quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Beethoven, músico alemão de Viena

 Faz hoje 250 anos que Beethoven foi baptizado como Ludwig, em Bona. Segundo alguns dizem poderá ter ascendência ibérica...e tal soube lendo quem saberá mais e melhor. Por exemplo António Victorino d´Almeida que assim o escreve no livro de 2008, Toda a Música que eu conheço

Confesso que não conheço o músico tão bem como alguns mostram conhecer nos artigos sobre a efeméride publicados por estes dias. E muito menos a sua música em plena extensão da obra e ainda muito menos sob o ponto de vista da musicologia que é outra arte. 

O que conheço de Beethoven é quase tudo de ouvido e por ouvir dizer, ou ler. 

Comecei por ouvir falar de Beethoven e escutar alguma da sua música ( estou a ouvir a  Missa Solemnis enquanto isto escrevo) ainda nos anos sessenta do século passado porque tinha professores que gostavam da música "clássica" e obrigavam os alunos a escutarem algumas peças significativas como a Nona Sinfonia e outras. 

Na altura era um sacrifício que durava o tempo da música passar porque era preferível escutar "modinhas" ou mesmo a adaptação de trechos como o "hino à alegria" que aliás foi um êxito discográfico no ano de 1970 por Miguel Rios e a orquestra de Waldo de Los Rios. 

Só muitos anos mais tarde a música de Beethoven passou a representar quase uma alegoria da música clássica. 

Em 1971 surgiu um filme chamado Laranja Mecânica cuja banda sonora não passava ao lado do cartaz que o anunciava mas só passaria em Portugal em finais de 1974, por causa da censura. 



A imagem do cartaz de cinema ( tirada da Net porque é virtualmente impossível encontrar um anúncio ao filme, de 1974 com tal imagem) diz o que era preciso dizer para suscitar curiosidade pela música de Beethoven: um maluco e marginal que se sentia motivado pela música de Beethoven. A banda sonora do filme tem mais que Beethoven e deste compositor tem partes resumidas da nona sinfonia, incluindo o 2º movimento que é "molto vivace" mas não me alegra tanto como o seguinte que é um "adagio", absolutamente estonteante e possivelmente a minha música preferida de sempre, agora que conheço outras. 

Nos anos setenta do século que passou a música clássica tinha expressão frequente na televisão e um dos programas em que tal era tema chamava-se A Música e o Silêncio, gravado pelo autor, António Victorino d´Almeida, em Viena onde se encontrava como adido cultural anos antes de 25 de Abril de 1974. 

Apesar da temática era um programa popular pela dinâmica de montagem e apresentação e é natural que tenha ouvido falar de Beethoven num dos programas. O autor publicou em 2008 o referido livro em que consagra dezenas de páginas a Beethoven. Algumas delas:



A opinião de um musicólogo sempre vale mais do que a de um leigo que apenas aprecia os sons e ainda assim  foi reparando ao longo dos anos na importância que a figura do compositor foi assumindo quase como paradigma da música clássica. 

Nos anos setenta a audição de obras musicais de Beethoven estava limitada ao que se poderia ouvir nos discos, geralmente em tiragem limitada devido às relativamente modestas quantidades de venda ou então em concertos televisivos que de vez em quando passavam, a preto e branco e som de transistor de muito baixa fidelidade. O rádio da Emissora Nacional também poderia servir, mas era incerta a programação. 

Os programas culturais televisivos, como aquele, também ajudavam e em determinada altura havia os Concertos para Jovens e  assim O Mundo da Música, do maestro Leonard Bernstein,  passou a livro editado por cá, pela Livros do Brasil e que tem um capítulo dedicado a análise da Quinta Sinfonia e do célebre primeiro andamento. 

Este andamento às quatro pancadas repetidas inspiraram Chuck Berry para Roll over Beethoven, nos anos cinquenta e depois outros grupos como os ELO,  o copiaram, neste caso em 1973

Em 1974 este grupo publicou o lp Eldorado que me impressionou no mesmo sentido porque foi a primeira vez que ouvi o som rock da guitarra eléctrica literalmente misturado com instrumentos de corda, sinfónicos,  em tom harmonioso e fantástico. 

