sexta-feira, março 13, 2020

A ideologia do Livre e do Bloco, em Público

Observador, Jaime Nogueira Pinto:


A Escola de Frankfurt e Lukács

A actual Correcção Política tem as suas raízes remotas nos autores da Escola de Frankfurt que, nos anos vinte do século passado, procuravam uma síntese de Marx e Freud, ligando sociedade capitalista e repressão sexual. A sua base foi o Instituto de Pesquisa Social da Universidade de Frankfurt, fundado por Felix Weil em 1923, e que teve colaboradores como Georg Lukács, Wilhelm Reich e Theodor Adorno.

Deste núcleo inicial, Lukács é talvez o personagem mais interessante. Nascido numa família de banqueiros judeus, nobilitada pelos Habsburgo, Lukács sempre mostrou uma grande pluralidade de interesses – filosóficos, literários, económicos e políticos. E foi como activista político que fundou o Sonntagskreis (Círculo do Domingo), uma tertúlia artística e cultural onde aparecem figuras como Bela Bartok, Arnold Hauser e Karl Mannheim. Lukács converteu-se ao marxismo e aderiu ao Partido Comunista Húngaro de Bela Kuhn, de que foi Ministro da Educação.

Depois do fracasso de Bela Kuhn, Lukács escapou para Viena onde conviveu com Viktor Serge e Antonio Gramsci. Manteve-se na ala esquerda do Partido, escrevendo trabalhos sobre Lenine e Bukharine, mas as suas teses não mereceram a aprovação da hierarquia soviética e foi condenado pelos órgãos responsáveis da ortodoxia cultural estalinista. Nos anos trinta e quarenta passou alguns maus bocados na “pátria dos trabalhadores”.

Com o fim da guerra, em 1945, voltou à Hungria comunista e foi um intelectual influente e particularmente activo nas depurações de intelectuais não-alinhados. Mas, surpreendentemente, em mais um dos seus volte-face, integrou o governo revolucionário anti-soviético de Imre Nagy durante a revolta de 1956, sendo depois deportado para a Roménia. Regressou à Hungria, onde viria a morrer com tranquilidade, ao contrário de Nagy, que seria fuzilado.

Lukács foi talvez o primeiro pensador marxista a pôr em questão a mecânica socioeconómica como motor da História, e até a tese “catastrófica” de Marx – isto é, a ideia de que, no conflito de classes nascido da industrialização europeia, o capitalismo, com a sua impiedosa concentração de riqueza, levaria a um desequilíbrio social conducente a um levantamento maciço dos proletários contra os burgueses. Deste levantamento resultaria a queda dos governos burgueses e a ditadura do proletariado. Passada esta fase, viria a utopia libertadora, o tempo em que “o lobo viveria com o cordeiro” e que nem Governo, nem Estado, nem Estados seriam necessários.

Mas esta escatologia materialista, cópia de algumas utopias milenaristas religiosas, fracassou: na Grande Guerra, em 1914, os operários e os partidos socialistas alinharam com os governos nacionais. E, entretanto, tinham surgido as classes médias, que punham em causa o dualismo Burguesia-Proletariado, Ricos e Pobres. Afinal, havia coisas para além das estruturas económicas e suas consequências sociais e Lukács é um dos primeiros que o entende. Também se dá conta da persistência de uma “cultura ocidental” impregnada pelo Cristianismo, mesmo nas suas versões mais laicas e republicanas, e indissociável da moral sexual, do patriotismo, do conceito de família e de certos códigos relacionais. Por isso, quando foi Ministro da Cultura do efémero governo de Bela Kuhn, criou uma disciplina de educação sexual, destinada a desconstruir as versões tradicionais das relações entre homens e mulheres.

