segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Relvas não é o único e bodes expiatórios não são precisos

Estádio de Leiria ( pelos vistos à venda)

Sol:
Miguel Relvas rejeita em absoluto ter tido qualquer comportamento ilícito na gestão do dossier das privatizações da REN e da EDP e acusa o diário Público de estar a promover uma campanha contra a sua honra.
Em comunicado, o gabinete do ministro dos Assuntos Parlamentares diz que «é fácil constatar o objectivo do jornal Público», explicando que a notícia hoje publicada pelo diário da Sonae mais não é do que uma forma de «denegrir, injustificada e gratuitamente, a honra, a consideração e a imagem» de Miguel Relvas.

Parece-me bem que Relvas tem razão. E porquê? Porque todos os casos que lhe são atirados à imagem pelo jornal Público pretendem efectivamente denegrir politicamente o ministro e nada mais, aproveitando as tresleituras e as amplificações mediáticas que provocam as interpretações aleivosas.
Os casos revelam-se nados-mortos criminais e contudo são apresentados como a prova indiciária da malfeitoria a pedir pena de prisão, não explicitamente enunciada mas integrada nas entrelinhas das  parangonas.
Ora tanto no caso da licenciatura honoris causa como na da Tecnoforma como agora nesta, de hoje, dos telefonemas entre Relvas e assessores financeiros nas privatizações da EDP e da REN, o assunto vai dar ao mesmo: ausência de indícios mínimos de sustentabilidade penal, com esticanço em páginas de factos que revelam outra coisa também perniciosa mas que o Público só agora dá atenção, particularizando em Relvas os hábitos de  todo um sistema que nos tem governado há décadas: o da promiscuidade entre certos políticos e empresários, banqueiros e escritórios de advocacia de negócios ou de consultadoria ( ou consultoria como gostam de dizer).

O Público retomou agora um assunto de 2002-2004, com o caso da formação profissional que associa Relvas a Passos Coelho. Que é que esse caso tem de diferente dos milhentos que foram pasto para pequenos e médios empresários que souberam "espreitar o furo" das normas de aproveitamento dos fundos comunitários colocados à disposição de chicos-espertos?  Há alguma especificidade no caso da Tecnoforma que singularize o assunto para além de ter Relvas e Passos como protagonistas, no ano longínquo de 2004?
E então que dizer dos casos que surgiram com o negócio do Euro 2004?  É ler aqui a saga e os protagonistas do evento que misturou público e privados, dinheiros públicos e contas privadas, milhões da União Europeia e dez estádios que tiveram que ser construídos, porque sim, porque era o "pogresso" sendo certo que o próprio Cavaco Silva ou um ministro do mesmo, Cadilhe, manifestaram reservas sérias ao empreendimento, avisando que era um erro gastar tanto nesse sector e endividarmo-nos tanto. Alguém ligou?
Não. O Inenarrável que nos governou durante mais de dez anos ( porque foi ministro responsável por mais essa asneira monumental), na altura dizia que os Estádios eram obra necessária a Portugal.
Passados meia dúzia de anos, o panorama pode ser analisado assim, como aqui se escreve:

[...] Carlos Encarnação, presidente da Câmara Municipal de Coimbra, é o único autarca assumidamente contra a construção do estádio. "Nenhum país decente constrói dez estádios para um Europeu", critica aquele autarca do PSD. [...]

"Muitas cidades que queriam o Euro agora dão graças por não ter um estádio", desabafa Raul Castro, presidente da Câmara Municipal de Leiria. "Estes estádios foram pensados para uma realidade que não é a portuguesa. O Estádio de Aveiro leva metade dos [60.000] eleitores da cidade. Está sobredimensionado", acrescenta Pedro Ferreira, presidente da empresa que gere o recinto aveirense, ao que Alberto Souto, antigo presidente da Câmara de Aveiro, contrapõe que 30.000 lugares eram a lotação mínima para receber jogos de Europeu.

Com o Europeu de futebol de 2004, o Estado português gastou, pelo menos, 1035 milhões de euros, o equivalente ao custo da Ponte Vasco da Gama. Apurado por uma auditoria do Tribunal de Contas, realizada em 2005, este valor inclui, por exemplo, os encargos com os estádios (384 milhões), acessibilidades (228 milhões), bem como os apoios indirectos das câmaras do Porto (152 milhões) e de Lisboa (59 milhões). 


