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sexta-feira, 21 de junho de 2013

O principal problema de Paulo Morais enquanto arauto da denúncia da corrupção

No jornal Sol de hoje aparecem estes dois artigos. Um refere o assunto "PPP´s " e o modo como é encarado pelo pessoal político responsável directo pelo fenómeno. Costa Pina, Paulo Campos e tutti quanti não se sentem minimamente responsáveis por um descalabro simples de entender e que não previram seria tão evidente: todo o prejuízo reverte para o português que paga impostos e todo o lucro para a empresa que negociou com esta gente, directamente e sem intermediários.
Como se pode ler ninguém assume responsabilidades, nem sequer políticas que como se sabe é o mesmo que nada. Responsabilidades políticas em Portugal significa resultados eleitorais só e apenas. O partido que esteve, perdendo eleições, fica com as contas saldadas com o país e os seus próceres libertos de outras responsabilidades porque nem sendo sequer eleitos não se sentem representantes de quem quer que seja e muito menos do povo que elege.Até achariam tal coisa esquisito e sem sentido. Estou a ver Teixeira dos Santos, de manhã a cofiar a barba ao espelho e a perguntar-se: espelho meu, diz lá, o que fiz eu? E o espelho a devolver-lhe um silêncio cúmplice de uma ausência de entendimento básico do problema.

Esta gente cuja fronha aí aparece é inimputável política e socialmente. Não há opróbrio que lhes chegue mesmo o que resulta de evidências que entram pelos olhos dentro.

Foram escolhidos pelo governante que foi eleito indirectamente e que os escolheu para o "seu" governo, por razões muitas vezes obscuras, mas sempre supostamente por serem competentes para o cargo que ocuparam e onde decidiram escolhendo pessoalmente colaboradores, sem restrições de orçamento, sem entraves que todos os demais portugueses sentem e sem obstáculos que não os do grupo a que pertencem. Tiveram toda a liberdade, como nenhum outro português tem, para escolher os mais competentes e melhores para a tarefa de que foram incumbidos.
Tiveram privilégios e benesses que mais nenhum português tem, mesmo os mais ricos do país, porque escolheram quem bem quiseram e sem entraves económicos porque lhes concederam cartões de crédito para gastar, automóvel com motorista para andar para onde e como quando quiseram. Sem controlo, sequer.
Escolheram estudos exteriores contratados com firmas de advogados, sem qualquer constrangimento orçamental, à medida do freguês e sem qualquer controlo específico do custo que pagaram pelos vistos sem problema de consciência orçamental.
Não satisfeitos com estes privilégios, esta gente cuja fronha aí está, fizeram o que fizeram, com um prejuízo gigantesco para o país, sabendo ou devendo saber o que estavam a fazer e o que tais decisões forçosamente provocariam. Nada nem ninguém os demoveu dos propósitos e nada nem ninguém, nem sequer os tribunais, mormente o de Contas relativamente ao qual deviam atenção e respeito, mereceu consideração sempre que não concordava com o que decidiram desse modo quase autocrático e sem controlo democrático, forçosamente.

Agora que os prejuízos gigantescos estão à vista de todos os portugueses e foram denunciados publicamente por uma comissão de inquérito que os ouviu,  não sentem minimamente a responsabilidade que têm para com o povo em nome do qual governaram.

O que dizer desta gente que se prepara para ocupar outros lugares de relevo na administração pública para eventualmente voltar a fazer o mesmo a todos os portugueses? Sim, o que dizer?
Que são corruptos? Isso é paleio deletério. Esta gente não é apenas corrupta no sentido moral do termo, é apenas abjecta politicamente. Pessoalmente, não sei porque serão até simpáticos no trato e bem educados nas maneiras. Porém, tal coisa é inútil e até perigosa por vezes, porque seduz os media que não distinguem quem nos arruinou...



