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segunda-feira, 3 de junho de 2013

A semântica revolucionária do 25 de Abril 74

Antes de 25 de Abril de 1974 a linguagem usada pelos diversos actores políticos e até a institucional percebia-se claramente, como se comprova pela leitura dos jornais da época.
Fosse que problema fosse relatado, a linguagem era acessível e compreensível pelo comum dos leitores e era imediatamente assimilada aos factos relatados, sem tergiversações semânticas.

Logo a seguir ao 25 de Abril, praticamente nesse fim de semana ( o 25 foi uma Quinta-Feira) a linguagem mediática modificou-se. Primeiro subtilmente e depois com laivos de radicalismo semiótico que nunca mais terminou de fazer estragos ao entendimento comum.
Não sei se terá sido tal coisa que modificou o comportamento dos portugueses perante a política, os políticos e os fenómenos que a democracia engendrou, nomeadamente as transformações revolucionárias do PREC, cuja linguagem pegou de estaca e ficou durante estas últimas décadas como a linguagem oficial de quem manda e do regime que temos.
Nunca vi tal coisa estudada fosse por quem fosse, mas valia a pena. Não sei é onde tal poderia ocorrer...

Como exemplo desta ideia ficam aqui três paginas de jornais. Uma delas, do Diário Popular de 31 de Dezembro de 1971, trata o assunto do Orçamento de Estado para o ano de 1972 e outros temas como o famigerado "proteccionismo" que os "antifassistas" encartados usam para denegrir o sistema económico então vigente.

As duas páginas seguintes têm a ver com o "dia seguinte" ao 25 de Abril de 74, porque a edição de 27 desse mês e ano, do Diário de Lisboa,   trazia dois documentos fundamentais para se entender a novilíngua revolucionária e as semântica do PREC que ainda não tinha começado, mas não esperou muito. Foi logo dali a dias...
O comunicado da CDE, a força política de oposição ao regime deposto ainda não mencionava a palavra "fascismo", se bem li. Cunhal chegaria dali a dias, vindo de Paris, de avião, à Portela, onde estava também Domingos Abrantes ( e a mulher), o crismador do "fassismo". Mário Soares, esse, também estava em Paris, mas veio de Sud-Expresso. O jornal anunciava mesmo  "Mário Soares amanhã em Lisboa", porque partiria "hoje, por via férrea, a caminho de Lisboa", o que foi anunciado por "um assistente de Mário Soares."
Seria interessante saber porque é que Soares veio de combóio...
Por outro lado, no programa do MFA, também publicado, nada de "fascismo". Será que até então nunca tinha existido e a sua aparição veio com aqueles dois?


3 comentários:

Floribundus disse...

ás 7h tomava banho e fazia simultaneamente a barba. tocou o telefona para me avisar que não havia julgamento onde Sampaio me ia acarear com testemunha de multinacional farmacêutica.

não levei meu filho à D. Pedro V.

fiquei a ouvir as notícias e notei um paleio diferente.

os primeiros jornais apresentavam palavras insólitas (não usamos sólitas): fascismo (abaixo), revolução, sistema pidesco, conotação política, democracia popular, cravos, salazarento, socialismo democrático

seguir-se-iam outras numa lista fastidiosa, mas curiosa.

as palavras acompanhavam a destruição do que tanto levara a construir.

do homem novo ficaria o esqueleto,
do rectângulo também

balde-de-cal disse...

do homem novo ficaria o esqueleto,
do rectângulo também.

lusitânea disse...

Depois da revolta das Caldas, motivada pelo tal decreto das novas oportunidades e que poderia ter sido emendado mas não foi os PS´s e os PCP´s pelos vistos trataram logo de se reunir e combinar como iria ser se a coisa rebentasse por dentro como veio a acontecer.Programa que foi executado apesar dos MFA´s terem um programa diferente.O apuramento de responsabilidades históricas é que ainda não foi feito.E Portugal continua encalhado nisso...