Apesar das críticas e condenações de que Lukács foi objecto na Internacional Comunista, a União Soviética estalinista também iniciou uma campanha de “Correcção Política”, entendida como o encorajamento de uma série de palavras, expressões e comportamentos que estivesse de acordo com a teoria do Partido Comunista e com a sua visão da História e da sociedade, e a interdicção de palavras, actos ou omissões que pecassem contra o Partido ou contra a ortodoxia comunista. O pendor eufemístico e de temerosa auto e hetero censura da actual Correcção Política perante um corpo doutrinário intocável é também tributário deste mundo de “camaradas”, em que, na expressão, reinavam a igualdade (ainda que, na realidade, alguns camaradas “fossem mais iguais do que outros”) e a liberdade (ainda que toda a liberdade que não fosse “ao encontro do que o Partido queria” tivesse de enfrentar um persuasivo processo “disciplinador”).
Gramsci: um comunista heterodoxo

António Gramsci foi também um revisionista crítico da ortodoxia marxista que, não deixando nunca de admirar Marx, privilegiou o voluntarismo leninista e o papel da vontade humana dos líderes e dos militantes. Em “La rivoluzione contro Il Capitale”, um texto que publicou no Avanti em 1917, é a capacidade de saltar etapas perante uma janela de oportunidade, galgando os “factores objectivos” da ortodoxia dialéctica marxista, que admira em Lenine, concluindo que a vontade dos homens é mais importante que os “factos económicos brutos”. Para ele, as estruturas económicas estão sujeitas à acção transformadora e dinamizadora de homens que valem especialmente “enquanto são espírito, enquanto sofrem, compreendem, disfrutam, querem, afirmam ou negam.”

Esta visão idealista, voluntarista e heterodoxa do marxismo, leva Gramsci a apoiar a revolução soviética e a ver em Lenine “o maior teórico moderno da filosofia da praxis”.

Mas a crítica gramsciana ao marxismo ortodoxo nasce também do fracasso do assalto ao Estado em Itália – que acabaria por ser feito com sucesso, não pelos comunistas, mas pelos fascistas de Mussolini.

É a partir daqui que Gramsci revê a importância da cultura dominante na sociedade e na determinação do êxito da revolução. Enquanto no Oriente europeu – na Rússia – o Estado era tudo, no Ocidente a chave do sucesso da revolução era a sociedade, a sociedade civil, e a hegemonia cultural nessa sociedade civil de um conjunto de organismos ditos privados (sindicatos, partidos políticos, igrejas, editoras, jornais) comandados por uma “direcção intelectual e moral” dominante. Continuando a rever criticamente Marx, Gramsci acrescenta que a “superestrutura” ideológica da sociedade civil e os seus intérpretes, os “intelectuais orgânicos”, eram decisivos para mudar e comandar a vontade colectiva. Assim, não seria a mudança na infra-estrutura económica das relações de produção que comandaria a superestrutura moral ou ideológica da sociedade mas a mudança das mentalidades, dos conceitos, dos valores.

Para Gramsci, os factores que na “civilização ocidental” impediam uma revolução comunista eram: o Cristianismo; a Autoridade; a Responsabilidade Pessoal; a Hereditariedade; a Lei; a Verdade; a Família; o Patriotismo; a Unidade Nacional; a Comunidade; o Conservadorismo; a Linguagem; a Tradição. Com um espírito agudo, sempre crítico, Gramsci via no fenómeno do fascismo um modelo de idealismo voluntarista semelhante ao socialista mas que se diferenciava dele por procurar enquadrar esses valores tradicionais.

As “heresias” de Gramsci, que o Secretário-Geral do PCI, Togliatti, haveria de condenar, foram um importante contributo para a legitimação e valorização da revolução das mentalidades como factor decisivo para mudar a realidade; um factor talvez até mais decisivo do que a conquista do Estado e dos seus poderes materiais de coacção e repressão.

Esta linha crítica ia evoluir e tornar-se mais consciente depois da queda dos socialismos reais, com o fim da União Soviética em 1991 e com a revolução pro-capitalista de Deng Xiao Ping na República Popular da China. Foi quando ganharam força decisiva as várias teorias dos chamados “marxismos imaginários”, que, na sequência da mensagem libertária do Maio de 68, pretendiam libertar a utopia do autor de O Capital dos “socialismos reais” estalinista e maoista.