As "swaps" representam um caso singular de desresponsabilização em cadeia. O que diz um ex-secretário de Estado - Juvenal Peneda- recentemente demitido por causa de um assunto parecido com o das PPPs ?
Que " houve pressões da banca- no caso Santander Totta-  para a empresa onde estava- STCP do Porto- fazer contratos "swap".

Foi isto que disse à edição de hoje do Diário de Notícias. O modo como o fez levanta a questão dos métodos e da essência da corrupção em Portugal.

É muito interessante ler o que diz porque se percebe como é que Paulo Morais não tem razão no que tem dito, porque falha um alvo que é muito preciso e discreto: o modo como os governantes decidem em Portugal e que suscita problemas de corrupção difusa.

Para análise deste fenómeno vejamos o caso singular desta crónica de um tal David Dinis, tornado comentador televisivo da anas lourenço desta nossa pobre tv e que aparece publicado igualmente no Sol de hoje.

David Dinis toma as dores de um deputado- Frasquilho do PSD- para relatar um fait-divers ocorrido no Parlamento: um desgravo dos pares ao continuado libelo acusatório de Paulo Morais sobre a promiscuidade entre os deputados e a banca, por exemplo e como exemplo concreto de corrupção, sem distinção de grau e qualidade.

Os colegas de ofício de Frasquilho, com o aplauso veemente de Dinis que assim o diz, louvaram a vítima das investidas de Morais porque este insinua que Frasquilho poderá ser corrupto devido a uma coincidência: Frasquilho é empregado de Ricardo Salgado ( como o Silva da UGT, aliás) e portanto sendo deputado, pertence à comissão que deveria fiscalizar a privatização da EDP que o BES de Ricardo Salgado assessorou no processo de privatização ( com contornos que ainda estão para se saber, mas saberão pela certa). Morais extrai daí a ilação que o caso configura um exemplo concreto de eventual corrupção na política.
Os deputados colegas de Frasquilho, no caso, Vieira da Silva, socialista; Fernando Medina, idem e até o bloquista Fazenda, asseguraram e manifestaram ao visado a sua solidariedade sem reservas, vituperando Paulo Morais por andar a lançar lama para estes impolutos.

O problema de Paulo Morais com este  tipo de casos é muito simples: se continuar a gritar "corrupção" a torto e direito conseguirá duas coisas: a primeira é gastar a palavra e desvalorizar o tema. A segunda  é confundir o tema, porque corrupção é termo polissémico.
O assunto da "corrupção dos políticos" é caso sério mas tem que se distinguir a corrupção criminal stricto sensu da corrupção moral e que manifestamente é este o caso.

Frasquilho não devia fazer parte de comissão alguma em que eventualmente pudesse colidir com conflitos de interesses. O caso de ser empregado de Salgado é muito relevante e deveria fazê-lo afastar de qualquer contacto com assuntos deste teor, mormente do assunto EDP, cujos contornos são nebulosos e cuja participação do BES carece de esclarecimento.
Porém não é admissível imputar a Frasquilho a prática de crimes, mormente de corrupção, apenas com estes elementos de facto, o que fatalmente pode acontecer sob a forma de suspeita como é o caso concreto a que estes indignados postiços se agarram, sem pudor algum. 

Já se torna possível no entanto apontar-lhe a falta de vergonha e apontar o caso como exemplificativo da promiscuidade entre a política e os negócios de alto coturno.

Quanto a David Dinis é mais um caso de assimilação do sistema. Típico. Penoso. Por tal já tem lugar assegurado na tv, a comentar.

Paulo Morais ao falar de corrupção de políticos, sem distinguir e apontar o caso particular de Frasquilho como exemplo, torna-se o alvo destes hipócritas do Parlamento, incluindo um improvável Fazenda.

Que lhe sirva de emenda.

12 comentários:

Vivendi disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Vivendi disse...

Até as criancinhas de um infantário são mais responsáveis que esta politicagem.

