segunda-feira, 17 de agosto de 2020

A Aliança Democrática de 1980

Nas eleições intercalares de Dezembro de 1979 a coligação Aliança Democrática teve uma maioria absoluta e governou durante um ano, até novas eleições em Outubro de 1980.
Nesse mesmo ano ocorreria a eleição presidencial, em Dezembro de 1980 que veio a resolver-se com a morte de Sá Carneiro e o desaparecimento de tal coligação e correlativo projecto de poder.

Tal como a esquerda entendia- e bem- a AD constituía o mais sério obstáculo político à hegemonia de tal esquerda no espectro político e que essencialmente abrangia o PS, o PCP e as forças de extrema-esquerda, ou seja a geringonça avant la lettre.
Só por isso se percebe a importância que tal projecto poderia ter assumido no caso de Sá Carneiro não ter perecido em Camarate, no interior de uma avioneta Cessna pertencente a um empresário de Braga.

Em 18 de Janeiro de 1980, o Jornal mostrava a dimensão de tal projecto que aterrorizava a esquerda.


As análises económicas eram surreais e mencionavam o "liberalismo" só porque se pretendia libertar a economia portuguesa do espartilho marxista gizado nos anos anteriores.




 Nessa altura ( Março de 1980), apesar de os transportes estarem quase todos debaixo da alçada do Estado, mormente os ferroviários e boa parte dos rodoviários, o que sucedia era isto, sistematicamente, por esta altura do ano em que se discutiam os acordos colectivos de trabalho:



Por outro lado, discutir a possibilidade de privatização de bancos ou segures era quase tabu e sê-lo-ia por muitos mais anos, até Mário Soares ( sim, depois de 1980 voltou ao poder de fabricar bancarrotas) convidar Ricardo Espírito Santo Salgado a regressar a Portugal e retomar o BES, com dinheiro emprestado pelo Crédit Agricole e uma mãozinha da esquerda de Miterrand.

O Jornal 28.3.1980 mostrava o que a AD pretendia fazer desde logo:



O Jornal de 21.3.1980:


Estas ideias da AD, tidas como o cúmulo do liberalismo avant la lettre de Tatcher eram vistas como inadmissíveis porque "as nacionalizações eram irreversíveis"...

O Jornal 21.3.1980:


Para além disso havia outros sectores que era necessário mudar e a esquerda nem pensava em tal eventualidade. Expresso de 15.3.1980, artigo assinado por M.R.S., o actual presidente da República:


Para entender a mentalidade do tempo basta ler uma entrevista ao O Jornal de 28.3. 1980 do decano dos economistas socialistas, pai espiritual dos Constâncios todos que então apareceram e que defendiam as mesmíssimas ideias. Porventura ainda defendem...

É incrível o que se poder ler nesta entrevista de Jacinto Nunes e que explica as nossas bancarrotas. Afinal quem as provocou foi gente como esta...e este documento é verdadeiramente um compêndio da inépcia e incompetência socialista que a AD de Sá Carneiro arrumaria de vez no caixote de lixo da História se tivesse tido tempo para tal.


Toda esta situação de mudança nas estruturas económicas só seria possível com uma alteração profunda da Constituição.

Ainda assim, como mostra este recorte de O Jornal de 3.4.1980 o que a AD pretendia ficava ainda longe de qualquer liberalismo mas já era arrojado para a época. As "mudanças" eram tímidas:


Ainda assim a esquerda que tínhamos que é igualzinha à que continuamos a ter, com o acrescento da metástase extrermista e radical, por via do manhoso primeiro-ministro que nos calhou em rifa, esfarrapava-se em indignação do tipo Público:


O que é que então acontecia com os órgãos de poder democrático? Havia o Parlamento com maioria absoluta, um Governo que queria reformar o marxismo económico que nos asfixiava e nos tinha conduzido a uma bancarrota ( e em breve a uma segunda...) e um presidente da República- Eanes- que não ajudava nada porque era de esquerda também.

O Expresso de 3 de Maio de 1980 mostrava bem o que se passava em Belém: boicote à AD, sistemático.


Sá Carneiro também queria algo que o PS de Mário Soares veio a desejar alguns anos depois e foi a solução para finalmente se rever a Constituição marxista que tínhamos e a Esquerda global não permitia que se mexesse. Expresso de 13 de Junho de 1980:


Neste contexto só um presidente da República sintonizado com a maioria que não fosse de esquerda radical serviria o propósito reformista.
 A AD precisava de encontrar um candidato que vencesse Eanes. O Jornal 14.3.1980:


Em Abril já se sabia quem seria e o  nome escolhido suscitou logo reservas.






Ao longo da campanha surgiram problemas com o perfil do candidato que determinaram a sua derrota eleitoral em Dezembro.

O Jornal 20.6.1980. no começo da campanha eleitoral:



Sá Carneiro e a AD escolheram um nome para candidato e Soares Carneiro  revelaria ser o waterloo do projecto AD. Um erro grave e fatal de Sá Carneiro e o Expresso de 10 de Maio já o anunciava claramente.



Esta previsão acertou em pleno. Porquê?  Porque a esquerda traçou um retrato implacável do candidato cuja imagem não ajudava nada a ultrapassar os handicaps de origem, com um discurso entaramelado e sem qualquer carisma, essencial numa eleição destas.

Mas não foi apenas Soares Carneiro que foi vilipendiado pela Esquerda dos muitos Públicos que então havia.
Havia uns social-democratas que se punham ao lado da esquerda radical, tal como hoje acontece. O Jornal 9.5.1980:



Em Julho surgiu isto nos jornais, particularmente neste que era o Público dessa altura, ajudando o outro - o diário do PCP- que tinha como lema "a verdade a que temos direito"...





Em Outubro, no fim da campanha eleitoral para as legislativas o ambiente estava ao rubro e a Esquerda temia o pior. Por isso a propaganda era maior e punha as fichas todas em cima da mesa:


Quanto a Sá Carneiro nem foi a debates, como acontecera alguns anos antes, num dos célebres " olhe que não..."



O que sucedeu?  O pior pesadelo da Esquerda: a AD aumentou a maioria. Como é que reagiram? Com despeito...


E o que sucedeu a Sá Carneiro depois disto e nos dois meses seguintes até à eleição presidencial?  É o que veremos a seguir...

Sem comentários:

Miguel Sousa Tavares, outro tartufo