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terça-feira, 29 de maio de 2012

O caso Relvas é um fait-divers. O sistema não.


Pedro Lomba, hoje no Público, acha que não se deve condescender no caso Relvas como muitos condescenderam nos vários casos Sócrates.
Precisamente por isso: o que dantes custou ao país e às instituições não deve repetir-se porque o preço já foi elevado.
Critica por isso a menorização e relativização do caso Relvas que assenta no mesmo fenómeno de condescendência acrescida.
Pedro Lomba teria razão se o caso fosse assim tão simples. Mas não é.
A “sujeira” a que se refere, herdada do consulado Sócrates não é uma imundície de circunstância.
É mesmo uma porcaria estrutural, encastoada no sistema político-social.
Defenestrar Relvas, agora, neste ambiente pestilento, é apenas varrer a porta de entrada, deixando a loja toda na mesma, infestada de ratos, pulgas e percevejos.
Relvas é o exemplo mais notável de como se faz política partidária em Portugal nos tempos que correm. E por contraste da dificuldade em poder fazer-se de outro modo.
O que é que levou Relvas ao poder, como antes dele tinha levado um Jorge Coelho ou até um Paulo Portas? Ou um Pina Moura, ou um Montenegro, ou um Zorrinho?
O desejo legítimo de um serviço cívico público? A vontade explícita de solucionar problemas comuns na sociedade portuguesa? A capacidade de encontrar mecanismos políticos e sociais tendentes à melhora da vida de todos?
Isso serão os desejos úteis , proclamados em retóricas contundentes ou encantatórias no discurso político. São esses cantos de sereia que convencem eleitores e granjeiam legitimidade democrática. Imbuídos dessa aura pessoal, os políticos convencem-se que o poder lhes é devido por direito próprio e arrogam-se por isso direitos que se desviam da função essencial: servir as pessoas e o país que governam.
Relvas e muitos outros entendem o poder que têm, também como uma oportunidade  de vida- e de  melhorar substancialmente a que têm. A embriaguez do exercício vicia e por isso profissionalizam-se no hábito a que ficam agarrados.
Neste interstício entre o dever e a oportunidade surgem as ocasiões e como diz o povo, os ladrões.
Nesta função dialética  entre o ser e o não ser, a questão que se coloca é: como se controla quem manda e se viciou no exercício de mandar democraticamente?
É neste ponto que assenta o problema de fundo do caso Relvas.
A condescendência para com os políticos e os actos visíveis que estes praticam não se revela apenas em episódios singulares  como este de agora. Revela-se principalmente na condescendência geral para com todo o sistema paralelo de legitimidade democrática.
Como é que em Portugal se escolhem as pessoas que mandam, na política, nos partidos, instituições, empresas do Estado, comissões, grupos de influência…etc. etc.?
Não há condescendência que resista a uma análise simplista e evidente: escolhem-se do modo que se conhece. Ao voluntarismo de alguns, segue-se a escolha individual dos candidatos aos lugares, pelos grupos organizados ou informalmente constituídos na sociedade. A opção eleitoral que se segue é apenas a mera ratificação formal da escolha prévia que escapa a esse controlo democrático.
A “grupos da sueca” sucedem-se conspirações de sótão, opções inadiáveis, alternativas democráticas, vários “istas” com nome próprio em prefixo, agremiados lusitanos, grandes orientes, lojistas em concorrência desleal porque secreta e grupos de influência avulsa, em lobby informal.
O elenco poderia estender-se em busca da resposta simples à pergunta complexa:
Quem manda no poder, em Portugal? Relvas é uma das consequências deste fenómeno. Um puro produto deste sistema. Ascendeu no partido por mérito próprio, mas que mérito foi esse exactamente? O de ganhar eleições nos órgãos internos? Como? A habilidade em lidar com pessoas e a inteligência em saber gerir relações individuais e pessoais?
É neste nível de actuação que se verifica a condescendência mais grave e solene. E insusceptível de sindicância. Os relacionamentos individuais e os “sistemas de contacto” acabam por ligar pessoas por afinidades electivas. Politicamente, os simpatizantes do grupo partidário ou o que logrou conquistar a parcela de poder mais importante agregam-se em torno de interesses comuns, principalmente o de conquistar o poder e mantê-lo.
Quem é que no sistema de partidos não actua desta forma? Aliás, haverá outra?
Alguém deve ficar surpreendido por Miguel Relvas ou Jorge Coelho ou outro qualquer manobrador político de topo se interessar por conhecer pessoas que podem ajudar a conquistar e manter esse poder?
Neste âmbito, para quê admirarem-se em surpreender o conhecimento de Relvas com pessoas dos serviços de informações, com a pertença a maçonarias, com  o relacionamento e conhecimento necessário às nomeações para cargos políticos ou de confiança política?
Poderá isso funcionar de modo diferente? Aliás, será que funciona de modo diferente com os restantes políticos, do leque partidário que temos?
Quando se escolhem nomes de pessoas para cargos no Estado o que pretendem os que estão no poder? Preferencialmente quererão os mais competentes, mais aptos,  mas entre competências semelhantes quem vão escolher na prática? Obviamente os que lhes permitam manter o poder político. Os que se lhes afiguram de maior confiança…política.
Como é que poderia ser diferente? Aliás, deveria ser diferente?
Neste contexto, o caso Relvas tem uma dimensão diversa da que lhe pretendem imputar.
Onde é que reside então o motivo para se recusar a condescendência de que escreve Pedro Lomba?
Apenas nisto: a condescendência é geral relativamente ao problema de fundo da política portuguesa e perante a extrema dificuldade em alterar o sistema vigente, aproveita-se qualquer fait-divers que permita apanhar o político “ a descer” e embala-se o mesmo na onda de descrédito empolado e artificial com vista a atingir o objectivo que não se alcança com a limpeza geral que o país carece.
Essa actividade venatória de caça ao político reveste por isso mesmo uma vertente hipócrita e eminentemente mentirosa porque  centrada no aspecto residual do problema de base e de fundo: o nosso sistema político.
Por isso, neste contexto,  mais vale ser condescendente com o Relvas por causa deste fait-divers do que ser condescendente com o sistema que gerou os Relvas que temos tido.
Porque é esse o verdadeiro problema.