As teses da hegemonia cultural de Gramsci voltaram então à ordem do dia; e Gramsci tornou-se leitura obrigatória, com a proposta da Correcção Política, então já definida pelos seus opositores como “intolerância disfarçada de tolerância” ou como “um totalitarismo que elimina qualquer possibilidade de resistência cultural ao progressismo.”

Estes marxistas heréticos eram heréticos não tanto quanto aos fins mas mais quanto aos meios de converter as sociedades existentes em sociedades conformes com as utopias do Progresso, que já vinham da ala esquerda do iluminismo francês, dos chamados “profetas de Paris” e do próprio Karl Marx. A Razão, a Ciência, a História, todas com letra maiúscula, estavam do lado dessa marcha para o Progresso, para o Socialismo, para o que antes fora só a Utopia. E para acelerar o passo, tinha de se domar e transformar a realidade; e, por fim, a própria natureza humana, através da mudança cultural.

Mas se na ortodoxia soviética, leninista ou jadnovista, as relações materiais de produção ditavam a estrutura social das classes e marcavam as bases do pensamento e das instituições; e se nos “socialismos reais”, onde o terror e a repressão física e intelectual eram a regra, os intelectuais funcionavam como intelectuais orgânicos, como sacerdotes e guardiães de uma ortodoxia ditada pela retórica dos chefes ou guias políticos, na crítica gramsciana Maquiavel parecia vir substituir Marx e Lenine.

E Maquiavel, com a sua finesse florentina, entendia que dominar o pensamento, a cabeça e a linguagem era o modo mais eficaz e duradouro de transformação social; talvez mais lento e mais indirecto do que a força, mas mais eficaz e duradouro. É também disso que nos falam as reflexões do autor de O Príncipe sobre “os leões e as raposas”, as alternativas da força e da astúcia.

A transição teórico-prática: Marcuse

Um dos marxistas da Escola de Frankfurt que emigrou para os Estados Unidos depois da subida de Hitler ao poder, em 1933, foi Herbert Marcuse. O Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt tinha-se instalado em Nova Iorque, apoiado pela Universidade de Columbia, e ao contrário da maioria dos seus colegas emigrados, que regressaria à Alemanha depois da guerra, Marcuse acabaria por ficar nos EUA. Ele que nos anos 30 insistira já na necessidade de “libertação sexual”, nos anos 50 reformularia a teoria da revolução: esta não viria da classe operária (a classe operária americana, além de estar a passar a classe média era patriota, tinha valores conservadores e era impermeável ao comunismo) mas de uma coligação de minorias perseguidas, marginalizadas e esclarecidas: “os negros, as mulheres feministas, os homossexuais e os estudantes”.

Nesta linha de pensamento, é elucidativa a opinião de um outro marxista de Frankfurt, Erich Fromm, um dos progenitores da ideologia de género, para quem o “operário americano”, sendo “um dos mais conservadores ou até reaccionários elementos da sociedade americana”, tendia a “parar o progresso”. Daqui e da oposição destes grupos minoritários, nos anos 60, à guerra do Vietname, nasceria a Nova Esquerda, aberta a todas as correntes de esquerda radical, mas recomendando intolerância absoluta em relação às forças de direita. Contra a direita, e dada a dificuldade de a reprimir por via democrática, tudo era válido.

Foi destes pensadores que derivou a moderna Correcção Política que, fundamentalmente, propõe a substituição da versão “económica” do marxismo por uma versão “cultural”. Perante o fracasso, nas sociedades ocidentais, de uma revolta do tipo bolchevique – que, na reacção e pelos mesmos métodos violentos, levara às vitórias do fascismo em Itália (1922) e do nacional-socialismo na Alemanha (1933), bem como à derrota das forças de esquerda na Guerra Civil de Espanha – surgiu uma teoria inteiramente nova da sociedade e da transformação social. 

