sábado, 5 de janeiro de 2013

O "jornal-escritório" fez 40 anos

O Expresso faz hoje 40 anos e celebra a efeméride com um número que vale a pena comprar e coleccionar. "Collector´s item" como diriam os anglo-americanos particularmente pelas razões que explicam o sucesso de um jornal que se tornou cada vez mais medíocre até atingir o actual zénite da irrelevância da "referência". Um jornal que acolhe um Artur Baptista da Silva e cujos directores não se demitem em consequência do garruço que este lhes assentou, até aos pés, é um jornal que perdeu a credibilidade. Já tinham experimentado em várias ocasiões o barrete de campino do jornalismo tipo para quem é bacalhau basta, mas desta vez foi o de estopa e tomentos.

O dono do jornal festeja com alguns foguetes retóricos na página de opinião e diz a certa altura que " A própria ideia de lançar em 1973, com as circunstâncias políticas vigentes, um semanário cujo conceito era completamente novo, foi um enorme risco."
E explica como fundou o semanário: "criámos um conceito de organização de empresa jornalística que também não era praticado: o jornal-escritório. Não tínhamos tipografia, nem impressão próprias, só um 2º andar direito. no 37 da rua Duque de Palmela."
Balsemão diz depois que em 1974 se não tivesse chegado o 25 de Abril tinha fechado as portas. Tudo por causa da Censura que o apoquentava cada vez mais.
Há uns anos ( Abril de 2009) o mesmo jornal publicou um livro da autoria de José Pedro Castanheira sobre "O que a Censura cortou" ao jornal e logo no primeiro número houve seis artigos totalmente cortados. Um deles relativo à notícia da ocupação da capela do Rato por "fiéis".  Lendo esse artigo fica a saber-se que relatava os factos ocorridos então, com a prisão de  cerca de 70 pessoas pelas forças de de choque da PSP, na noite de S. Silvestre", desenvolvendo depois a notícia sobre o que lhes sucedeu. Escreve o autor que nesse primeiro número foram cortados "quase trinta textos". No segundo número continuavam os cortes da Censura, sendo o mais relevante um artigo pequenito relativo "às caçadas onde os grandes se encontram". Os tais grandes ( um deles, Queirós Pereira)  eram aqueles com quem Balsemão agora acompanha...
No número de 27 de Janeiro é um artigo sobre a biografia de Amílcar Cabral, para todos os efeitos um terroristas que nos combatia no Ultramar. Também foi proibida a referência a um lançamento discográfico em reedição, a Batalha de Alcácer Quibir, com poemas de Manuel Alegre, exilado na Argélia.
O nº5, tinham sido cortados sete cartoons do artista Sam que eram para serem publicados na página oito no primeiro caderno.

Ora o que traz a página oito do Expresso de 3 de Fevereiro de 1973? Um artigo de página de Rogério Martins, um dos "tecnocratas" do governo de Marcelo Caetano e que foi depois figura destacada no pós 25 de Abril. Sem sombra de Censura e sobre " A Europa em Longes do Sol".


Enfim, o relato dos cortes da Censura ao jornal cingem-se essencialmente a matérias de âmbito político e politiquice de relevo e sensibilidade social que o Estado Social de Caetano não permitia fossem divulgadas publicamente. Uma censura perfeitamente compreendida pelos jornalistas de então que arriscavam nos seus escritos o que sabiam de antemão seria para cortar. Tentavam a sua sorte e por vezes alcançavam o desiderato.
Obviamente isto não torna essa Censura aceitável, sem mais, mas permite compreender o contexto em que a mesma ocorria, as regras que a determinavam e a legalidade vigente à época.
Até parece que os jornalistas de então não sabiam perfeitamente disso...porque hoje em dia a censura é interiorizada e ninguém duvida que se exerce diária ou semanalmente nos jornais. É uma censura menos rigorosa em termos objectivos mas mais insidiosa em termos subjectivos.
Os jornalistas, agora como então, não podem escrever o que bem entendem, como afirma neste número do Expresso o seu antigo director Henrique Monteiro, um maçónico assumido e só por isso condicionado. Portanto, Henrique Monteiro, o indicador do actual director do jornal, o inenarrável Ricardo Costa,  não tem liberdade para dizer o que pensa. Tomara que a tivesse para pensar o que diz...

Para além disso, quem lê Balsemão a foguetear encómios ao seu jornal e empresa vicejante nos media portugueses, mas em crise escondida, com empréstimos à solta, neste ambiente de plena aurea mediocritas, julga que o jornal foi uma espécie de lança em África num Portugal atrasado e miserável.

Na verdade não foi. O semanário que, segundo julgo, comprei logo no  primeiro número ( mas que não encontro guardado) era um jornal eminentemente político, da politiquice caseira, como é costume em Portugal e  da qual o jornal nunca se demarcou.
Os assuntos dos primeiros números assentavam na realidade portuguesa vivida do lado da oposição ao regime, mesmo a oposição liberal, à qual o próprio Marcelo Caetano não era estranho e provavelmente nutria alguma simpatia.
Porém, o regime era um complexo de sensibilidades, algumas de extrema-direita, como agora se diria e que efectivamente tinham poder de influência, através do presidente da República, incluindo o poder económico que se lhe associava, como associou depois à Esquerda, logo a seguir ao 25 de Abril. O Capital não tem pátria e quanto a política prefere a que o deixa sossegado.
O Expresso nunca foi um jornal culturalmente marcante. Nunca foi um jornal inovador para além da inovação existente, com excepção de um ou outra número numa fase em que Henrique Cayatte desenhou alguma coisa. Nunca foi um jornal com profundidade de análise como havia outros semanários e nunca foi um jornal com ambições para além da tal aurea mediocritas.
O Expresso, como julgo já escreveu sobre isso Vasco Pulido Valente, foi sempre um espelho da sociedade portuguesa mais mediana. Actualmente, com o inenarrável director, é mais um espelho da mediocridade que não o deixa deixará ver para além do umbigo da troika e dos conflitos que a mesma traz consigo.

