quinta-feira, 4 de março de 2021

Os funcionários públicos são parasitas?

Vendo este argumentário videográfico, no qual se mencionam impostos como se estivessem reduzidos ao IRS atinge-se o paroxismo das falácias ao dizer que "os funcionários públicos não pagam IRS e é o sector privado que paga os seus salários."

Não sei qual a área de formação do estimável cabeça falante mas não me parece que Economia seja a especialidade. 

A ideia simplista é que "os funcionários públicos são pagos com o dinheiro dos trabalhadores do sector privado" tal como se refere ipsis verbis naquele videograma. Ou seja, os funcionários públicos não passam de parasitas das entidades privadas e empresas que lhes pagam o salário...e  isso não obstante lhes reconhecer que também trabalham, prestam serviços e devem ser remunerados por isso. 

E mais: diz que desde 1986  há uma "marosca" do Estado que faz de conta que cobra impostos aos seus funcionários, o que antes não sucedia, mas fica com esse dinheiro para si por lhe ser devolvido pelos mesmos numa operação contabilística e que afinal se destina a esconder que paga menos aos funcionários. 

Para se ver o vício de raciocínio basta ler umas poucas páginas dos manuais básicos de Economia política que aliás eram matéria do ensino secundário há poucas décadas.  

O primeiro é um livrinho de Introdução à Actividades Económicas da editora Texto ( de MCM e MJF)  dos anos oitenta e mostra o que é o Estado enquanto agente económico, a par das Famílias, Empresas, Instituições Financeiras e Exterior.



E explica como se desenvolvem as relações e fluxos entre as Famílias e o Estado, bem como entre as Empresas e o mesmo Estado, assim esquematizadas:


 

Noutro manual dessa época- Economia Política, de JMEP da Plátano-mostra-se igual esquema de funcionamento básico da economia: 




E explica-se também o que é e significa o imposto, em termos básicos:






Portanto, o IRS, imposto directo, nem é equivalente a todos os impostos, como se faz amálgama no videograma que confunde o passante menos atento e nem sequer é o imposto mais relevante em termos globais, de receitas do Estado. Não era em 1976 e não é agora
Para além disso é um simples sofisma dizer que o IRS pago pelos funcionários públicos ao Estado que lhes paga é de saldo igual a zero e a conta é paga pelos "privados" ou seja pela economia liberal, seja lá isso o que for em Portugal em que as empresas dependem muito do Estado, para tudo e para todos. 

Era bom que estas noções básicas, primárias, de quem fala em público, com voz e cara descobertas, fossem melhor apreendidas e assimiladas...antes de se aparecer com o discurso típico e leninista contra o funcionalismo público e no fim de contas o Estado, em nome de um liberalismo manhoso. 

E manhoso porquê? Por esta razão aqui explicada num pequeno artigo da revista Valeurs Actuelles, de 25 de Fevereiro passado que demonstra um paradoxo inesperado.








Por aqui se percebe a razão deste liberalismo não apreciar politicamente um CHEGA, por exemplo...


 

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