A América e a nova Correcção Política

A Correcção Política segue velhos temas da esquerda radical, como a superioridade (se não o monopólio) moral e intelectual das esquerdas e o internacionalismo, que agora encontra na globalização económica e no grande capital mundialista aliados tácitos e tácticos. É a partir desta suposta superioridade moral e intelectual que os adeptos da Correcção Política definem os pensadores e os políticos conservadores ou meramente independentes como “personalidades autoritárias”, “fascistas” ou mesmo “nazis”, enquanto escalpelizam injustiças ou situações históricas (geralmente banidas ou ultrapassadas, até por iniciativa e força de personalidades conservadoras) para identificar e culpabilizar agressores, que responsabilizam retroactiva e transgeracionalmente.

Foi há trinta anos, no rescaldo da Administração Reagan e do fim da União Soviética, que os Correctores iniciaram a sua luta nos Estados Unidos e, mais timidamente, na Europa. Dando-se conta do fenómeno, já em 1991, o sucessor de Reagan, George H. Bush, declarava na Universidade de Michigan:

A ideia de correcção política desencadeou a controvérsia no país. E embora o movimento tenha surgido do desejo de eliminar os restos do racismo, sexismo e ódio, está a substituir velhos preconceitos por novos. E a declarar certos temas proibidos, certas expressões proibidas, até certos comportamentos e gestos proibidos.

A maioria das grandes universidades aceitou acriticamente a ofensiva, fez o mea-culpa e pediu perdão. Deixou de haver debate livre sobre as questões fracturantes e houve uma progressiva rendição em toda a linha aos novos padrões de afirmação e de controlo. Símbolos, conceitos, opiniões, até estátuas foram removidos, numa purga iconoclástica e numa contrita confissão de culpa perante a nova inquisição.

Daqui resultou uma ausência de confrontação, um clima de medo, suspeição, denúncia e perseguição aos professores e alunos que não se conformassem ou não se integrassem nos códigos e no mundo a preto e branco da Correcção Política. A identificação de macro e micro agressões a minorias vitimizadas e a acusação subsequente contra prevaricadores e renitentes passou a ser um trabalho a tempo inteiro. Perante a reparação e a rescrita do passado – um tema central de George Orwell em 1984 – e as apertadas malhas da censura presente, o próprio Barack Obama não pode deixar de comentar, a propósito da academia norte-americana, que “a cultura de esquerda nas universidades se tinha tornado profundamente intolerante em relação a pontos de vista contrários”.

A lógica da Correcção Política é uma lógica maniqueísta de vítimas e agressores, imposta por orientações e grupos ditos perseguidos, marginalizados ou desconsiderados ou pelos seus autoproclamados representantes ou “comissários políticos”. Reporta-se, não só ao presente, mas ao passado, numa espécie de conta-corrente sem limite de início e de termo. O capital de vitimização e culpabilização é potencialmente infindável e infinitamente elástico e a victimologia, capitalizada politicamente, tornou-se uma ciência e gerou uma ética. O “activismo” passou também a ser urgente: todo o cidadão é um potencial “informador”, instigado a documentar, a gravar e a reportar agressões a “minorias” por parte da “autoridade” (polícias ou professores), da “extrema-direita” (a não esquerda), ou da “sociedade racista, sexista e não-animalista” (o povo tradicional, os “populistas” ou o incauto cidadão).

Entre as palavras banidas nos Estados Unidos está, por exemplo, a palavra “black”, ainda que Martin Luther King a tenha usado com orgulho; e “oriental”, ainda que o académico de esquerda Edward Said, no seu livro Orientalism, a tenha usado para denunciar a orientalização dos orientais pelos ocidentais. Não podem usar-se pronomes num só género, e até pelas praias lusófonas há já algumas soluções inovadoras, como as da brasileira Marcia Tiburi que no livro Feminismo em comum para todas, todes e todos (Rosa dos Tempos, Rio de Janeiro, 2018) propõe que se junte um novo não-género mais inclusivo aos dois limitativos géneros do costume.

A Correcção Política tomou conta de tudo, das críticas literárias de revistas, como a New York Times Book Review ou a London Review of Books, aos prémios literários, às temáticas dos colóquios ou aos discursos dos prémios cinematográficos.

