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segunda-feira, 10 de abril de 2017

Os políticos não gostam de magistrados. E a generaldiade dos media também não...

Em França, a propósito do assunto Fillon, um caso de vão de escada político, sobre empregos de favor ( como há muitos em Portugal e que não levantam questão alguma...) a revista Marianne revisitou alguns casos passados entre políticos e magistrados.

O título da reportagem de 17 de Fevereiro passado era esclarecedor: "Juízes e políticos. Porque se detestam".  O conteúdo da reportagem mostra bem a razão da mútua aversão: uns julgam-se impunes; outros estão sempre a lembrá-los do contrário...



A primeira observação é de que em Portugal este título e esta reportagem seriam impossíveis, nos media que temos. A Justiça portuguesa é mal vista na maior parte das notícias da Lusa e da komentadoria dependente, como parece Público nas Notícias Sic e TVI,para além de toda a RTP. O Lopes da SIC-N ou a Lourença que assenta no mesmo sítio são os exemplos paradigmáticos.

Seria interessante perceber porque é que estas coisas acontecem assim, em Portugal e só vejo uma explicação: as pessoas que orientam os media estão mais dependentes dos políticos do que parece ( casos flagrantes do Diário de Notícias e Lusa, precisamente) ou comungam  com certos políticos os anseios e dores que os afectam. São mais solidários com o poder do que com o povo e isso é dramático numa sociedade democrática. Trágico, mesmo.
Em resumo: a generalidade dos media e jornalistas portugueses não são independentes e nada fazem por isso. Essa a principal razão para os teixeirinhas, carvalhinhos e outros macedinhos mais os figueiredozinhos deste torrão subirem nas vidinhas. E suficiente porque a moral ou a ética, como dizia uma tal Teresa Guilherme, não dá de comer.
O poder político é mais apelativo que o judicial e o poder do dinheiro, então,  nem se fala!

Em 1996 este estado de coisas, actualmente endémico, não era ainda um  grande problema. Havia um PGR, Cunha Rodrigues que falava bastante sobre os direitos, liberdades e garantias e do poder mediático que se defrontava com o poder judicial e vice-versa.

O discurso era muito interessante e hoje desapareceu por completo dos media em geral, por ausência de protagonistas. Muito por culpa dos media que conseguiram fazer passar a ideia de que um magistrado, calado, é o melhor. O palco todo fica para os advogados Magalhães e Silva, Júdices e outros.  Os magistrados desapareceram completamente do palco mediático, acossados que estão. Já escrevi aqui que a PGR actual tem medo da sua própria sombra que estes media que estes media logo projectam. Terá alguma razão mas o preço é a perda da autorictas do Estado perante estes jagunços a soldo de alguma banditagem político-partidária que ainda têm  a lata de aparecerem  como defensores da democracia.
O actual presidente do STJ, Henriques Gaspar deu há tempos uma entrevista mas não tem a estaleca de Cunha Rodrigues, notoriamente.

Assim, os magistrados estão sós, isolados e amedrontados pelos próprios conselhos superiores que exercem sobre os mesmos a supervisão que se afigura terrorista na medida em que lhes infundem terror profissional, muito por causa dos controleiros e comissários políticos que os partidos lá colocam para essa tarefa.
Qualquer deslize em comentários públicos e têm logo processos disciplinares anunciados, como aconteceu recentemente com o presidente do SMMP, Ventinhas. Os juízes, esses, nem se atrevem a piar algo fora dos processos, com excepção de um ou outro ( Carlos Alexandre, por exemplo) e quando tal acontece cai o Carmo e a Trindade no Diário de Notícias e sua komentadoria, mais a SIC, TVI, RTP e toda a lourencice dos media, num exercício de bullying mediático assustador. Carlos Alexandre escapou de um processo disciplinar por um triz de um voto do presidente do STJ, após o vice-presidente do CSM, o conhecido Mário Morgado, motard nos tempos livres, tudo ter feito para tal e depois de uma votação que teve laivos de rocambole. Mas ninguém piou fosse o que fosse. Ai se piassem!

