quinta-feira, 29 de outubro de 2020

A magistratura e os vip´s da bola

 A revista Sábado deu-se ao cuidado de elencar uma lista de vários personagens da política, gestão,   celebridades mediáticas, governantes centrais, regionais e autárquicos e magistrados mais alguns polícias que foram ver a bola por conta do Benfica há alguns anos. 

Repare-se: os casos elencados remontam a um período temporal que abrange a última década e há alguns notáveis que fizeram figuras tristes de pedinchice ao clube encarnado para assistir a jogos nos camarotes de luxo reservado aos vip´s. 

Aqui fica parte do artigo, assinado por Carlos Rodrigues Lima que passou umas boas horas a consultar ficheiros informáticos. 

Um dos elencados notáveis é o desembargador Antero Luís que foi dirigente dos serviços secretos do Estado e ajudante de governantes. A figura é triste, lendo o que se passou...mas há mais, muitos mais, inclusivé um antigo vice-PGR, Agostinho Homem ( no tempo de Pinto Monteiro, o "beirão honesto" da magistratura portuguesa...huum, quer dizer, no tempo de Souto Moura, porque o o que se escreve no link é feiquenius...).



 No que à magistratura diz respeito a vergonha deveria ser muita, agora, mas ao tempo nem seria caso para tal, por razões prosaicas que o jornalismo exposto não abarca mas são fáceis de explicar. 

No tempo em que o tal Agostinho Homem começou na magistratura os juízes e "delegados" eram uma classe que usufruía de algumas prerrogativas e privilégios estatutários e então justificados com razões de tomo político e legal. 

O titular de tais cargos de representação de altas funções no Estado, mormente de soberania, mas não só porque qualquer polícia, militar ou autoridade pública tinha igual direito, identificava-se através de um cartão com foto, tarja verde-rubra e designação da respectiva função. 

O cartão dos magistrados há trinta anos e mais configurava um verso com estes dizeres, atestados com selo branco e assinatura do chefe máximo do serviço respectivo, em função de estatutos de finais dos anos setenta ( 1978 para o MºPº e um ano antes, para os juízes): 


Aliás, ainda hoje é assim, mais ou menos mas agora muito menos que antes. 

O "direito à entrada livre nas casas e recintos de espectáculos e outras diversões" abrangia naturalmente nessa altura os campos da bola. Não para os camarotes mas para as bancadas da geral. 

A circunstância de tal privilégio se conceder apenas "quando em funções" foi muito discutida havendo até quem concluísse que afinal os magistrados estão sempre em funções, mormente os do MºPº... o que tranquilizava muitas consciências confrontadas com a evidente aldrabice. 

Servia também de argumento último para os porteiros de casas de espectáculos engolirem em seco e abrirem as portas ao portador. 

Há umas décadas atrás, salvo o erro no "Tivoli" do Porto houve um espectáculo desses, musical e salvo o erro com Sérgio Godinho. Alguns magistrados locais lá foram, puxando do cartão e mediante a exibição exigiram entrada franca. 

O porteiro, um marreta qualquer, entendeu ir além do que um colega de um hospital do Algarve fez ao então primeiro-ministro Cavaco e decidiu logo ali barrar a entrada a tais perus emplumados pelo cartão com tarja verde-rubra. 

Gerou-se discussão, originou-se estudo acerca da vexata quaestio, pela PGR e determinou-se que era assim mesmo: estavam sempre em funções, os pobres detentores de tais cartões...e por isso tinham o direito de entrar sem pagar. 

Tal acontecimento singular ocorreu ainda numa época em que os magistrados se contavam em poucas centenas e muitos deles estendiam as prerrogativas a viagens de borla nos transportes públicos, aliás ainda nacionalizados em boa parte. 

Com o crescimento da classe, para a ordem dos milhares e o uso alargado das prerrogativas apareceram também cada vez mais porteiros marretas e revisores escrupulosos que pediam credenciais para além do cartão. E com o tempo os magistrados perceberam que tinha passado o tempo dos privilégios alargados e de aceitação tácita. 

De há muito tempo a esta parte que nenhum magistrado se atreve a puxar de cartão de identificação para ver de borla um espectáculo musical, de cinema ou outra natureza, com antes acontecia por vezes. E muito menos se atrevem a entrar num combóio sem o bilhete passado no guichet, mesmo que pago pelo erário público. 

Não obstante, houve um reduto que sobrou destes pequenos perks: o do futebol. 

E por isso o jornalista Carlos Lima fez a lista e escreveu o artigo. 

Não havia necessidade, como dizia o outro...


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