quarta-feira, 21 de outubro de 2020

A mensagem de Luís Neves, mais um pangloss de circunstância

 CM de hoje: faltam "meios" à PJ mas Portugal, afinal não é país de corruptos.


O director da PJ, Luís Neves, polícia desde sempre, disse ontem que afinal "o país não é corrupto, as instituições não são corruptas". Mas..."sim, há corruptos"

Quer dizer, parafraseando o mítico dr. Pangloss, "tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos possíveis",  e por isso "devemos cuidar do nosso jardim.". Quer dizer, ainda, isto vai andando mas queremos mais meios. 

A esquecida Cândida de Almeida, em tempos que já lá vão mas andam por aqui outra vez,  pela mão das mesmas pessoas ou dos seus herdeiros naturais, disse coisa parecida, em 2012

«o nosso país não é um país corrupto, os nossos políticos não são políticos corruptos, os nossos dirigentes não são dirigentes corruptos. Portugal não é um país corrupto. Existe corrupção obviamente, mas rejeito qualquer afirmação simplista e generalizada, de que o país está completamente alheado dos direitos, de um comportamento ético (…) de que é um país de corruptos».

Desde então soubemos que houve o que houve na PT, na EDP, no BES/GES,  no caso José Sócrates, nos Vistos Gold, na Octapharma e noutros que agora nem me ocorrem, como o caso Lex. 

Apesar disto, Luís pangloss Neves afina pelo mesmo trinado da personagem Cândida, que era masculino no caso de Voltaire. 

Em que mundo judiciário viverá Luís Neves? No dos processos que se arrastam por falta de meios e por isso inconclusos e por isso mesmo, com todos os envolvidos presumidos inocentes e assim isentos de máculas corruptivas e culpas formadas transitadas em julgado? Ou no mundo real, subterrâneo, em que a corrupção vera espelha a realidade dos sistemas de contactos permanentes em que se trocam favores no Estado por prebendas ou mesmo depósitos offshore?

É pergunta à qual Luís Neves deve responder no íntimo da sua consciência profissional para não fazer estas figuras de circunstância, necessariamente tristes.

Portugal não é corrupto porque também não é, sei lá, atrasado. Mas tem atrasos significativos relativamente aos demais europeus, por exemplo. Está na cauda da Europa, ouve dizer-se e muito por causa da corrupção larvar, imanente a um sistema apodrecido de exercício de poder político. 

Portugal não tem instituições corruptas mas também não são transparentes e nem dá para perceber claramente se algumas serão ou não corruptas. Veja-se o caso recente da Relação de Lisboa.

Se determinadas instituições forem chefiadas por gente que obedece a interesses particulares ou politicamente relevantes para determinadas pessoas, deve concluir-se que tais instituições são mesmo corruptas, independentemente do que de lá sai. Uma instituição corrupta é aquela que devendo ser isenta, imparcial e independente não consegue tais desideratos por vontade própria de quem lá está. 

Só por isso e para não ir mais longe, Luís Neves perdeu uma bela ocasião de se remeter àquilo que em princípio sabe fazer: de polícia. Escusa de fazer de político porque não tem muito jeito para tal. 

Outro dos que por vezes arrisca fazer as mesmas figuras é o presidente do sindicato dos juízes que tem coluna no Público, geralmente às quartas-feiras, hoje portanto. 

Parece ter descoberto a pólvora no combate à corrupção, no artigo de hoje ( i´m sorry, é mais forte que eu, este disparo rápido, o que não é dizer pouco):


Apliquemos este método ao caso Sócrates ou mesmo ao caso Rangel...e veremos a pólvora a estourar nas mãos, seca e sem efeito pirotécnico algum. 

Se os amigos todos, incluindo os de peniche, também fossem obrigados a declararem rendimentos acompanhados do certificado de origem...

Apliquemos ainda o método descoberto aos casos de contratos públicos ganhos com o mérito genuíno dos sistemas de contactos avulsos e próprios das influências correntes e veremos a pólvora molhada e inútil.

Enfim. Esta coisa de ver o mundo a preto e branco tem destas nuances. Mas salvam-se as aparências com uma lei que se destina a apanhar incautos. Ou alguém sem amigos. 

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A delinquência no poder