segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Tal & Qual, há quarenta anos: o poder continua nas mesmas mãos...


Há cerca de 40 anos surgiu "nas bancas" um novo jornal semanário que custava um terço dos demais. 5$00 era o preço do Tal&Qual, com uma dúzia de páginas, títulos com letras garrafais e artigos escritos para mostrar coisas sensacionais. Dois anos depois custava o dobro e com cinco anos, em 1985, o triplo.

Foi o tempo de alcançarmos a segunda bancarrota da democracia, um feito notável e inédito na Europa, devidamente esquecido e sem efeito didático algum. Tivemos logo uma terceira, anos depois e quem as provocou anda a preparar-nos uma quarta.

O Observador dá conta da saída de um livro com a história do jornal que também ajuda a perceber como é que conseguimos aqueles feitos:


Joaquim Letria fora o primeiro director de O Jornal, em Maio de 1975, cuja história aqui se contou. Ficou lá pouco tempo ( pouco mais de dois anos)  e passou para a TV onde apresentava um programa de variedades com o título Tal & Qual em que além do mais apareciam os "apanhados", protagonizados por um tal Manolo Bello, coisa um bocado pindérica mas inovadora na tv desse tempo.
O jornal surgiu quando o programa de tv terminou, como acima se conta. Foi no início do Verão de 1980, um período em que a política em Portugal passava pela "direita" da AD de Sá Carneiro e que terminou tragicamente em Dezembro desse ano.
O jornal durou 27 anos e o fim mostra-se aqui, em 2007. Logo no início das edições a imagem que marcou tal publicação era de Sá Caneiro com Snu Abecassis, "enfim juntos!".

Não comprei tal edição nem sequer as seguintes, tal o sensacionalismo algo bacoco que mostrava ser a marca de água da publicação.
O Tal & Qual era uma espécie de Correio da Manhã avant la lettre, no estilo telegráfico dos textos e títulos encorpados e a encher o olho do eventual comprador. Raramente o jornal publicou algo que me interessasse particularmente e por isso comprei-o esparsas vezes.
A edição mais antiga que encontrei nos arquivos é a do nº 8 de 14 de Agosto de 1980.


Numa página interior aparecia um auto-retrato pretensamente humorístico.


Noutra página um fait-divers que diz mais sobre o Portugal de então do que muitas teses de mestrado do CES ou do ISCTE:


A última página, típica, mostrava o que tem sido o nosso jornalismo: uma espécie de biombo em que o poder político espreita, sob a protecção mediática e comprometida.
Os jornalistas portugueses acham-se no direito e talvez o dever de acompanhar o poder político como se fossem companheiros no mesmo caminho, ajudando-se mutuamente.
Se assim não fosse aquele Proença não seria quem é.


O tipo de crítica mais contundente, ainda hoje, ao poder político é deste tipo, mostrado na edição de  4 de Dezembro de 1982:


Há outro título fantástico: "analfabetos vão morrendo". Nem dez anos depois do 25 de Abril de 1974 o analfabetismo estava quase erradicado, em Portugal, como se fosse doença maligna instilada pelo fassismo. A Democracia tinha descoberto a vacina e o resultado estava à vista: morriam os últimos analfabetos do país.
Por isso é que hoje temos das gerações mais bem preparadas de sempre, nos isctes e ces dos professores buonaventuras que por aí há, às dúzias. Prémios nobéles temos...um! Hurra!

Nessa mesma edição e num artigo do encapuçado dos SUV, Ferreira Fernandes, mostra-se bem porque razão a esquerda dominou sempre o panorama político-mediático. O tom deste artigo é simplesmente exemplar de tal estado de coisas que não só permanece nos dias de hoje como até se reforçou.

Para estas pessoas a democracia acaba nas faldas do partido socialista e do PSD de um Rui Rio. Para além disso começa o reino da extrema-direita e do horror ao fassismo.


A inflacção galopante, a crise económica e o habitual desenrascanço nacional motivou o aparecimento de um fenómeno pontual numa época em que os bancos privados nem existiam em Portugal, porque ainda estava tudo  irreversivelmente nacionalizado e assim ficou mais de meia dúzia de anos.

O jornal de 5.3.1983, em plena crise e de bancarrota nacional a cozinhar em lume brando mostrava o fenómeno...das lancheiras que "regresssavam cheias de vergonha"  ao tempo da pobreza endémica, apesar de terem passado quase dez anos de democracia contra o fassismo.

O período de "vacas magras" anunciado por Marcello Caetano em 1973 durava que se fartava. Até hoje, na realidade o que é um record:


Em Março de 1985 a política era já outra, a mesma de sempre: o dos governos de Mário Soares a quem Champalimaud tirava o retrato apropriado. A capa era sobre o inimigo jurado do comunismo, em Braga.


Obviamente que no meio disto tudo tinha que estar também quem está hoje:


Em 12 de Abril de 1985 o PCP era tratado como nunca o tinha sido até então:


E o habitual de há um pouco mais de 40 anos a esta parte: o Orçamento a pagar a vida de luxo de uns quantos. Hoje há muitos mais do que então. Tudo legal, como dizem os brasileiros.


O retrato do nosso belo estado social, em Dezembro de 1985. Hoje está pior:


Na edição um título fantástico: "ratos de Lisboa parecem coelhos".

Pareciam?! E no largo dos ditos?

Para distrair o pagode havia sempre um tema que não perdeu actualidade estes anos todos. Continua a ser um prato forte para quem quer vender antifassismo às dúzias.
Esta edição é de comemoração do 25 de Abril de...1985. Dez anos depois, ainda era sensacional falar da PIDE. Como hoje. No outro dia uma bolseira da Gulbenkian escreveu dezanove vezes o nome num artigo de pouco mais de meia dúzia de páginas...porque o fassismo serve-lhes sempre de desculpa e alibi para a incompetência e a desgraça que provocam ao povo português. décadas a fio.




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