domingo, abril 26, 2015

A língua de trapos não é pátria alguma




 Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. Talvez porque a sensualidade real não tem para mim interesse de nenhuma espécie — nem sequer mental ou de sonho —, transmudou-se-me o desejo para aquilo que em mim cria ritmos verbais, ou os escuta de outros. Estremeço se dizem bem. Tal página de Fialho, tal página de Chateaubriand, fazem formigar toda a minha vida em todas as veias, fazem-me raivar tremulamente quieto de um prazer inatingível que estou tendo. Tal página, até, de Vieira, na sua fria perfeição de engenharia sintáctica, me faz tremer como um ramo ao vento, num delírio passivo de coisa movida. [...]
Não chóro por nada que a vida traga ou leve. Há porém paginas de prosa me teem feito chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noute em que, ainda creança, li pela primeira vez numa selecta, o passo celebre de Vieira sobre o Rei Salomão, "Fabricou Salomão um palacio..." E fui lendo, até ao fim, tremulo, confuso; depois rompi em lagrimas felizes, como nenhuma felicidade real me fará chorar, como nenhuma tristeza da vida me fará imitar. Aquelle movimento hieratico da nossa clara lingua majestosa, aquelle exprimir das idéas nas palavras inevitaveis, correr de agua porque ha declive, aquelle assombro vocalico em que os sons são cores ideaes — tudo isso me toldou de instincto como uma grande emoção politica. E, disse, chorei; hoje, relembrando, ainda chóro. Não é — não — a saudade da infancia, de que não tenho saudades: é a saudade da emoção d´aquelle momento, a magua de não poder já ler pela primeira vez aquella grande certeza symphonica.
Não tenho sentimento nenhum politico ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriotico. Minha patria é a lingua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incommodassem pessoalmente, Mas odeio, com odio verdadeiro, com o unico odio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem não sabe syntaxe, não quem escreve em orthographia simplificada, mas a pagina mal escripta, como pessoa própria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a orthographia sem ípsilon, como escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.
Sim, porque a orthographia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-m´a do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.

* In Livro do Desassossego, fr. 259 (Texto publicado originariamente em "Descobrimento", revista de Cultura n.º 3, 1931, pp. 409-410, transcrito do "Livro do Desassossego", por Bernardo Soares (heterónimo de Fernando Pessoa), numa recolha de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha; ed. de Jacinto do Prado Coelho, Lisboa, Ática, 1982 vol. I, p. 16-17. Respeitou-se a ortografia da época de Fernando Pessoa. :: 25/02/2005


 
O que vale esta frase- "Minha patria é a lingua portuguesa"-?

Fora do contexto em que ficou escrita vale muito pouco e por causa da frase seguinte do texto em que se insere: " Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incommodassem pessoalmente".
No contexto vale um arroubo poético de quem  se deleitou,   fascinado por palavras certas,  alinhadas em frases construídas numa determinada linguagem, neste caso o português e que lhe mostraram  "aquelle movimento hieratico da nossa clara lingua majestosa, aquelle exprimir das idéas nas palavras inevitaveis".
Ultrapassar aquele arroubo pela esquerda baixa ou pela direita alta do palco das vaidades  de uma erudição fátua é erro e moléstia  se repetido.
A pátria não é uma língua, a não ser para quem  nunca a teve ou a perdeu ou a inventa  num imaginário mítico estilizado em frases rebuscadas e prenhes de pedantice.
A escrita fascinante que Pessoa refere é a dos génios das palavras e geralmente aparece publicada  em livros ( ou a publicar porque Pessoa só publicou em vida um livro, A Mensagem, segundo penso).  É a escrita de mestre.  A  que nos extasia  depois de vista e frustra pela ânsia vã de repetição da experiência- "a magua de não poder já ler pela primeira vez aquella grande certeza symphonica".
Pessoa, que também suscita tal fascínio, referia-se à escrita do padre António Vieira e ao seu génio na junção das palavras certas para compor o texto quase musical. 
Há em Portugal alguns autores deste género e que são nos nossos clássicos, passados.  Há outros que se esforçam na busca do efeito mágico   e apenas logram o arremedo.
 E outros ainda,  meros imitadores do efeito e que à míngua  do talento necessário , macaqueiam  ditos alheios, fingindo tão completamente que chegam a fingir como suas as frases que deveras são:   execram desse modo " a pagina mal escripta, como pessoa própria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a orthographia sem ípsilon, como escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse" .
É sobre este preciosismo de imitação que me estou literalmente a cagar, para usar a expressão idiomática mais adequada.E não o faço por desprezo de quem lê, mas porque preciso dessa liberdade para escrever, sem ter um censor a apontar a caganita. Se a escrita está mal, corrijo depois, se calhar e interessar.
Tal não significa que não aprecie textos bem elaborados e  dignos de apreço linguístico, se tal for o caso. Não é o meu e nunca será e por isso,  passo nessa estação de vaidade. Estes textos daqui não são para livros. E só em livros fica mal caganitar erros ortográficos ou expressões sintácticas adversas da correcção linguística.
Quem escreve num blog ou num sítio qualquer, sem pretensões a mestre seja do que for,   pode dar-se ao luxo de dar erros sintácticos ou discorrer em postais mal escritos ideias mal alinhavadas, sem ficar acabrunhado pela idiossincrasia pessoana.  
Quem pensa ou escreve o contrário é apenas um imbecil, neste aspecto e caso concreto e que só não estendo à  totalidade da personalidade porque geralmente não a conheço.
Vem tudo isto a propósito de um artigo que li na revista francesa L´Obs desta semana.


 O editorialista Jean Daniel que dirige a revista há décadas,  discorre sobre a "língua" e na colação traz Camus que teria repetido o dito de Pessoa, com um sentido diverso e mais próximo da vulgata: "oui, j´ai une patrie: la langue française" .

Camus era um "pied-noir" da Argélia então francesa.  Nascera na Argélia, filho de pais franceses que lá estavam, na "colónia".
Era um pacifista, escrevia bem, naquele género apontado por Pessoa e tinha dúvidas.  Segundo escreve Jean Daniel, revela-se num livro recente que  Camus nunca acreditou na integração da Argélia como fazendo  parte integrante  da  "Pátria" francesa  ou sequer na acepção portuguesa de Pátria em relação às províncias ultramarinas, com autonomias evolutivas.  "Il pense sans le dire que l´indépendence est à la fois inévitable e inacceptable".
 Essa ideia foi a que ocorreu a Marcello Caetano, julgo.  Desconfio que Salazar teria o mesmo fim  conclusivo.
 O que deita por terra das ideias políticas aproveitáveis,  a noção  poética que Pessoa transcreveu sobre o nosso Mito.   
A césar o que é de césar; a Deus o que é de Deus. Uma coisa não se deve misturar com a outra, porque a poesia é do domínio da fantasia. Ou do realismo fantástico que vai dar ao mesmo.

Questuber! Mais um escândalo!