segunda-feira, 30 de março de 2020

Mata-Bicho 13: música para ler



Quem quiser ouvir música, hoje em dia, na Internet tem um acervo impressionante de vídeos cuja diversidade e quantidade é de tal ordem que facilmente se consegue ouvir quase tudo o que se deseja.
Até programas de rádio, antigos, em pocast ou em gravações colocadas por curiosos e amadores.
Há uns anos lembre-me de procurar algo que o falecido dj do rádio inglês, John Peel tivesse disponível para audição.
Em 1975, durante o PREC afanosamente procurava estações de rádio estrangeiras que pudesse sintonizar por cá e apanhei em ondas remotas o programa de John Peel, Top Gear de que já tinha visto a menção nos jornais musicais ingleses como Melody Maker e New Musical Express.
Num desses dias, precisamente em 19 do mês de Dezembro desse ano,  apanhei um programa em que foram passados os 15 melhores singles do ano, na música anglo-saxónica.
Prontamente apontei a progressão até ao top, a partir do nono lugar, que era no caso Peter Frampton e o que viria depois a figurar no álbum ao vivo, Show me the way, com o gimmick do tubo a modificiar robótica e electronicamente a voz do cantor, um efeito estranho na época.
O resultado foi este, actualizado e corrigido há una anos quanto a nomes cuja pronúncia na altura não apanhei.


É simplesmente impressionante poder ouvir novamente talemissão, resumida em alguns minutos de passagem de tais músicas, registada no You Tube e completa. Tem ainda o indicativo do programa, um tema dos Grinderswitch, pickin the blues.


Impressionava-me ainda  o modo como o dj desenvolvia a apresentação num tom aparentemente monocórdico e frugal, sóbrio, tal como por cá então se fazia num ou noutro programa, como o Página Um, na Rádio Renascença de 1974-75, por aqui já evocado em tempos.

Era assim que tomava conhecimento das novidades musicais de então, na era prè-internet e sem outro modo de informação para além desse e das publicações periódicas que apareciam por cá e comecei a coleccionar no início dos anos setenta.
Uma revista que comprei desde Setembro de 1974 era a francesa Rock & Folk que preenchia todos os meses a falta de informação que por cá existia e fazia-a de um modo exemplar e em permanente epifania. Todos os meses descobria coisas novas cuja qualidade musical se tornou assinalável, mesmo depois destas décadas.

Portanto, hoje em dia é fácil redescobrir tudo isso, no You Tube, desde que se tenha o conhecimento suficiente e interesse necessário para tal.

Um dos grupos e artistas que mantém todo o interesse, para mim, depois destas décadas é o grupo americano Hot Tuna e o seu mentor Jorma Kaukonen mais o parceiro musical do baixo, Jack Casady. Ambos fizeram parte do grupo de rock dos sixties, Jefferson Airplane mas o interesse pela música do duo cinge-se, neste caso ao que fizeram na década a seguir, com tal grupo e a solo.
Jorma Kaukonen, neto de finlandeses que vieram emigrados para os Estados Unidos publicou em 2018 uma biografia que intitulou Been so Long, reminiscência de uma das suas canções e tem um sítio na Internet onde se podem ver a actuar ainda nos dias de hoje e com uma qualidade que já não é vulgar ver em artistas do passado, como ele.



Como é que conheci este músico e a sua obra?

Em Setembro de 1976 a revista Rock&Folk tinha esta capa dedicada aos festivais musicais em França, particularmente em Orange.




Intrigou-me que do conjunto de artistas de renome que poderiam figurar na capa tivesse aparecido a foto dos Hot Tuna, grupo que só conhecia de nome, na altura e por ter lido algo na revista, antes.
Hoje em dia é fácil ouvir tudo, logo e imediatamente se se tiver uma ligação à internet.  Na altura podiam passar meses ou anos antes de surgir uma possibilidade de audição.
Para além disso a música mais interessante dos Hot Tunha já tinha sido publicada em discos antes de 1976, ao longo da década.
E…música dos Hot Tuna em Portugal, no rádio, meio de divulgação por excelência? Nem me recordo de ouvir nada, nesse ano e no seguinte.
Em 1978 a mesma revista Rock&Folk passou em recensão completa os discos dos Hot Tuna, com Jorma Kaukonen. 



Nove discos, lançados entre 1971 e 1978,  todos de qualidade para ouvir integralmente e de preferência na versão em vinil, original porque só assim se apreende toda a subtileza sonora do country-blues acústico e eléctrico que deles emana em composições que nunca deixaram de me fascinar em modo sonoro.

Em 1978, porém, o grupo lançou o derradeiro disco, ao vivo e chamado Double Dose. E ouvi-o no programa de António Sérgio, Rotação, salvo o erro.  
O som era de reverberação quente e grave como a voz e programa do apresentador. Lembro-me da apresentação do disco porque a gravei, numa cassete que andará por aí: “no início das suas actuações ao vivo Hot Tuna costumava aquecer o ambiente com algumas canções acústicas”, mais ou menos isto.  E lançava o som…cujo disco comprei apenas no início dos 2000, um lp descoberto algures numa loja de discos usados, no estrangeiro de Monastiraki.
Era uma prensagem original, americana, como as demais que ao longo dos anos fui adquirindo, dos discos dos Hot Tuna, aqui mostradas em progressão diacrónica.


 No início dos anos oitenta ouvi por acaso outro disco que não conhecia, de Jorma Kaukonen, chamado Quah! e do ano de 1974, realizado em parceria com outro artista, Tom Hobson.
Foi uma surpresa e durante muito tempo as canções não me saíam do ouvido, particularmente as  iniciais, Genesis e Song for the North Star. 
Esta última tem uma letra de poesia contagiante, pela evocação de sonoridades antigas que se repercutem nos meus ouvidos sempre que a ouço e faço-o muitas vezes por causa disso e vou cantarolando por isso mesmo. 


A versão aqui mostrada é a de Genesis que abre o disco, mas este pode ser ouvido integralmente no you tube.
 No entanto, este pequeno video reproduz uma das canções de 1974 cantadas e tocadas pelo artista há poucos anos, no seu recanto particular e caseiro, em  Ohio, chamado Fur Peace Ranch onde o artista vive com a família. 



Ah! E tem agora uma mensagem e recomendação sobre o que se passa com a guerra ao bicho...

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