Assim, quando o jornal surgiu, em Janeiro de 1973, já havia outros órgãos de informação que serviam muito bem e eram muito melhores que o Expresso no relato, crónica, fotografia, notícias, artigos de fundo e de forma gráfica interessante.
Por exemplo, no campo da informação geral e entretenimento, em que o Expresso nunca se destacou, e em 1973 era mesmo aflitivo de mediocridade, havia:

A Vida Mundial, cujos artigos sobre a política nacional eram relativamente conformistas, mas com entrevistas de fundo como esta, com o escritor José Gomes Ferreira. 


 O Observador que em 1973 já ia no seu centésimo e tal número semanal ( começou em 1971 e com um conceito, esse sim inovador) , sempre com interesse e com uma profundidade de análise política muito superior ao Expresso e que não fazia oposição por oposição ao regime de Caetano e lidava muito melhor com os tais tecnocratas. O Observador era uma revista que o Expresso nunca conseguiu ser. Era uma revista que se destacava pela positiva na análise social, fazendo uma sociologia de Portugal que o Expresso nem cheirava de perto ou de longe, através de artigos como este que aqui se mostra pela capa, sobre a investigação e com uma entrevista de fundo a João Salgueiro ( sim, esse mesmo) então recém empossado presidente da Junta Nacional de Investigação Científica.
Quem quiser saber com rigor o que era o Portugal de 1973 fica muito melhor informado ao ler o Observador do que o Expresso e disso não tenho qualquer dúvida e demonstrarei perante seja quem for, com provas à mostra.

Na informação geral, à semelhança do que ocorria nos países europeus e já para não falar dos EUA, também tínhamos as nossas Life, Look e Paris Match ou Stern. Estas:



















No campo de entretenimento popular havia também oferta que o Expresso não alcançava no seu suplemento Revista, um tanto ou quanto pindérico. Até havia uma Plateia e uma Crónica Feminina.


Ou para quem sendo de esquerda soft queria um tipo de humor mais britânico e evoluído, chegando a patamares que o Expresso nunca alcançou, havia um suplemento de um jornal diário, o Diário de Lisboa. Este:



Portanto, se o Expresso acabasse não era por causa da Censura. Era por causa da mediocridade e de ser um "jornal-escritório", como Balsemão diz. Tal como hoje, mas os tempos, agora,  são mais propícios à pinderiquice. Tanto que até arranjaram um director inenarrável.

8 comentários:

Rui disse...

josé, para quando um post sobre o inquerito ao segredo de justiça? Gostava de saber a sua opinião sobre isso! Feliz 2013.
Rui

josé disse...

Humm...já pensei nisso. Ando a pensar...ahahah!

António Bettencourt disse...

O seu artigo está de certo modo incompleto. Falta explicar por que razão o Expresso sobreviveu e todas as outras publicações, em princípio com mais qualidade que este, não chegaram até hoje. Algumas penso que até morreram pouco tempo depois do 25 de Abril.

Não estou a contestar a sua visão dos factos, com a qual concordo substancialmente, mas seria interessante perceber os motivos que fizeram prevalecer o Expresso, que até desconfio quais foram.

Floribundus disse...

não li os 1ºs ns porque felizmente não estava. ao regressar, como ia a reuniões ao hotel fronteiro apercebi-me da sua existência ao ver sair MRS.

creio que sobreviveu porque a sua mediocridade atingia maior nº de leitores e porque parecia bem ler esta porcaria.
também servia vários srs conforme as flutuações do mercado

gostava particularmente do picar da mosca.

depois do 25.iv entrei na luta pela sobrevivência e acabaram-se as leituras dos jornais.
por vezes lia umas páginas em diagonal.

o prec fez-me perder demasiado tempo. todos queriam passar por cima de mim e eu sempre a 'fazer cangocha'

o pcp está falido e a despedir funcionários
PQP

josé disse...

António Bettencourt:

Explica-se por si mesmo esse fenómeno: a paulatina cretinização da sociedade portuguesa.

Quem começou com os reality shows? Certo, não foi a SIC. Mas apanhou logo o comboio e na realidade o importante era o ar do tempo.

Não foi o Expresso que fez o ar do tempo, porque se limitou a apanhar nessa aragem.

Daí a tal mediocridade, traduzina na aurea mediocritas. O bom é inimigo do óptimo mas para essa gente o seu óptimo é este.

Floribundus disse...

entre 76 e 79 pertenci a comissão administrativa dum organismo corporativo.

nessa qualidade fui entrvistado sobre sobre medicmentos. informaram-me que esta nunca saíu por desagradar à indústria estrangeira e à Ordem dos Médicos.

a situação piorou. a estratégia foi deliniada na 2ª metade da décad de 60.
rip

Anónimo disse...

Gostava de ler a História de Portugal dos últimos 40 anos do Rui Ramos, que fez para o Expresso de hoje. Esse artigo tem qualidade, caro José?

josé disse...

Li por alto e de modo a não me ser possível ainda dar uma opinião.

No entanto, Rui Ramos tem medo da Esquerda e já deixou de escrever como escrevia há uns anos.
Se escrever assim é afastado dos media, mormente do Expresso.

Assim, o jornal só o convidou porque Rui Ramos se domesticou...

Fillon Sócrates