Em 31 de Janeiro de 1996, Cunha Rodrigues explicava-se assim no Público do então Vicente Jorge Silva:


Cunha Rodrigues já anteriormente se tinha pronunciado sobre estas questões, numa entrevista ao Expresso de 8 de Outubro de 1984 e nela tinha explicado que "nos crimes de colarinho branco as pessoas nunca se defendem como o delinquente comum- defendem-se com armas de arremesso contra os magistrados". Profético? Não. Simplesmente realista.


Mais interessante ainda:

" Os magistrados têm o direito e até o dever de falar quando houver questões relacionadas  com os direitos do Homem, com a Justiça, com as liberdades ou com a independência dos tribunais"


Quem é que nós, enquanto cidadãos, vemos com suficiente autoridade, hoje em dia para ter um discurso deste teor, como magistrado?


Ninguém...porque todos se atemorizam. Dos Conselhos Superiores e dos processos disciplinares. Só e apenas. Os que estão supra esta contingência não querem ou não podem ou não sabem. Tudo junto se calhar.

Conclusão: os magistrados portugueses foram capados. Sabemos quem forneceu a lanceta e quem deu o golpe: os media afectos aos  políticos .

4 comentários:

Floribundus disse...

ditado muito divulgado

''QUEM TEM CU, TEM MEDO''

Zephyrus disse...

O pais tem poucas PMEs com capital dispostas a pagar publicidade nos merdia.

O poder nao quer pluralidade, veja-se todo o vergonhoso processo da TDT.

Noa ha milionarios dispostos a financiar jornais como ha, por exemplo, no Reino Unido (e curiosamente no RU esses jornais e revistas sao tendencialmente de Direita tradicionalista e nao de Direita Liberal).

Os que tem dinheiro nao tem fibra e sao frouxos com as linhas editorias, que sao de Esquerda, a mesma que odeia de more "ricos".

Basta ver que paga mais publicidade para perceber. PSI 20, imobiliarias, Santa Casa de Lisboa, banca, construtoras... e com jeitinho tambem se percebe quem encomenda certas noticias...

muja disse...

O pais tem poucas PMEs com capital dispostas a pagar publicidade nos merdia.

Que é o mesmo que dizer que o país não tem mercado. Ou que este é fraco e anémico.

E mesmo que haja ou houvesse mais empresas dispostas a pagar publicidade, não é líquido que as compensasse fazê-lo para além dos jornais, patrocínios das festividades ou certames de âmbito local.

De resto, é tal a sobre-concentração económica no sector terciário que praticamente só as multi-nacionais ou as poucas grandes nacionais têm arcaboiço para competir eficazmente e ter retorno da publicidade à escala nacional.

Uma fábrica relativamente pequena, bem administrada e afinando a produção, pode abastecer um mercado grande em comparação.
Com serviços é mais difícil e envolve mais mão de obra, sobretudo comercial, que é cara se se quiser eficaz.

A dado ponto, atinge-se a saturação de cafés, restaurantes, hotéis, manicuras, cabeleireiros, etc. A não ser em grandes entrepostos comerciais, por cujo bulício estão sempre garantidos novos influxos de dinheiro, ou em centros turísticos.

Claro que é este último, por parecer mais fácil, que é o apontado como grande solução. E é, efectivamente, o epítome da concentração no terciário: a transformação do país numa gigantesca reserva turística.

Vai ser - é já - isso o legado económico da terceira república.

A. Manuel Mendes disse...

Por muitas voltas que se dê o problema é apenas um, a comunagem, seja ela a do caviar ou a do croquete e do copo de três. Estes marmanjos só conhecem o comité central, para lá disso, só há uma verdade a deles. O resto é o deserto e os camelos. Os controleiros existem para fazer cumprir a voz do dono. Os argumentos justificativos desta verdade interessam para quê? Os burgueses que estão alapardados querem é o deles e os escribas vendem-se a troco dum copo de whisky.