Sol:
Os anúncios das últimas semanas em torno dos cortes financeiros
previstos para a agência Lusa e dos despedimentos anunciados em vários
órgãos de comunicação nacional, como é o caso do jornal Público,
desencadearam uma onda de reacções em defesa do jornalismo e do serviço
público no seio da democracia. Moda corrente nos dias de hoje, surgiram
na internet duas petições e uma carta aberta que já reúnem milhares de
subscritores.
Tutelada maioritariamnete pelo Estado, «a agência Lusa
recebeu com grande apreensão a notícia de que o Governo tenciona reduzir
em mais de 30 por cento o valor do contrato de serviço noticioso e
informativo de interesse público». É o que se pode ler na petição
pública 'Em Defesa da Agência de Notícias Lusa',
que se destina à Assembleia da República, ao Governo e à Presidência da
República, e que já conta com quase 3 mil subscritores.
Considerando
que o corte do financiamento «põe em causa aquilo que é uma estrutura
única no país, que presta um serviço ímpar em prol do interesse dos
cidadãos e da democracia», os trabalhadores da Lusa pedem o «apoio de
todos na defesa do serviço público que presta e quer continuar prestar».
Segundo os autores da petição, a Lusa produz uma média de 392 notícias
por dia, à parte de disponibilizar sons e vídeos necessários ao
funcionamento dos vários órgãos de comunicação social nacionais.
Ao mesmo tempo, uma outra petição está a correr a internet. 'Em defesa da manutenção da qualidade do jornal Público e dos profissionais que fazem dele um jornal de referência'
foi criada pelo mesmo grupo que criou o 'Manifesto Para um Mundo
Melhor', destina-se à população em geral e já conta com perto de 2 mil
assinaturas.
A última vez que me lembro de uma coisa destas, animada por jornalistas, foi no tempo do PREC e os motivos eram similares embora de tonalidade diversa. A crise política de então, tal como hoje, propiciava o surgimento de manifestações e desejo de revolução.
Os jornalistas de 1975, alguns deles ainda activistas de agora, queriam uma mudança radical na política e queriam abertamente o comunismo. Lutavam por isso e mesmo aqueles que o não queriam optavam por um sucedâneo que também lhes garantia a sociedade sem classes ou pelo menos com maior igualdade entre classes, como era o chamado "socialismo democrático" personalizado em Mário Soares. A caução de democracia tipo ocidental conferiu a Mário Soares a chave do poder político, mas as opções em economia eram similares às dos comunistas e só alguns meses ou anos mais tarde se modificaram e nem tanto assim, porque sempre que é preciso continuam apelar aos mesmos chavões de sempre.
Estas imagens do livro já aqui citado, Os anos loucos do PREC, de José Pedro Castanheira e Adelino Gomes, mostram o que foram os meses de Abril e Junho de 1975 no capítulo dos media e não só: o caso República arrastava-se e o jornal estava com a publicação suspensa. A Rádio Renascença, órgão da Igreja Católica e que apesar disso tinha programas como a Página Um, com elementos de extrema esquerda,, tinha sido lentamente corroída com uma greve que se iniciou em 19 de Fevereiro desse ano, ( para meu desespero porque assim deixei de ouvir, até 5 de Abril desse
ano, o programa Página Um que se transmitia das 19:30 às 21:00, ) apoiada por "organizações sindicais dos jornalistas, gráficos, telecomunicações, revisores de imprensa, electricistas, para além do apoio expresso da UDP, da Liga Operária Católica, da Juventude Operária Católica e os sacerdotes do Movimento Cristãos pelo Socialismo, entre outros", como aqui se conta.
O processo revolucionário ia de vento em popa. Tal como hoje com manifestações, greves e apoio maciço dos jornalistas dos media. Iniciava-se a "batalha da produção" durante a qual algumas greves foram entendidas como inoportunas...pelos mesmos que dantes as faziam e que são os mesmíssimos de agora. Por onde andaria o agora Arménio Carlos? Já de punho erguido?