O Correio da Manhã enganou-se numa pretensa revelação explosiva: escreveu na passada sexta-feira, na primeira página que um administrador do grupo Lena tinha dito no processo Marquês que a empresa subornara José Sócrates.
Os jornalistas Eduardo Dâmaso e Tânia Laranjo leram mal os despachos dos procuradores no processo e tomaram a nuvem por juno, afiançando que o tal administrador tinha confessado aquilo que afinal resulta apenas da prova indirecta recolhida. Mas resulta, porque afinal a questão principal é mesmo essa: o dinheiro que passou pelo arguido Carlos Santos Silva, via Grupo Lena será efectivamente de José Sócrates ou assim deve ser tido como tal. Foi isso que indiciariamente se disse já no processe e é isso que constitui o núcleo fundamental da equação que o levará eventualmente a julgamento.
Mas não é por isso que se deve afirmar o que o Correio da Manhã afirmou porque factualmente é um erro.
O erro é relativamente grave porque dá azo que o tal administrador e o grupo Lena se vitimizem mais uma vez, aproveitando o embalo da inocência presumida e continuar a mistificar a verdade iniludível. Ana Gomes, do PS, chama hoje "efabulações" o que José Sócrates anda a fazer relativamente ao assunto dos dinheiros. Está tudo dito.
O problema do jornal é a necessidade aditiva de mostrar primeiras páginas apelativas. Para isso esgotam adjectivos corriqueiros e colocam em risco a sobriedade de notícias que deveriam ser melhor ponderadas, como essa e mesmo a de hoje.
O título da primeira página é outra habilidade que denota que o seu director não aprendeu nada com o caso e continua recalcitrante nestas palermices que não sei a quem se destinam. A mentecaptos? O jornal acha que o seu público é apenas de mentecaptos e voyeurs?
É pena. Não era preciso tanto, porque o jornal cumpre um papel que nenhum outro actualmente o faz na sociedade portuguesa: ocupar-se de verdades ocultas em certos meios e entidades, como é o caso de José Sócrates.
O jornal, hoje, dá assim o corpo ao manifesto, com assinatura dos artigos por outros que não aqueles dois jornalistas:
Assim, segundo se lê, a promessa da primeira página - CM revela interrogatório polémico- é apenas cumprida em parte e não é revelado todo o interrogatório mas apenas partes do mesmo, principalmente a descrição dos factos ao arguido, em circunstâncias que nem estão esclarecidas devidamente.
Mais uma vez, perderam uma oportunidade de reganharem a confiança de leitores que não se guiam apenas pelo sensacionalismo bacoco de certas cachas.
Lamentável, lamentável. Tanto mais que o jornal é dos que ainda se podem ler sobre estes assuntos.