A passividade de muitos políticos permitiu a atividade de muita corrupção. O Estado não foi feito para promover negócios mas para servir os interesses do país.

A malta do Estado Novo entendia para que servia um Estado, coisa que muito cabrão da democracia ainda não entendeu ou não quer entender.

JC disse...

Entendem sim, Vivendi.
Sabem bem para que serve o Estado.

Sabem também, contudo, como aproveitar-se desse mesmo Estado para enriquecerem, a eles próprios e aos amigos.

E é isso que estes políticos têm vindo a fazer uns atrás dos outros. Uns de uma forma mais descarada e ruinosa para o próprio Estado e para os Portugueses que outros.

Mas, no fundo, todos se têm aproveitado do Poder para, de uma forma ou de outra, enriquecerem.

Os partidos políticos, em Portugal, servem para isso mesmo.

Vivendi disse...

Caro JC,

Infelizmente estes democráticos entendem o Estado de uma forma pejorativa.

O peso do estado na economia no tempo do Estado Novo nunca ultrapassou os 20% (mesmo com a guerra colonial), agora democraticamente temos de levar com um estado a pesar perto de 50% de toda a riqueza que se cria em Portugal para pagar desvarios, corrupções e direitos adquiridos.

António Barreto disse...

O caso das PPP,tem uma faceta sórdida de calculismo político; é que, o diferimento do pagamento das obras nestas condições, impede os governantes seguintes de fazerem obra, facilitando aos primeiros a recuperação do eleitorado.

Enfim, a democracia está cheia de ratoeiras e nem todos a merecem.

Mani Pulite disse...

A botilha é Salgada como as Pedras.Quem defende a Botilha trabalha para as Pedras e para o seu Pote.Para tal basta ler os colunistas do Diário Económico e analisar a nova lista do Costa para a CML.Quem sustitui o Salgado,quem é?

Floribundus disse...

com a continuação da subida dos juros da dívida pública iremos de 'iremos de vento em proa' ou 'marcha à ré'.

a história deste regime corrupto identifica-se com a do vinho e do ébrio
'ou acabo com ele ou ele acaba conjuntamente comigo'

o filme 'altri tempi' de 49 tinha um episódio onde 2 camponeses disputam uma bosta ainda fumegante.
'fim de festa'

Kaiser Soze disse...

Tenho mixed feelings quanto ao Paulo Morais: se, por um lado, acho que ele está coberto de razão em muito (ou quase tudo) que diz, por outro sinto urticária sempre que penso em justiceiros...

Quanto ao que ele disse do Frasquilho, acho que está coberto de razão e, do que ouvi da boca do Morais, não chamou o Frasquilho de Corrupto mas usou-o para ilustrar a corrupção Política-Negócios.
Compreendendo que o termo "Corrupção" é polissémico para quem tecnicamente o trata, para a generalidade, a palavra Corrupção está ligada desde à Corrupção em termos técnicos até ao "cheira mal".

No caso do Frasquilho, cheira mal.

Rui disse...

o óptimo é inimigo do bom José.

O Dr.Paulo Morais é das poucas pessoas que tem coragem de chamar a atenção para a corrupção no media tradicionais. Se o faz de forma perfeita? Obviamente que não, mas isso seria impossível. De qualquer forma não deixa de ser verdade o que diz, ainda que menos conveniente ou relevante, mas a verdade é que de fato o Frasquilho tem interesse cruzados e a sua isenção não é de todo garantida.

josé disse...

"Se o faz de forma perfeita? Obviamente que não, mas isso seria impossível. "

Não é impossível e até é fácil de fazer se se perceber a distinção e não se contribuir para a confusão como por vezes faz Paulo Morais.

De resto, não critico mais que isso.

josé disse...

E só o faço porque assim gasta cartuchos seguidos com pólvora seca.

Ha Nonimo disse...

Frasquilho, Salgado, EDP...corrupção?
Esteve mal o Paulo Morais...a palavra mais indicada seria "compadrio".