sábado, 6 de março de 2021

O Polígrafo grafado de burrice

 No Polígrafo anda-se a desenterrar histórias antigas, já com meia dúzia de anos, sobre falsificações do passado que servem ao presente da situação, podando citações para corrigir ideias...correctas. 

No caso analisa-se e conclui-se que são falsos os termos de uma conversa tida por Marcello Caetano com o autor de um livro- Confidências no Exílio, de Joaquim Veríssimo Serrão-  editado em 1985 pela Verbo mas escrito em 1980 e no qual o antigo presidente do Conselho  tecia considerações a propósito do futuro do país, com os governantes do presente de então. 

 Conclui-se que são falsas as citações da pretensa conversa porque  algumas expressões originais vertidas no livro foram adulteradas na forma e uma frase foi acrescentada sem correspondência a qualquer original. É uma frase que se refere à indigência intelectual dos governantes de então e eventualmente actuais.

Refere-se em tal frase que Marcello Caetano teria dito que ainda se veriam alçados ao poder político, "analfabetos" ( como se tal fosse falso), "meninos mimados" ( idem); "escroques de toda a espécie que conhecemos de longa data" ( idem aspas). 

Assim





Este assunto já foi tratado aqui, 30.4.2014 (  e também já tinha referido o livro aqui, em 22.7.2013) pelo que a referência do Polígrafo a publicações de facebook de 2015 como sendo a origem da falsificação também é falsa porque afinal a publicação é muito anterior a tal data. 

Porém o que interessa é saber se Marcello Caetano poderia ter dito o que disse e se tal era algo de extraordinário se de facto o tivesse dito. 

Para tal melhor seria ao Polígrafo ler as partes do livro de Joaquim Veríssimo Serrão que verdadeiramente interessam e enfiasse o garruço que nem saberá o que seja...

A página original do livro, citada aqui, é esta: 


Mas as duas páginas anteriores também são interessantes: 


E talvez valha a pena ler o que Marcello Caetano disse ao autor a propósito de Mário Soares:  


E sobre os políticos do tempo da AD: 


 E sobre o que foi a Revolução de 25 de Abril de 74, os seus colaboradores no Governo, uma amargura infinda... 


 De qualquer modo subsiste este texto misterioso e que não parece falsificado...onde se diz exactamente o que o Polígrafo entende que foi falsificado. Diz que "pela via aritmética, clamando que são eleitos pelo voto popular, vemos alçados ao poder analfabetos, traidores e desonestos".

Ora...será que Marcello Caetano não disse mesmo isto?

Não sei onde fui buscar o recorte que coloquei aqui ( em 7.6.2012), mas darei conta oportunamente. E se for falso, digo que o é.


E...não é falso nem apócrifo. É do mesmo livro de Joaquim Veríssimo Serrão, a pág. 131 e em resposta a uma carta que este enviara a Marcello Caetano queixando-se do mesmo género de amargura que se tornara penosa em 1976 e a propósito da publicação do I volume da História de Portugal em que aquele autor queria mostrar "a Nação que fomos-como e porque fomos- para dela se extrair a lição que o presente impõe".

Portanto aquelas expressões de Marcello Caetano, aferidas ao que se passara nos dois anos anteriores, no tempo do PREC,  são elucidativas a propósito do que então se via: "vemos alçados ao poder analfabetos, traidores e desonestos que conhecemos de longa data". 


A quem se referia Marcello Caetano, em concreto e que conhecia de longa data? Não eram os pobres capitães de Abril, certamente, mas outros melros que cantavam no poleiro de então. 

Por isso o que o Polígrafo veio desmentir encontra-se desmentido com estas palavras...em tudo equivalentes àquelas. O verbo neste caso está no presente e no escrito apócrifo ficou no futuro. 

Mas...pensando num certo recluso que teve o nº 44 na cadeia, será que Marcello Caetano se enganou muito ao não augurar o que viria mas apenas mencionando o que já fora? 


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