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quinta-feira, 20 de abril de 2017

As "amplas liberdades" que aproveitam ao comunismo...


Observador, José Milhazes:

A revolução comunista de 1917 na Rússia continua, hoje, rodeada de muitos mitos. Um deles é que foi ela que acabou com a repressão e o regime burguês saído da Revolução Democrática de Fevereiro/Março, quando a verdade é que os bolcheviques tomaram o poder aproveitando-se exactamente das liberdades democráticas abertas por esse regime.
“A originalidade do momento presente na Rússia consiste na transição da primeira etapa da revolução, que deu o poder à burguesia devido à insuficiente consciencialização e organização do proletariado, para a sua segunda etapa, que deve passar o poder para as mãos do proletariado e das camadas mais pobres do campesinato”, escreveu Lénine no seu artigo “Sobre as tarefas do proletariado neste revolução”, pouco tempo depois de ter chegado do exílio a São Petersburgo — viajando com a ajuda da Alemanha, país interessado em que a Rússia saísse da Primeira Guerra Mundial.
Esse artigo de Lenine entrou na história como as “Teses de Abril” e foi publicado no jornal “Pravda” no dia 20 de Abril (7 de Abril no calendário russo) no meio de uma discussão feroz não só entre os socialistas russos em geral, como entre os próprios bolcheviques. Alguns consideraram mesmo essas teses um “delírio” (Gueorgui Plekhanov)
Mas, neste artigo, é da mais primordial importância reparar em qual foi a táctica defendida por Lénine para impor a “ditadura do proletariado”, em concreto aproveitar-se da existência de grandes liberdades e da ausência de repressão na Rússia saída da Revolução de Fevereiro.
“Este período caracteriza-se, por um lado, pelo máximo de legalidade (a Rússia é, agora, o país mais livre do mundo de todos os países combatentes) e, por outro lado, pela ausência de repressão sobre as massas e, por fim, pela sua atitude de confiança e inconsciência face ao governo dos capitalistas, dos piores inimigos da paz e do socialismo”, escreveu o dirigente bolchevique.
Porém, após o assalto ao poder a 25 de Outubro/7 de Novembro de 1917, os bolcheviques viram que a continuação dessa liberdade era um obstáculo ao seu poder absoluto, mascarado sob a forma de Sovietes de Operários, Camponeses e Soldados. O exemplo da dissolução da Assembleia Constituinte é disso o mais flagrante.
Receando o descontentamento da opinião pública se não se realizassem eleições para esse órgão legislativo, ideia muito popular no país, Lenine acabou por aceder e o escrutínio realizou-se a 12 de Janeiro de 1918. Nele a situação caótica em que o país vivia e a guerra contribuíram para uma baixa afluência às urnas (menos de 50% dos eleitores), o que não impediu que os bolcheviques tenham sofrido uma pesada derrota: dos 750 deputados eleitos, apenas cerca de 180 eram bolcheviques, que ficaram muito atrás dos socialistas revolucionários e centristas, que conquistaram 370 lugares na Assembleia Constituinte. Os restantes deputados estavam repartidos por forças políticas que também não apoiavam os bolcheviques.
Após uma longa primeira sessão, às 5 horas da manhã um marinheiro subiu à tribuna e anunciou: “A guarda está cansada. Peço que terminem a sessão e regressem a vossas casas”.
Segundo recorda Nikolai Bukharine, um dos muitos dirigentes comunistas fuzilados pela ditadura criada com as próprias mãos, a reacção de Lenine à notícia dessa acção foi sintomática: “Ele riu-se durante muito tempo, repetiu para si as palavras que ouvira e riu-se, riu-se. Alegria contagiante, até às lágrimas. Riu-se às gargalhadas”.
A Assembleia Constituinte ainda teve tempo de tomar algumas medidas importantes: a lei da terra, que considerava-a propriedade nacional; um apelo às potências beligerantes para que fosse dado início às conversações de paz e a proclamação da República Federativa Democrática da Rússia.
E assim foi enterrada uma grande possibilidade de a Rússia se transformar num Estado europeu e democrático e dado início a uma experiência social que durou 74 anos e custou milhões de vida.
Aliás a obra “Rumo à vitória”, escrita pelo antigo dirigente comunista português Álvaro Cunhal, não passa de uma adaptação à realidade portuguesa das “Teses de Abril” e de “O Estado e a Revolução”. Nesse livro, Cunhal fundamenta igualmente a transição da revolução burguesa para a socialista, antecipando o que o Partido Comunista Português tentaria concretizar entre 25 de Abril de 1974 e 25 de Novembro de 1975, mas o conseguir para o bem da nossa democracia.
Numa época atribulada como a que vivemos, as democracias têm de reforçar os seus meios de defesa contra os extremismos de direita e de esquerda, apresentar alternativas e novos caminhos perante a ameaça de repetição de ideologias manchadas pelo sangue e pelo ódio
Parafraseando uma declaração de Lenine, que dizia que uma revolução só vale alguma coisa quando se sabe defender, eu diria que a democracia só vale alguma coisa se se souber defender. Foi assim há 100 anos, é assim hoje.

