Comprei o livro de Helena Matos "Os filhos do Zip Zip" e folheei várias vezes, vendo as ilustrações a preto e branco e a cores, em algumas páginas escolhidas.
Segundo a autora, "os filhos do zip zip são aqueles para quem a televisão, o que lá se dizia, via e acontecia se torna no denominador comum das conversas. "
Portanto, temos um programa de tv de meados do ano de 1969 e que se mostrou semanalmente na tv única até ao fim desse ano, como paradigma de uma época e daqueles que então eram crianças, como geração que sucedeu à do Maio de 68. São os que têm agora cinquentas.
O livro está estruturado em seis partes com 23 capítulos e neles se percorre o fadário nacional daqueles anos que começaram com a tomada de posse de Marcello Caetano e acabaram no 25 de Abril de 1974. Meia dúzia de anos que mudaram a vida que temos e que raramente nos são dados a conhecer pelo lado brilhante deste nosso microcosmos nacional.
Geralmente, a História que os contadores oficiais nos contam sobre este período é a do lado obscuro desse pequeno universo, o negrume do "fassismo" e do atraso e da miséria neo-realista e do analfabetismo e industrialização condicionada e amparada pelo Estado fascista, com duzentas famílias a mandar no país.
O que poderia ser apenas uma caricatura de um regime, tornou-se pelas artes mágicas de uma Esquerda fóssil na narrativa comum e aceite como oficial nos livros do ensino obrigatório. Ninguém se atreve a mudar ou alterar, um pouco que seja, esta narrativa porque será imediatamente apodado de "fascista", "reaccionário", saudosista" e outros mimos destinados a assassinar socialmente quem se dignar empreender tal tarefa.
Não sei se o livro de Helena Matos vai ser criticado nessa perspectiva e estou com alguma curiosidade. Porém, o mais certo é ser completamente ignorado e relegado para os artefactos inúteis ao discurso oficial da nossa História contada pelos rosas flunser e outros tavares. Não tendo concedido o imprimatur, o livro será fatalmente proscrito no gotha da torre do tombo, reservada aos pachecos pereiras que contam as aventuras dos pum pum, sem medo do ridículo.
Ainda assim, o livro, despretensioso e que evidentemente merece ser lido ( li em diagonal e posso avançar o parecer) tem algumas partes interessantes, como seja a insistência programada nas publicidades mediáticas da época a produtos caseiros ou de consumo corrente, a par de novidades nos costumes e modos de vida em Portugal, nesses anos, polvilhado por uma miríade de fait-divers e acontecimentos de relevo.
Confessadamente, o livro baseou-se essencialmente em repescagens gráficas de notícias e ilustrações aparecidas em alguns, poucos, órgãos de informação escrita da época, designadamente o Diário Popular e o Século Ilustrado. Na entrevista à Papel, a autora esclareceu que foi uma opção e que "neste livro recorri muito ao Diário Popular e a O Século Ilustrado porque
pretendia uma perspectiva sobre o quotidiano das pessoas comuns. As
perspectivas mais elitistas mas não menos interessantes estão lá pouco."
O livro não esgota a temática e antes a amplia e permite imaginar outros livros sobre o assunto que longe de ser apenas revivalismo ou até saudosismo, como os fósseis do costume não se cansarão de denunciar, permite ter uma visão mais diacrónica dos factos do dia a dia e da vida naquele tempo que nos apresentam sempre como uma época terrível e de obscurantismo semelhante ao também propalado ( pelos mesmos) para a Idade Média.
Assim, mudanças sociais, nos transportes, na habitação, na educação, nas comunicações e costumes são de algum modo escalpelizados em função de notícias de época, curiosidades avulsas e ilustrações a condizer, dos jornais da altura, com profusão de fait-divers que ajudam a enquadrar um tempo e uma época. Quem a viveu recorda-se e situa-se imediatamente num país que reconhece como tendo sido o seu e não aquele que os tais fósseis lhes pretendem impingir. As pessoas que aqui aparecem retratadas no dia a dia não são os costumeiros antifassistas e não é o relato das suas aventuras anti-regime que aparece em destaque, para contrastar com o panorama livreiro dos ensaios dedicados ao tema.
O Ultramar é mesmo isso e não "Colónias". As pequenas vinhetas do Diário Popular, sobre acontecimentos trágicos ocorridos e não testemunhados, aparecem em ilustrações típicas de "o fotógrafo não estava lá..." e os acontecimentos-chave desses anos são mencionados, ainda que pela rama das notícias de jornal.
Este é um livro que respeita o ar do tempo e lhe empresta um cheirinho de época, para quem se lembrar de anúncios ao Clarim, à Planta ou à "menina pescadinha".
Tem porém um pequeno equívoco: os filhos do zip zip não são aqueles pequenos espectadores de tv que se encantavam com o Carrosel Mágico ou a Pippi das meias altas. São outra loiça...que passo a ilustrar noutro postal que me ocorreu ao folhear o livro.