quarta-feira, 5 de agosto de 2020

França e Portugal, final dos anos sessenta

Do que se pode ver em documentos de época, como jornais e revistas, o Portugal de 1967 ainda era um país bastante atrasado em relação, por exemplo, a França, aliás um dos destinos preferidos da nossa emigração.

Para nos actualizarmos e sabermos como era "lá fora" tínhamos os media que mostravam o pedaço de mundo que lá existia e tardava em cá chegar.
Por causa da emigração eram os que de lá vinham, em férias ou períodos festivos que nos mostravam ao vivo e a cores as modas que só chegariam cá meses ou anos depois.

Em 1967 tal diferença, vista através de duas revistas, era assinalável.

A Paris Match de 21 de Outubro de 1967 mostrava-nos o que por cá ainda não se via.


A história da morte de Che Guevara ainda estava quente, porque ocorrida dias antes ( em 8 de Outubro) e a revista, através do seu repórter de estimação, Jean Lartéguy interrogava-se sobre a realidade de tal acontecimento, sugerindo que a imagem do cadáver era demasiado perfeita e semelhante ao próprio, podendo não ser verdadeira.


Este tipo de reportagem não era possível para os media de cá, por falta de meios, de todo o género. A solução era, por isso, copiar e publicar o que outros já tinham. Isso em quase todos os domínios, havendo por isso uma colonização cultural que ainda perdura.

Por outro lado, a influência cultural era sentida por cá, vinda também de França, ainda antes de Maio de 1968 mas já pujante no esquerdismo dos autores que se liam por cá.

Eventualmente o maoismo que fundaria depois o MRPP teria a sua origem tanto em experiências orientais ( Macau, onde esteve Arnaldo Matos) como francesas, através dos intelectuais da moda, particularmente Sartre.

A Paris Match no entanto publicou esta página sobre tal fenómeno que mostra bem as contradições da época sobre tal assunto. Já se notava o esforço revisionista e que acabou por se impor na China dos tempos que correm, através da adopção de modelos capitalistas de produção, então muito criticados, como contra-revolucionários. O modo como se perseguiam os renegados lembra os métodos do MRPP da Maria José Morgado, por exemplo, meia dúzia de anos depois.
Portugal até nisso andava atrasado...:


O que se evidenciava nas páginas da revista eram as publicidades a produtos de consumo corrente e que por cá ainda não existiam como fenómeno alargado, a começar pelas páginas coloridas e ilustradas das revistas. Por cá, as revistas ainda eram a preto e branco, com meia dúzia de páginas a cores, incluindo as capas e contra-capas.



Cá, a revista que se assemelhava era o Século Ilustrado ( e a Flama) cujo número de 18.11.1967 mostrava bem a diferença:






O regresso dos emigrantes, de primeira geração, ao país na altura das festas era acontecimento de vulto porque eram aos milhares e milhares, como mostra esta edição do Século Ilustrado de 26 de Dezembro de 1970:


Como é notório essa primeira geração ainda não tinha sido submetida a aculturação suficiente para modificar hábitos ou modos de vestir.

Porém, a aculturação propriamente dita nos costumes culturais, essa começou bem cedo.

Na edição daquela revista, de 1967, aparece este artigo com duas páginas que dava conta do nec plus ultra em matéria de música popular.

O repórter "Flipie" já lia muito bem a revista  Rock & Folk, aliás saída em França no ano anterior e publicava um artigo sobre a folk music norte-americana da autoria de um especialista francês, Jacques Vassal.


Aliás a revista era um viveiro de aculturados pela França:


Como curiosidade e sintoma da já notória arrogância esquerdista,  nota-se o apontamento depreciativo sobre um single do cantor Marco Paulo que então adaptou a cantiga San Francisco, de Scott Mackenzie, um sucesso desse mesmo ano, em todo o mundo.

Para se ver a cabotinice da crítica aqui fica o tema em causa, que não deslustra nada o cantor. Antes pelo contrário...



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