A Inquisição Portuguesa, na mão dos Dominicanos, tomou conta do Padre António Vieira, Jesuíta, por volta do ano do Senhor de 1663.
Anos antes, em 1659, o jesuíta tinha escrito uma carta a
André Fernandes, Bispo Eleito do Japão. Essa
carta destinava-se a reconfortar D.
Luísa de Gusmão, a viúva do Rei D.João IV, falecido três anos antes. A essência da carta era a conclusão de que o Rei iria
ressuscitar em breve, para assumir as rédeas e soberania do Quinto Império
Mundial que a nós, povo luso, nos tinha sido destinado desde o início dos Tempos.
Apesar de outras profecias anteriores, assegurando tal
tarefa régia e imperial a um Desaparecido D. Sebastião, o padre jesuíta, então em missão no Brasil amazónico, acreditava
que afinal quem seria Rei viria a ser o resssuscitável D. João IV.
E quem inspirara o padre jesuíta nesta premonição
fantástica? Um humilde sapateiro de Trancoso chamado Bandarra, falecido cerca de cem anos antes e que escrevera trovas a tal propósito, revelando o prognóstico
críptico: a conversão universal do Mundo, "com a destruição do Turco e
conquista da Terra Santa por meio de um rei de Portugal". Nem menos. "O Reino de Cristo consumado na Terra por meio
de um Rei Português" . E que rei? Primeiro, D.
Sebastião, o grande Desejado. Depois, à míngua do seu aparecimento tempestivo, D. João IV que ressuscitaria de propósito
para tal empreendimento, o que fora prenunciado por métodos quase científicos pelo crente padre jesuíta.
Finalmente, perante a evidência empírica da falência
presciente, quem viesse a seguir.
No caso, calhou a D. Afonso VI e é a ele que o padre
jesuíta, grande escritor português, entre os maiores, dedica os seus estudos
acerca das profecias do Bandarra e interpretações peregrinas, já com a
aproximação da data fatídica de 1666.
O Tribunal do Santo
Officio não achou Graça nisto e suspeitou de heresia, processando o padre
jesuíta que se defendeu durante os meses de cativeiro ( em prisão
preventiva...). Escreveu então a parte
essencial da sua tese sobre o Mito nacional, à ilharga do que o sapateiro
Bandarra tinha escriturado em verso como prognóstico do nosso futuro.
O padre António Vieira glosou tais escritos como se
fossem uma História do Futuro, adaptando-os
a uma verdadeira História do Reino de Cristo consumado na Terra por portugueses
e à mão de um Rei português.
Estas considerações são plagiadas do livro A História do Futuro, Padre António Vieira, recentemente editado pela Temas e Debates.
Estas considerações são plagiadas do livro A História do Futuro, Padre António Vieira, recentemente editado pela Temas e Debates.
O Padre António Vieira, acossado pelo Santo Officio teve o cuidado de resolver a coisa a contento: há um Império à nossa espera e é o de Cristo, sendo terreal e ao mesmo tempo espiritual. Quem o comandará será um Rei Português e quanto ao problema magno de haver um Povo que já se intitulava escolhido, a questão resolvia-se facilmente: seria convertido, sem margem para dúvidas, ao nosso entendimento cristão. Como? Falta saber porque faltou tempo ao padre António Vieira para explicar, o que faria noutro livro sobre os judeus. Na época estes eram muito mal vistos e o Santo Officio também zelava por isso.
Para melhor explicação e encurtar razões, em vez de transcrições morosas,
ficam os "recortes" de scanner, mais fiéis e certeiros, sem erros
ortográficos nem pompa nas frases feitas, de seis páginas que constituem o índice parcial das grandes questões de que trata o livro:
Em resumo: o Quinto Império é o de Cristo e é ao mesmo tempo espiritual e material, tendo um Rei Português como Imperador Universal.
A Igreja Católica não gostou muito desta versão messiânica sobre o Futuro de Portugal, porque desconfiava que envolvia também outras gentes e tradições, pouco estimadas na época e que não apreciavam Cristo por aí além. E por isso, sentenciou o Padre: … seja privado para sempre da voz activa e passiva e do poder de pregar…"
E de facto, isto assemelha-se demasiado à Cabala Cristã...
Do livro L´Ésoterisme, de Pierre A. Raffard, Bouquins, Robert Laffont, 1991.
E de facto, isto assemelha-se demasiado à Cabala Cristã...
Do livro L´Ésoterisme, de Pierre A. Raffard, Bouquins, Robert Laffont, 1991.
Não obstante, estas ideias que já estavam enraizadas na crença popular, germinaram e deram pano para mangas já no século XX.
Em 1914 um poeta que ocupava os dias na Baixa de Lisboa retomou a saga e acrescentou-lhe uns pontos importantes que refizeram o Mito antigo, agora rodeado de outros de origem perversa e nada católica.
O melhor é deixar a explicação por conta de quem sabe e estudou. António Quadros publicou em 1960 Fernando Pessoa, a obra e o homem, com uma nova versão em 1981. É desta última que se respigam as páginas seguintes:
Esta novíssima mitologia do Encoberto e suas variantes místicas, de cristã já tem muito pouco e os acrescentos pagãos remetem para o super Homem que há-de vir, um dia, numa manhã de nevoeiro...
Nas décadas seguintes esta mitologia assentou arraiais. Em 1928 escrevia " Tudo é disperso, nada é inteiro/ Ó Portugal, hoje és nevoeiro.../ É a Hora!"
Este alento esotérico pegou de estaca no imaginário dos ideólogos salazaristas mais salazaristas que Salazar, como E. Freitas da Costa e ainda perdura.
E no estrangeiro como é que se olham estes mitos e lendas?
Em Abril do ano passado a revista francesa L´Histoire tentava explicar estes fenómenos portugueses a outra luz, mais distante.
Primeiro o mito fundador. o milagre de Ourique, em que cinco reis são derrotados pelo nosso primeiro rei. Segundo o historiador do mundo muçulmano, Gabriel Martinez-Gros, os cinco reis são...cinco governadores almorávidas. Sobre essa grande batalha, os magrebinos nem guardam memória escrita, enquanto preservam a de outras da mesma época.
Sobre as nossas conquistas a perspectiva também se configura de modo um pouco diverso , se lermos o que diz Sanjay Subrahmanyam, professor no Collège de France.
E sobre os mitos? Também há uma explicação: " as viagens ditas de "Grandes Descobertas" são realizadas por homens cuja visão do mundo ainda era a medieval. "
Outros historiadores esclareceram outros motivos, religiosos e messiânicos. Muitos historiadores portugueses recusam esta explicação que entendem, mal, ser de extrema-direita. Mas é preciso compreender que as motivações no séc. XVI eram diferentes e que os homens de então nem sempre eram racionais...