de noventa, dez anos depois de ter surgido no mercado, o cd parecia ter ganho a aposta...mas será que ganhou? Veremos a seguir, com o aparecimento de cd´s especiais, dvd´s e sacd, além de outros formatos entretanto desaparecidos do mercado.

8 comentários:

Floribundus disse...

no digital é necessário ter
'dedo para aquilo'

ao vivo há sempre brinde de sons extra

admiro o seu gosto
mas não o cultivo

Marat Silva disse...

O som perfeito não pode ser preso ou contido, mesmo assim, ainda prefiro meus LPs.
Bom artigo, pesquisa extensa e esclarecedora.

antas disse...

O velhinho LP, sempre de negro, sempre vestido a rigor para ir ao enterro do CD...
N de Campos

muja disse...

Uma questão: sendo o som do CD "asséptico", donde vem a "sepsia" do vinil? É um artefacto da fabricação, gravação, prensagem ou reprodução?

josé disse...

Vem da sua natureza. Porém, "asséptico" é apenas uma adjectivação e nada mais que isso.

Para se entrar na definição e diferenciação será melhor procurar outras vias semióticas.

Para quem entender a subtileza da distinção, basta. Para quem exigir mais, questionando a adjectivação particular será preciso elaborar mais um pouco para se tentar diferenciar o que se torna audível a quem quiser ouvir.

Porém, no final de contas como tal matéria reveste uma sujectividade maior, a diferenciação reside apenas na opinião.

Quem quiser continuar a achar que o cd é melhor em som e em tudo, faça o favor de continuar a entender.

Isto não é uma guerra de conceitos ou sequer uma profissão de fé numa sonoridade contra a outra.

Portanto e em resumo: o som do Lp, ouvido em boas condições para mim revela-se melhor que o som do cd, ouvido em boas condições.

Uma das características que noto é a natureza asséptica deste último, ou seja, a ausência de ruídos que o lp comporta e a reprodução de sinais sonoros que são expressos em numeração binária que não é idêntica à analógica uma vez que a onda sonora não é contínua e sim repartida em amostras.

Para além disso, torna-se aparente no cd uma reprodução que cansa o ouvido após algum tempo e não é repousante como o vinil se revela ser, subjectivamente.



Pedro Alves disse...

A mim também me fatiga mais o som digital que o do vinilo. Música ao vivo fatiga ainda mais, suponho que pelo esforço cerebral de processamento. Por isso, nos auto-radios, quando são transmitidas notícias, os modelos de topo reduzem a banda audio e comprimem a dinamica de modo a melhorar a compreensão. Com algoritmos de compressão ,por exemplo MP3, acho que também deve fatigar menos ou os miúdos não andariam permanentemente com os auscultadores enfiados nos ouvidos.


O Audio do CD é quantificado em 16 bit = 65536 níveis de sinal por amostra.
20 X Log(65536)= 96 dB – gama dinamica.
Erro de quantificação máximo sem dither= 1 bit ou seja : Relação Sinal/Ruído mínima de 90 dB contra cerca de 60 dB num gira discos de topo.
O ruído devido ao erro da digitalização está muito abaixo do ruído do LP.
Mas até o LP é digital, porque são electrões a passar nos cabos, com carga fixa em número inteiro. 

josé disse...

Segundo o livro de Greg Milner, Perfecting sound forever, em 2006 Bob Dylan disse numa entrevista a Jonathan Lethem : "i don´t know anybody who´s made a record taht sounds decente in the past twenty years, really". Ou seja, desde 1986...

Curiosamente foi a altura em que me deliguei quase completamente da música popular. Todas as minhas referências são anteriores.

Mais do tal livro: " when music on a cd is converted to mp3 or aac ( the ipod default) between 80 and 90 percent of the music is simply discarded."

Depois até explica como é que o nosso ouvido descodifica o som:

"A membrana que bisecta a colchea- o órgão do ouvido interno semelhante a um caracol e do tamanho de uma grainha- está dividio em 24 áreas, correspondendo cada uma a uma série de frequências. os receptores nervosos determinam que frequências estão presentes notando em qual das 24 áreas há vibração. Mas como essas áreas correspondem a grupos em vez de frequências individualizadas, uma frequência mais forte num grupo pode mascarar uma frequência mais fraca do mesmo grupo ocorrendo simultaneamente. A música, tipicamente, contém múltiplas frequências em dado momento. Cada um dos "codecs" possui um "modelo psicoacústico" integrado no seu algoritmo que determina quais as frequências que são mascaram as demais, e eliminam a informação das mais fracas. "

Se isto fizer sentido, será esta a explicação: o digital, artificial copia a vida real.

joserui disse...

Sobre o artigo, pouco há a dizer além do que já se disse antes, a não ser os parabéns ao José, por mais um.
Quanto ao Bob Dylan, está bom é para ganhar Nóbeis, para a música tenho dúvidas. Mas gosto de umas quantas letras, cantadas por outros. Eu não sei o que quer dizer essa de 1986… pode até dar-se o caso de o man ter ficado surdo de um ouvido e ouvir tudo em stereo mas só um canal, quem sabe? Nunca gostei dessas sentenças. E eu próprio utilizo uma: Depois de 1968, nunca mais houve nada de jeito neste Mundo.
AAC 80-90% da música discarded… hmmm… de alguma forma duvido também.
O Pedro Alves subestima espectacularmente a resistência dos miúdos. Enquanto houver orelhas, vai haver auscultadores a debitar toda a casta de misérias sonoras naqueles jovens ouvidos.