"Será que o Marcellismo foi um corolário do Salazarismo ou um preâmbulo ao socialismo/ social-democracia?"
A pergunta formulada aqui, segue uma hipótese explicativa do sucesso do golpe militar em 25 de Abril de 1974, ou seja a de que ninguém, nessa altura, estava disposto a "dar o coiro por Marcello Caetano".
Marcello Caetano estava sozinho nesses primeiros meses de 1974?
Para se compreender quem era Marcello Caetano em 1974 é necessário surpreender o que disse, o que fez e o que escreveu e ainda assim ficam dúvidas sobre a pessoa e aquilo que pretendia para o país que já não era o mesmo que herdara de Salazar em 1968.
Os adeptos indefectíveis de Salazar e que gostariam de ver continuada a obra e o espírito do mesmo sem cortes epistemológicos, não perdoam a Marcello Caetano a "evolução na continuidade".
Para esses, como é o caso flagrante de E. Freitas da Costa e outros, não muitos, e que escreveram sobre o assunto, Marcello Caetano foi uma espécie de traidor a essa obra que se organizou em quase 40 anos.
O melhor exemplo dessa corrente imobilista, bem como a explicação das razões para tal, é dado pelo mesmo E. Freitas da Costa no livrinho Acuso, já citado.
A primeira explicação tem a ver, aliás, com acontecimentos dos últimos anos de governo "salazarista" e protagonizados pelo próprio.
Em primeiro lugar a suavização da "mão de ferro". Salazar nunca fora o ditador que agora se apresenta para as crianças aprenderem e se lembra falsamente ao povo, mas a partir dos seus setenta anos amaciou a luva que envolvia aquela e tal seria consequência da perda de energia para lidar com todos os ministérios, uma vez que os da guerra lhe exigiam todo o esforço. Os restantes, foram-se autonomizando mais do que antes.
A seguir, uma remodelação governamental em Agosto de 1968 que terá sido "cozinhada" pelos áulicos que já tinham tomado as rédeas da autonomia que dantes não havia.
Portanto, a conclusão lógica é que o primeiro erro de Salazar foi a concessão de maior autonomia aos membros do seu Governo, em vez de uma maior concentração de poder na sua pessoa e por isso maior autoritarismo, o que aliás já era uma das características do próprio regime.
Os críticos de Marcello Caetano queriam maior ditadura do que a já existente. Isso num mundo ocidental em que a pressão para acabar com as ditaduras, mesmo suaves como a nossa, era já insistente, permanente e que nos colocava em isolamento crescente. O episódio "Maurice Béjart", em Junho de 1968, nada lhes ensinou e julgam por isso desejável e possível tal continuidade sem evolução
Depois, ainda segundo o mesmo e outros, tal efeito amaciador e deletério conduziu ao descalabro, porque permitiu a entrada do cavalo de tróia da execrada renovação, mesmo travestida de evolução na continuidade. Responsável? O "autoritário e orgulhoso" Marcello Caetano que passou a dar preferência aos "áulicos" da nova corte.
Marcello Caetano, para estes fiéis seguidores do salazarismo atávico, mais papistas que o próprio papa ( Salazar desinteressara-se da escolha do seu sucessor, pura e simplesmente), Marcello não era "especialmente dotado" para reiniciar a actividade coordenadora que Salazar perdera com a idade...e havia melhor por onde escolher. Por exemplo, "o Professor João Lumbrales, dr. João Soares da Fonseca, dr. António de Castro Fernandes, dr. Franco Nogueira" , são os nomes apresentados.
Portanto, a partir de Marcello Caetano tudo se desconjuntou e não só as "estruturas" antigas se desagregaram por efeito deletério das ideias "involutivas", como tomaram rumos que futuramente desaguariam na alteração do regime, ocorrida em 25 de Abril de 1974. Culpado principal? Nem é preciso apontar...
Esses antigos defendiam ( e defendem?) um reforço do corporativismo dos anos trinta, um maior esforço da política fiscal sobre os "plutocratas" em embrião que se desenvolveram a olhos vistos e ainda a retoma da velha ideia de império dos anos 40, com a exploração plena de "todas as virtualidades da pluricontinentalidade do nosso território".
Um programa fantástico, claro, no qual nem Salazar já acreditaria se tivesse a idade de Marcello Caetano. É este o realismo fantástico dos salazaristas empedernidos pelo tempo que tinha passado.
Mas...teria Marcello Caetano traído esses ideiais de grandiosidade fátua assente numa ideia fantástica?
Veremos a seguir.