sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Manuel António Pina morreu.

A notícia está em todos os sítios da internet com notícias sobre Portugal: morreu Manuel António Pina.
Nem um único sítio explica de que morreu. O máximo de pormenor é o Correio da Manhã que o noticia: "por doença prolongada", um eufemismo que geralmente significa cancro.
Os demais sítios de notícias dizem apenas, no máximo, que o escritor e jornalista morreu esta tarde no hospital de Santo António, no Porto, onde se encontrava internado. E quase todos fazem o obituário que cheira a requentado.

É este o jornalismo que temos.

Conheci Manuel António Pina pelo que escrevia no JN. Não sei se chegou a fazer títulos mas o JN de então, nos anos oitenta e depois disso,  fazia títulos fantásticos e de uma graça incomparável.
Depois vi-o pessoalmente em 1986, quando concorreu a jurista-linguista tradutor, para a então CEE, para ir trabalhar no Luxemburgo. Havia milhares e milhares de textos jurídicos, no Journal Officiel e outros para traduzir. Passou às provas orais, entre os 20 escolhidos de cerca de 400 candidatos, alguns deles juristas bem conhecidos e que ficaram para trás. Manuel Pina não entrou nesse ambicionado lugar, tal como aqueles  20. Razão? Havia alguns administradores burocratas designados pelo então PSD que estavam em Bruxelas e tinham ficado sem lugar. Claro, o lugar foi-lhes atribuído, mesmo depois de uma dúzia de juízes da Cour de Justice terem dito publicamente aos candidatos apurados, em prova oral, entre os quais Manuel Pina, que precisavam de todos eles. Não precisaram.
Cheguei a comentar este episódio com Manuel Pina há uns anos, a quem me apresentei, nos claustros do convento de Singeverga.
Paz à sua alma.

4 comentários:

Floribundus disse...

lamento sempre a morte de todos aqueles a quem nunca se reconheceu o seu valor
e têm sido muitos.
os politiqueiros de vão de escada estão sempre em 1º lugar a começar pela assembleia.

Floribundus disse...


delito de opinião

Morrer não é fácil
por Pedro Correia | 19.10.12 |

«Morrer, porém, não é fácil,
ficam sombras nem sequer as nossas,
e a nossa voz fala-nos
numa língua estrangeira.»

Regressei a estes versos de Manuel António Pina ao saber, há escassos minutos, da sua morte. Sabia-o gravemente doente mas imaginei sempre que teria uma vez mais capacidade de resistir. Era há muito seu leitor, admirador dos seus textos inconfundíveis. Em verso e em prosa.
Calou-se a voz do Prémio Camões 2011, de um dos nossos melhores cronistas, de um escritor "condenado à poesia", de um grande jornalista que foi capaz de manter através dos anos um olhar de espanto jovial e juvenil perante os pequenos milagres quotidianos sem calar palavras de indignação perante todas as formas de injustiça que ainda sufocam o ser humano.
Escrevi sobre ele em vida, escrevo estas apressadas linhas na hora da sua morte. E volto sempre, comovido, à sua poesia: «No quarto ao lado alguém / a noite passada morreu, / provavelmente eu. / Os livros, as flores / da mesa de cabeceira / conhecerão estas últimas coisas / em algum sítio da minha alma?»

arg disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ana Pina disse...

Só hoje tive coragem de vir ver o que neste blog teria sido dito no dia em que o meu pai faleceu. O meu pai faleceu de um sarcoma, um tipo de cancro muito raro e muito violento. Foi internado no Hospital de Santo António no dia 11/08/2012 e faleceu no dia 19/10/2012. Faleceu demasiado cedo e demasiado preocupado. Faleceu sabendo que o CEJ me tinha destruído a vida e sabendo o que neste blog tinha sido dito sobre isso, quando escreveu uma crónica sobre o assunto. Faleceu precocupado comigo e sem poder ter visto ser-me feita justiça, que nunca será. Agradeço ao meu ex-formador, Dr. Carlos Marques e ao meu ex-coordenador, Dr. António da Beça Pereira, o facto de o meu pai não ter morrido em paz. E prometo-lhes, assim como aos meus ilustres ex-colegas do CEJ a que essa crónica se referia que, tal como o meu pai e nem que seja por causa do sofrimento que lhe causaram, não me vou esquecer deles,nem quando eles já se tiverem esquecido de mim. Está prometido. Ana Pina

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