sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Osório, de apelido

Outra pessoa que não conheço e publica semanalmente no Sol é Luís Osório. Filho do pai José Manuel Osório, falecido há uma semana e que todos os media do nosso sistema mencionaram em obituário, porque era estudioso do fado e porque era comunista e porque era não sei que mais, além de resistente à doença que o minava há anos a esta parte, tal como milhares de pessoas neste país.
O filho Luís escreve sobre o pai, José Manuel hoje no Sol e intitula a crónica "o meu PAI", como eu fiz quando o meu pai também morreu quase há dois anos. O que Luís escreve sobre o pai é muito pessoal e por isso lhe diz respeito, pelo que não comento e respeito igualmente.
Mas há uma pequena frase que comento porque nos diz respeito a todos, como sociedade que se organizou do modo como vemos e sabemos: "O primeiro texto que escrevi foi uma cunha sua. Joaquim Benite, ao tempo chefe de redacção do jornal O Diário recebeu-me a seu pedido- `o teu pai está convencido que tens talento, diz-me coisas`. Escrevi dois textos: sobre o movimento skinhead e uma entrevista ao Rodrigo Leão."

Esta pequena frase resume um mundo: o das influências endogámicas, permanentes, sempiternas, constantes, sufocantes, na sociedade portuguesa em todos os quadrantes e latitudes ideológicas, sem distinção de classe.
Luís Osório se fosse filho de alguém diverso daquela fidalguia comunista e peculiar não teria hipóteses algumas de singrar nos media, parece-me. Escreve que no 8º ano, "por força da puberdade, tive seis negativas no segundo período". A puberdade, essa incompreendida...
E sendo filho de algo, a ética era e continua a ser mesmo essa: a da cunha, a do favorecimento de familiares e próximos para arranjar o emprego, a ocupação, a oportunidade. Luís Osório como alguns outros cujo nome não quero rolar aqui, aproveitaram a maré propícia das ondas familiares.
Actualmente, tal prática é mais comum e transversal do que nunca: com as dificuldades de emprego jovem, os paizinhos do costume arranjam as colocações de sempre para os filhinhos estimados e a endogamia universitária, profissional e ocupacional é o desporto favorito das elites.
Não há diferença nenhuma de ética nestas coisas e ainda bem que Luís Osório, a propósito da morte do seu pai o veio lembrar.
É a tradição. A única que o jacobinismo aprecia e pratica com gosto e garbo.

PS. Obviamente ( ou não e por isso o P.S.) que não pretendo denegrir o mérito de Luís Osório. Apenas lembrar a quem pode não ocorrer que é assim que funciona a sociedade portuguesa, em geral. E todos participam nesta farsa civilizacional em que se proclamam princípios e se cumprem conveniências.
Seria bom que todos assumissem isto tal como é e sempre foi e assim o jacobinismo teria algo a perder, porque a tradição é o seu inimigo principal.

4 comentários:

joserui disse...

Justiça seja feita numa coisa... a cunha é uma instituição portuguesa e é transversal a todos os quadrantes políticos e ideológicos.
Quando a cunha é em massa e controleira, acho que é mais métier da esquerda, até pela forma como vêem o Estado... estarem lá faz parte. Depois ficam burgueses, mas isso é um detalhe. -- JRF

zazie disse...

É verdade, José. Mandei-lhe um email. Acho que não me enganei mas ia-me esquecendo.

Beijinhos

josé disse...

Não enganou. Obrigado. Vou pôr uma velha canção de Tom Waits e Ian Matthews porque hoje, neste dia e desde há vários anos, estou bem tranquilo.
Em alturas anteriores tem havido isto e aquilo que me incomoda, mas hoje não.
Até estou admirado.

lumati disse...

Muito deselegante e extemporâneo, a meu ver, o seu artigo.

Como é difícil governar!