Por causa dessa memória sonora é o disco que tenho em maior número de exemplares por causa da prensagem e da edição que me fizessem recordar e reviver a sensação de o ouvir pela primeira vez num rádio Grundig transistorizado em 1974...

Foi preciso comprar oito discos diferentes para concluir que a melhor versão é a original, com prensagem inglesa.


Com a música de Beethoven aconteceu a mesma coisa, particularmente os cinco concertos para piano e orquestra. 

A partir de finais dos anos oitenta, com o advento do cd tornou-se mais fácil aceder a gravações musicais da obra de Beethoven, por diversos intérpretes e com a possibilidade de ouvir  um infindável acervo de gravações disponibilizadas na internet, em plataformas como o You Tube, foi possível comparar versões e mais versões deste e daquele maestro e escolher a que mais se torna agradável ao ouvido. 

Durante muito tempo a versão preferida dos cinco concertos era a de Daniel Barenboim que até tinha uma gravação em blu ray saída em 2009. 

Porém,  a facilidade de comparar versões musicais na internet revelou que afinal havia outros entre os quais os dois nomes que actualmente prefiro: Glenn Gould e principalmente Friedrich Gulda, quase inultrapassável porque afinal também há Wilhelm Kempf . 

Enfim, escolhas múltiplas e que agora são possíveis de ouvir com um computador, um dac apropriado e uma ligação a aparelhagem de alta fidelidade. 

Pouco mais há a desejar neste capítulo porque a oferta disponível é simplesmente impressionante, rápida e de qualidade geralmente superior, mesmo sendo gravação digital. 

Mesmo assim ouvir o segundo andamento do Imperador ( concerto nº 5 para piano e orquestra) com música tirada do vinil é simplesmente divinal nas alturas certas. E comparar aquelas versões...acrescenta valor e dimensão. 

Tudo depende do valor e importância da cadência, da sensibilidade do toque nas teclas e no ritmo imposto à orquestra. 

O que Gulda faz nesse capítulo, com uma simplicidade desarmante é simplesmente impressionante e maravilhoso...mesmo comparado com o que Kempf consegue fazer. 


Todo este mundo de possibilidades começou no final dos anos oitenta com o aparecimento do cd. Se em 50 anos o mundo e este campo específico da arte musical e comércio subjacente mudou muito, nos últimos 30 anos mudou ainda mais com tal fenómeno. 

Não me recordo nem consegui detectar em publicações da altura, de 1970 qualquer espavento dado aos 200 anos do nascimento de Beethoven ao contrário do que agora acontece com os 250 anos...

Em 1987 apareceu até uma revista dedicada especificamente aos cd´s e a música clássica, neste caso de Beethoven,  tornou-se um produto, como já era mas com uma elevação exponencial que foi aumentado ao longo dos anos: 


Em 1991 outra revista tinha esta capa acerca de novas edições das "sinfonias" e dos negócios à volta delas: 




Ora isto foi só há trinta anos e ainda não terminou...como se comprova actualmente com a onda de publicidade à roda dos 250 anos do nascimento. 

Sobre a figura e origem de Beethoven e para terminar fica uma história deliciosa contada por um grande escritor que ganhou o Goncourt em 2017 por causa deste livro de 140 páginas ( A Ordem do Dia, de Éric Vuillard):






ADITAMENTO em 19 12 2020:

O Público de ontem, no suplemento ípsilon ( com acento agudo no primeiro i...) deu dez páginas à efeméride em que repetiu o esquema de "tratamento" cultural e jornalístico destes assuntos: artigos algo pedantes com opiniões de musicólogos e referências copiadas sem menção da fonte. Uma miséria intelectual assinada por Pedro Boléo, Cristina Fernandes e Teresa Sofia Serafim. 

Aqui ficam as páginas exemplificativas e pobres de conteúdo original. Nem o desenho se aproveita por aí além, estilizado em modo digital, com certeza:






 







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