E a indoutrinação das novas gerações está já em marcha: à semelhança do que a Warner Brothers tem vindo a fazer, no canal Disney Plus alguns clássicos foram banidos e os que não o foram apresentam-se com o aviso de que contêm preconceitos étnicos, raciais ou sexuais explícitos, preconceitos esses que só se reproduzem no original para que se não diga que nunca existiram. Quanto às novas produções, seguem na letra e no espírito a agenda Correcta, que, infalivelmente, molda a história e as personagens. Note-se o “empoderamento feminino” das novas princesas ensimesmadas e vingativas da Disney, cujo sofrimento passado e o “conflito interior” justificam quaisquer acções malévolas. Numa progressiva cedência à pressão dos media progressistas e da comunidade LGBT, o filme Onward, que estreou este mês, oferece, e aqui sem aviso, homossexualidade explícita (“finalmente” ao alcance dos pequenitos). E quem tenta levantar reservas a esta vitimização ou à sua manipulação é encaminhado para a fogueira dos homofóbicos, dos racistas, dos nazis.

Na libérrima América, cuja Constituição garante numa das suas principais emendas a liberdade de expressão; nessa mesma América, que, afinal, é também a América do puritanismo e da caça às bruxas, a linguagem é hoje mais controlada do que na Espanha da Santa Inquisição (basta ler, para o efeito, Quevedo ou Cervantes). A divulgação da cultura da “ofensa” leva a acusações cruzadas e a uma autocensura doentia que isola, cala e guetiza tudo e todos – até o humor.

Mas a utopia e a bondade do “ideal” de uma humanidade livre, igual e fraterna – e agora ainda mais inclusiva, até inter-espécies – mantém-se e dilata-se. Os animais humanizam-se e o planeta, o planeta que sofre, é agora, também ele, dotado de emoções, sentimentos e afectos. Explorando a veneração e a submissão dos media e dos políticos às chantagens da “juventude”, do ambiente e das grandes comoções, a jovem Greta Thunberg tornou-se símbolo e líder da luta contra um catastrofismo climatológico apresentado como um dogma mas de polémica cientificidade.

No entanto, e mais uma vez, como o melhor e o pior da natureza humana acaba sempre por resistir e persistir, há pessoas, instituições e valores “menos iguais que os outros” e que se podem e devem ofender à vontade: precisamente as pessoas, instituições ou valores que, para a velha ortodoxia marxista, eram as pedras na engrenagem: a Religião, sobretudo a religião cristã e entre as religiões cristãs, a católica (O Islão é tratado com mais cuidado, até porque exerce represálias em espécie); a família tradicional; os burgueses; o mundo rural reaccionário, herdeiro dos velhos camponeses refractários ou por doutrinar.

E a Europa?

A Europa é menos ou mais politicamente correcta que os Estados Unidos? Digamos que é tão correcta como os Estados Unidos mas de outra maneira. No Parlamento Europeu, a revolução semântica, uma etapa crucial da estratégia, está já em marcha com a mudança de expressões como “mankind” ou “manpower” para “humanity” e “staff”.

Em França há resistências, ou há pelo menos uma forte polémica em volta do “politiquement correct”, com pensadores como Michel Onfray e Alain Finkielkraut, Éric Zemour ou o escritor Michel Houellebecq a denunciar em livros, artigos e entrevistas a ditadura intelectual bem-pensante que faz o controlo do pensamento e da palavra. Houellebecq é particularmente provocador nos seus romances, traçando um retrato distópico da França pós-moderna, decadente e submissa às novas tiranias da gauche caviar ou do Islão activista.

São muitos os autores europeus que consideram a Correcção Política um fenómeno tipicamente americano e pouco susceptível de se instalar nas sociedades europeias, pelo menos de forma igualmente moralista e populista. Mas há factos que vão revelando que tem vindo a alastrar e a instalar-se na Europa, por moda e importação, sobretudo, como previra Marcuse, através dos chamados “mandarins” dos media ou intelectuais sistémicos, que os políticos (quase todos, mas não todos) têm medo de enfrentar.