10 comentários:

Carlos disse...

Seja bem-vindo de novo ao país real, José.

Floribundus disse...

o rectângulo está longe de ser um país minimamente civilizado, sobretudo nas classes dirigentes.
principalmente os gangues de esquerda e centro-esquerda.
são no sentido mais pejorativo 'pretos pintados de branco'.
com todo o meu respeito pelos seres humanos de todas as core e a muita amizade que me liga a muita gente de cor mais escura que a minha. só me interessa a cor de dentro.

Relvas é apenas uma diversão para esconder a porcaria anterior que estamos a pagar

Carlos disse...

Ó Relvas, ó Relvas,
Badajoz à vista,
sou contrabandista de amor e saudade
e trago no peito a minha irmandade.

zazie disse...

Excelente.

lusitânea disse...

O "sistema" é um grupo de amigos que depois organiza umas chapeladas com base em "secções" fantasma e que "democraticamente" somos convidados a eleger.Eleitos tratam da sua vidinha e da de quem os financiou aproveitando a oportunidade de disfarçarem a sua nefasta e traiçoeira acção com o salvamento do planeta que na realidade é africanizarem o zé povinho.E devemos-lhes estar muito agradidos porque as "conquistas" foram muitas, apesar de terem sido a crédito...

Silva disse...

Talvez haja alguma pertinência comparar a "chose" àquele conhecido
molho de vides constituido por diferentes varas. Contudo ,de tão unidas e ajustadas umas às outras , formam um molho tão resistente , que ninguém consegue quebrar.
Um Relvas , perdão , uma vara partida e separada do molho (sistema) , poderia ser o início ...

josé disse...

Poderia se o Relvas fosse uma vara mestra. Mas não é. Parece-me apenas um oportunista simpático que procurou fazer a sua vidinha aproveitando os defeitos do sistema.

Os verdadeiros varas não são os Relvas. São os Balsemões.

Carlos disse...

"Balsemões" podem é ser a batuta, varas é mais para os operacionais do gamanço.

Por falar nisto: O Relvas já demitiu o Passos Corleone?

josé disse...

Os Relvas, sendo Varas, têm maior protecção do sistema. Vão para administradores da CGD e fazem fortuna à vista desarmada.

lusitânea disse...

Tentem obrigar os democratas a listarem no TC os seus "militantes" para nós vermos quem é quem...ou antes a fonte da legitimação...