sexta-feira, 19 de novembro de 2010

A hipocrisia de um anti-zorro

Segundo o semanário Sol, de hoje, o Secretário de Estado da Energia, Carlos Zorrinho, na qualidade de "cidadão" e no seu blog, "está indignado com a PGR por causa do site que criou para receber denúncias, identificadas ou anónimas, de actos de corrupção".

Vai ler-se a fundamentação da indignação e depara-se com a habitual jeremíade sobre o anonimato cobarde que fomenta o abuso. Zorrinho considera um "perigo que a capa do anonimato pode trazer para as acusações destemperadas e para os mais elaborados delírios" e para " a destruição do bom nome de cidadãos inocentes, investigados por denúncias cobardes."

Nunca li uma linha de Zorrinho preocupado com a corrupção larvar, em crisálida ou em borboleta de asa volante no ambiente governamental. O caso Face Oculta, para Zorrinho, deve ser uma espécie de zoo de espécies em vias de extinção e talvez seja por isso que Zorrinho acha que "uma sociedade fundada no anonimato seja uma sociedade ainda mais fértil para o triunfo do medo, do cinzentismo e da cobardia".

Cinzentismo à parte, devemos todos reconhecer o extraordinário colorido dos esquemas de corrupção transversais na sociedade em que o Estado participa, e onde assentou arraiais há longos e longos anos de poder democrático.

Quem são as vítimas desta corrupção do favor, da cunha descarada, do nepotismo impante e do dinheiro por baixo das mesas, em pastas de dinheiro vivo e em comissões através de transferências bancárias para off-shores, em anonimato recatado, como convém? O povo que vota e apenas tem de seu esse instrumento essencial da democracia. As vítimas são os proletários da democracia.

Zorrinho é um aristocrata do sistema, um dos mais cotados boys desta coutada em que se transformou o regime.
O extraordinário Plano Tecnológico que põe americanos e japoneses de boca aberta de admiração, foi também da sua responsabilidade. Um Plano de importância fulcral que incluiu os afamados e prestigiadíssimos Magalhães, para as criancinhas brincarem aos computadores nas aulas.
O Plano representa milhões de euros deitados borda fora aos interessados empresariais que os agarraram com mais pressa do que um gato a bofe. Com adjudicações directas e a suscitar sérias reservas e dúvidas do tribunal de Contas.
Quanto à paternidade da ideia fantástica do Magalhães, o professor universitário Zorrinho não sabe quem foi. É um caso sério de anonimato e portanto de uma cobardia inominável: ninguém sabe que foi o autor da ideia fulminante sobre o computador-milagre que custou aos Estado centenas de milhões de euros que contribuíram para um défice ainda maior que o orçamental: o da moralidade e da transparência das contas do Estado.

É por isso extraordinário que Zorrinho se apresente como defensor da cara aberta e da transparência nas denúncias, em contraste com o atitude de zorro que o site da PGR denota.
E nem a circunstância de a investigação actual permitir já denúncias anónimas sempre que fundamentadas, o demove da ideia-chave: anomimato é igual a cobardia e fomentador do cinzentismo e do medo. Suspeita-se com esta atitude que aquilo que Zorrinho pretende seja apenas e uma só coisa: que não haja investigações a estas suspeitas sobre a gestão de dinheiros públicos. Nenhuma, de preferência e enquanto estiverem no poder. Depois disso, veremos um, dois, dezenas de Zorrinhos no parlamento, nas tv´s e jornais, a clamar contra a corrupção no Estado de um governo que já não seja o deles.

A propósito: de quem foi a ideia do Magalhães? É anónima?

1 comentário:

Mani Pulite disse...

ZORROS DE BURRO NÃO CHEGAM AO CÉU.SÓ CHEGAM AO COITO.