Por cá as causas fracturantes da Correcção Política, e causas de vida ou de morte, são negociadas para passar orçamentos, como se de ninharias se tratassem. E as denúncias de racismo, directamente importadas dos Estados Unidos sem qualquer adaptação à nossa realidade, são mais um sinal das trágicas e mortíferas cópias servis que nos vão caracterizando.

A Europa mostra também diferenças em termos de penetração da Correcção Política, sobretudo entre a Europa Ocidental e a Europa Oriental. Afinal, é de “marxismo cultural” que se trata, e os povos do Leste, que viveram com o domínio oficial do marxismo, estão especialmente habilitados para o detectarem e são naturalmente mais sensíveis e refractários à nova táctica de agressão e domínio.

E se a linguagem é indissociável do poder, como já defendiam Michel Foucault e Roland Barthes nos anos 60, é elucidativa e sintomática a evolução dos termos ou a sua progressiva purga com vista a uma maior pureza ideológica, por exemplo, quanto à deficiência física: o invalid passou primeiro a handicapped e depois a disabled; e de disabled, que ainda implicava um qualquer padrão de normalidade em falta, passou ao mais tolerante diferently abled ou phisically challenged. Assim, espera-se que, pelo poder da palavra, o “cidadão portador de deficiência” aceite a sua diferença como uma carga exterior, um desafio ou um “salvo-conduto” de que é “portador”.

Mas os grandes progressos da Correcção Política foram na área da chamada Ideologia de Género. A tendência em ascensão, sobretudo nos países nórdicos, propõe que se reavalie o que “era” uma determinante natural e biológica – o sexo masculino ou feminino –, depois “encorajado e condicionado pela sociedade patriarcal”, e se reconsidere o “género” ou os “géneros” como uma “opção livre”, tomada a partir da idade da razão. Até lá, as crianças deverão ser educadas na indefinição e “sem condicionalismos”.

Esta libertação da biologia é claramente inspirada no “subjectivismo sexual” de alguns mentores da escola de Frankfurt. É também uma decorrência da sartriana “precedência da existência sobre a essência” ou uma radicalização da famosa expressão de Simone de Beauvoir de que “não nascemos mulheres, mas tornamo-nos mulheres”. Na escalada desta indeterminação natural e determinação cultural, sem bases científicas mas avançada em nome da Ciência e do Progresso, legitimam-se todas as opções patológicas, até as mutilações operadas cirúrgica e irremediavelmente, independentemente das suas causas e consequências traumáticas.

O que começou por ser parte de uma contra-cultura marginal é hoje uma quase ortodoxia institucional; pelo menos na simplista retórica dominante, apresentada populisticamente como percepção do futuro e sancionada ou em vias de sancionamento como doutrina oficial em vários países europeus e na ambiguidade de grandes organizações.

Termino com as palavras de um grande pensador, talvez o mais interessante e articulado pensador politicamente incorrecto do nosso tempo, e que nos deixou recentemente – Roger Scruton:

Uma vez identificados como de direita, passamos a estar fora do admissível: as nossas opiniões são irrelevantes, a nossa personalidade é desacreditada, a nossa presença no mundo passa a ser um erro. Não somos oponentes numa discussão, mas uma doença a erradicar. Esta tem sido a minha experiência.

Penso que esta terá sido também já a experiência de muitos os que me lêem. Mas não nos deixemos impressionar ou intimidar, não nos sintamos obrigados a apresentar desculpas ou a desistir. Até porque a Correcção mata o pensamento e o tempo de pensar crítica, criativa e livremente chegou para os incorrectos.

Nota: Este texto foi apresentado no dia 10 de Março na 2ª Convenção da Europa e da Liberdade, organizado pelo Movimento Europa e Liberdade, no painel “A ditadura do politicamente correcto e o domínio cultural da esquerda radical”. Um dos painéis seguintes, “A manipulação da esfera pública e o papel da comunicação social”, poderia ter partido da reportagem do Público de 11 de Março sobre a sessão em que participei. Um excelente exemplo.

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