6 comentários:

muja disse...

E como é que a democracia se há-de defender?

Sol na eira e chuva no nabal...

joserui disse...

Estive a ouvir o Governo Sombra com a Zita Seabra com uma modesta contribuição para o que aqui se tem discutido. Entre idas a Espanha e férias em França "este país era um horror". A certa altura ela diz que quem abraçava o comunismo não queria saber (de gulags e coisas que tais) e vamos partir do princípio que a informação era pouca… Mas hoje é muita, e não faltam jovens que nunca ouviram falar do gulag a ingressar no PC. Para arrependidos como o Milhazes ou a Seabra, continuam a entrar novos. A conversa dos novos consegue ser mais ortodoxa que a dos velhos.
Outra coisa que ela falou foi da superioridade moral do comunismo. Que deve ser por osmose, o PS e a esquerda toda sofre. Aliás o palhaço Araújo Pereira exibe-a numa base regular no próprio programa.
Diz que saiu do PC há quase 30 anos, parece que foi ontem. E o PC ainda aí anda, com as conivências do costume, diz até que governam.

josé disse...

"A certa altura ela diz que quem abraçava o comunismo não queria saber (de gulags e coisas que tais)"

Claro que não queriam saber. Mas se lhes disserem que o nazismo de Hitler também foi um pouco por não quererem saber, exigem responsabilides morais aos que não quiseram saber.

E quanto ao nazismo havia mais secretismo e foi durante um tempo muito mais curso que o comunismo.

O comunismo após a morte de Estaline, nos anos 50, com Krutschev, fez uma auto-crítica que por cá, o PCP nunca fez e continua a ver em Estaline uma figura de referência.

A invasão da Checoslováquia e outras aventuras chegaram para em França o PCF arredar da via totalitária e enveredar pela via sem destino que o levou ao fim.
Por cá, evidentemente não seguiram a mesma via porque teriam o mesmo fim, o que significa apenas uma coisa:

O comunismo, fora do totalirarismo desaparece, dissolve-se. E nem é preciso vodka.

E isso o PCP sabe muito bem e Zita Seabra também. Tal como Milhazes.

O segredo que falta contarem é porque esperaram até ao fim da década de oitenta para entenderem e serem coerentes com tal evidência.

Adelino Ferreira disse...

E depois há....


https://www.google.pt/amp/www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/pedro-tadeu/interior/amp/os-mortos-contados-por-zita-seabra-6226444.html

joserui disse...

Ainda comecei a ler esse vómito comunista, mas não deu para chegar ao fim, peço imensa desculpa.

Unknown disse...

Penso que não existe democracia nenhuma, que a união europeia é uma organização totalitária que tem na base da Sua tomada de poder a maçonaria que usa tudo o que o ser humano tem de mais baixo. Penso que a unica maneira de defender o nosso povo da farsa democratica é, como venho de descobrir em relação aos perversos narcisicos, pela confrontação com a morte caso a verdade não seja dita de forma clara e sem nenhuma ambiguidade. E isto, quanto à afirmação que a ue não tinha principios cristãos ficou bem claro. E que o ps é uma organização mafiosa eles mesmo o disseram. Penso que o termo democracia é apenas usado como injunção paradoxal que a escola de palo alto demonstra estar na origem da esquizofrenia. E o Bruno Bettelheim mostra pelo comportamento do povo alemão com o nazismo, que quanto mais tempo se leva a reagir mais fragilisado se fica e por is so essa reacção acaba por nunca se realisar.
Tam