Quem construiu estas obras de arte em decuplicado? Quem negociou? Que empresa privadas e entidades públicas se imiscuiram nestes negócios? Quem aproveitou os dinheiros, mesmo legitimamente? Haverá alguma diferença entre estes casos e os apontados pelo Público para queimar o Relvas? Não me parece.

Portanto e por causa disso, o Público tem atirado demasiado a um alvo que não deve ser bode expiatório, embora todas as que leva sejam devidas, porque é um exemplo, mas apenas um e nem sequer o pior, de tudo o que correu mal em Portugal durante estas décadas e continua a mandar e a executar.
Portanto, corrijam lá o tiro e expliquem melhor os assuntos.


15 comentários:

era uma vez um país disse...

Irónico qb desta vez para variar.

Dito isto, o 'irmão' Relvas não é um exemplo, é um 'retrato', algo substancialmente diferente.

O Problema (com P grande) nem sequer é criminal (e mesmo que fosse já sabíamos como é que ia acabar) é estritamente moral.

Quanto a ser ou não o 'exemplo' ideal, ou o 'melhor' exemplo, a criatura é tão só o 'Frank Nitti' do actual governo ... não chega ?

josé disse...

Exemplo, aqui e com um sentido que também tem, quer dizer espelho. Que serve de modelo para o que quero dizer.
Não significa necessariamente para ser imitado...

Fernando Tavares disse...

Parabéns José
O visual do sítio está bem interesante!
ft

josé disse...

Obrigado. Foi por acaso. Estava a experimentar mudar a dimensão das imagens publicadas e saiu-me um "template" diferente. Depois escolhi o que mais me agradou.

Floribundus disse...

'o espirrar os bodes é sinal de bom tempo'
os expiatórios, no exercício do transporte, expiam sempre a culpa dos outros.

o pr 'jorze' considerou-as 'desígnio nacional'

Joaquim Pereira disse...

O visual está mais bonito sim senhor, mas eu lia melhor no anterior cujas cores eram mais contrastantes.

josé disse...

Tem razão, já mudei a cor do texto para mais escura.
De qualquer modo antes era mais "raw" e tal melhorava a leitura. Enfim, não se pode ter tudo.

Floribundus disse...

j. negócios
bodes fugitivos

.. não vamos pagar esta dívida pública, não é possível pagar 120% do que se produz se o que se produz não aumenta. O que aumentará são os 120%. Porque o PIB vai cair mais. Porque há dívida por reconhecer (em empresas públicas, em "swaps", em "factoring", em parcerias público-privadas que vão falir e ser nacionalizadas). Para baixar para o nível de Maastricht, 60% do PIB, seria preciso amortizar uns cem mil milhões de euros. Cinco mil milhões durante 20 anos! Seriam seis meses de IRS só para reduzir dívida. Não dá.

Streetwarrior disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Streetwarrior disse...

E ainda dizem que não estamos em tempos de "Vacas gordas".
Quer dizer José, em tempos de austeridade e o amigo põe-se a remodelar a casa.
O que vem a seguir...mudar de frota automovél ?
Fassista!
lol

lusitânea disse...

O lema continua a ser "Tudo pela africanização,nada contra a africanização".O sobado de Lisboa vencerá!

Álvaro Queirós disse...

parabéns pelo novo template,,,, seria interessante também, colocar os botões de partilha.... por mim falo, já que muitas das vezes gosto de partilhar com outros o que por aqui escreve.

zazie disse...

Tem as hiperligações para a mensagem que é o mesmo que o dito botão da partilha.

Álvaro Queirós disse...

;-)

Floribundus disse...

orta fitas

A ver um debate na SIC entre uma excelente jornalista (Helena Garrido), imparcial, inteligente; uma pivot (Ana Lourenço) tendenciosa e não especialmente inteligente e um comentador cheio de clichés, político, tendencioso, populista, que se chama Pedro Adão e Silva. Ana Lourenço e Pedro Adão e Silva só dizem mal do Orçamento por dizer e a Helena Garrido que responde com a verdade simples: "precisamos de financiar um défice e não o podendo fazer nos mercados, só o podemos fazer reduzindo despesa ou aumentando receita. Falhando a redução de despesa, só se pode ir à receita". Elementar caro Watson. E acrescentou "Portugal ganhou um capital de credibilidade, que não se vê, mas que é importante, e serviu para baixar os juros da dívida e que se pode perder a qualquer momento com as manifestações e com as crises da coligação". E eu acrescento não se esqueçam que os juros são uma das componentes da despesa do Estado...