segunda-feira, abril 27, 2015

Portugal e o futuro das guerras em África




 Robert McNamara  foi Secretário da Defesa Norte-Americana durante o período ( 1961-1968) de guerra no Vietnam  que coincidiu com a nossa Guerra no Ultramar e serviu nos governos de Kennedy e Johnson.
Em 1995 escreveu Retrospect, uma biografia na qual declarou explicitamente que a aventura da guerra do Vietnam fora um tremendo erro dos EUA.  "We were wrong, terribly wrong. We owe it to future generations to explain why, disse sem papas na língua da sua pátria.

Nessa mesma altura, Portugal, sob Salazar recusou liminarmente qualquer entendimento táctico ou estratégico com os EUA no sentido de se resolver o problema do Ultramar, nomeadamente acabar com a guerra que se afigurava longa, difícil e custosa em termos humanos e materiais.
Em Portugal os que ousavam defender o diálogo com os americanos, no sentido de um pacto ou aliança estratégica, eram simplesmente censurados literal e moralmente. "Portugal não estava à venda" foi o chavão encontrado para vender a ideia simples e básica.
Os defensores do isolacionismo, que ainda perduram entre nós,  vêem nos EUA a imagem do Mal e no isolacionismo português o exemplo da virtude suprema e digna de apreço , motivo pelo qual continuam a venerar Salazar por isso e a execrar furiosamente quem se lhe opunha nessa matéria, incluindo os que chegaram àquela conclusão que afinal se afigurava lógica e premente. Era o caso de Marcello Caetano e vários chefes militares, como foi Spínola para quem a conclusão era lógica e sem espinhas.
Pelo contrário,  Salazar e um punhado de fiéis que provavelmente se contavam pelos dedos de uma só mão, tinham obstinadamente recusado, desde o início dos confrontos,  qualquer entendimento que pudesse  salvar a face de Portugal e dos portugueses nessa guerra, preservando o essencial dos interesses materiais e morais. Precisamente porque encaravam tal entendimento como a capitulação suprema e a vergonha inominável, à semelhança dos antigos guerreiros  japoneses, samurai,  cuja honra se media pela ideia de vitória e só por ela e a desonra pela entrega ao inimigo, preferindo-lhe a morte com as tripas à mostra.
Este entendimento esotérico da vida pode ter uma explicação igualmente misteriosa mas pode simplesmente derivar de uma incapacidade natural em compreender um sentido da existência diverso daquele, sacrificial.

Em 1961 havia portugueses que pretendiam discutir alternativas à guerra que se afigurava inútil a  medio ou longo prazo e, tal como McNamara reconheceu décadas depois, um erro fatal  em particular por causa  do "delay in acting on growing doubts that the war could be won."

Ainda hoje há quem defenda que a "guerra em África não estava perdida", como é o caso do respeitável tenente-coronel piloto  aviador  Brandão Ferreira, em livro recentíssimo- "Guerra d´África, 1961-1974-Estava a guerra perdida?". 

É claro que o prognóstico é póstumo, com entrevistas a 22 personalidades, principalmente militares, o que retira alguma validade intrínseca à afirmação uma vez que "quod erat demonstrandum" ou seja a guerra foi mesmo perdida por desistência nossa, nas condições que são mais ou menos conhecidas. 
A acreditar no que os americanos fizeram no Vietnam, a braços com uma guerra de guerrilha em que parte de um povo autóctone resistia de dentro a um  ofensiva de fora,  será caso para dizer que a nossa  guerra no Ultramar estava para lavar e durar.  E se não estava efectivamente perdida a breve trecho, não estava seguro ou garantido que estivesse ganha, a médio ou longo prazo,  o que faz toda a diferença.
E  é aqui que aparecem outras formas de encarar o problema e outras perspectivas que merecem ser estudadas ou lidas.
No ano passado foi publicado um livro com textos organizados sob a orientação de  Manuel Bandeira Jerónimo e António Costa Pinto - "Portugal e o fim do colonialismo.Dimensões internacionais",  Edições 70.
Um dos capítulos - A África do Sul face à "descolonização exemplar" portuguesa- é assinado Filipe Ribeiro de Meneses e  Robert McNamara, um homónimo daquele, da Universidade de Ulster.
Ficam apenas as páginas essenciais que respeitam  ao modo como nos relacionamos com a África do Sul dos brancos afrikaners e aos erros que estes também terão cometido na análise do que se passava por cá e por lá... 














 Como se pode concluir, para muitas pessoas que percebiam do assunto, a guerra no Ultramar não tinha hipóteses de ser ganha em termos estritamente militares, o que é ligeiramente diferente de "estar perdida".  E portanto, o futuro implicava negociações ou a capitulação como os americanos sofreram no Vietnam, com retiradas precipitadas e helicópteros a rodar hélices no topo de edifícios, à pressa e deixando tudo para trás.

Entre nós aconteceu o mesmo por motivos semelhantes, ou seja, por abandono das nossas tropas e entrega política de alguns figurões que ainda por aí andam a pavonear a desmemória e a fazerem figuras tristes.

Não obstante, se Salazar tem pensado de modo diferente e feito de maneira diversa, o que teria sucedido? Teríamos necessidade de um 25 de Abril de 1974? O comunismo e o socialismo teriam a relevância que têm na sociedade portuguesa pela influência esquerdizada que ainda se mantém em Portugal, em todos os sectores, principalmente culturais e informativos?
Acho que não.
Teria Salazar lido Maquiavel? Do Príncipe:

Tendo o príncipe necessidade de saber usar bem a natureza do animal, deve escolher a raposa e o leão, pois o leão não sabe  defender-se  das armadilhas e a raposa não sabe defender-se da força bruta dos lobos. Portanto é preciso ser raposa, para conhecer as armadilhas e leão, para aterrorizar os lobos.


  E ainda do mesmo Maquiavel, "to whom it may concern": 

 Creio que um dos princípios essenciais da sabedoria é o de se abster das ameaças verbais ou insultos.


ADITAMENTO:

E em Portugal, Salazar o que pensava disto, no início da década de sessenta, com a guerra já aberta no Ultramar?
Franco Nogueira, o ministro mais fiel de Salazar escreveu um livro em 1986, intitulado Um político confessa-se ( diário 1960-1968).
Algumas páginas sobre o assunto:

  


Conclusão? Impasse completo, Numa noite quente de Agosto de 1963 Salazar proferiu o dictate final: nada feito, com os americanos.  Nenhuma negociação. Nenhuma autodeterminação para as províncias. Angola é nossa e Moçambique também. Para sempre.
Os americanos querem o quê? Trazer coca-cola para cá e pagar bolsas de estudos aos nossos? Isso é que era bom!

E foi assim que se foi ao "extremo limite da flexibilidade e das concessões"...

Em 1974, estourou o "cano de esgoto", mas...quem o andou a furar aos poucos, com estas negociações que foram ao "extremo limite" ?

Quem definiu melhor o modo de Salazar fazer política relativamente a estes assuntos foi um americano:
 Para o secretário de Estado adjunto de então, George Ball, Salazar elaborava a política externa de Portugal "como se o Infante D. Henrique, Vasco da Gama e Fernão de Magalhães fossem os seus conselheiros mais próximos".

Alás, sobre a clarividência de Salazar nesta altura ( Setembro de 1964) em que já manifestara abertamente a vontade de "ir embora" é elucidativa esta passagem em que Salazar vaticina o futuro de uma Espanha após Franco:


Questuber! Mais um escândalo!