segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

Carlos do Carmo: tudo isto é fado e folclore de esquerda

 Com a morte de Carlos do Carmo coloca-se a questão de saber se o mesmo era apenas um fadista ou já tinha passado ao estádio de cançonetista. Pendo para esta última metamorfose artística devido ao percurso do artista. 

Suscita-se também outra questão: sendo um cançonetista afeiçoado à esquerda era também popular, ia à televisão, vendia os seus discos e atingira o estatuto de um Júlio Iglesias nacional, com direito a estrelar em galas ocasionais das tv´s. 

Sendo assim, a politiquice nacional do presidente da República e do primeiro-ministro tomou conta da imagem e do reflexo de popularidade que o mesmo detinha por direito próprio, para ganhar algo com a vampirice habitual. Até já se fala no Panteão porque o ridículo em Portugal deixou de ter significado e muito menos letal. 

Nunca gostei de fado por aí além, embora ouça um Alfredo Marceneiro com gosto e não desdenho de uma Hermínia Silva ou mesmo uma Ana Moura e fico por aí. Até tenho discos do tal Marceneiro e da Ana Moura que considero uma cantora excepcional, mas não tenho da Amália e muito menos deste Carlos do Carmo falecido. 

Até meados dos anos setenta não me lembra nada de ouvir cantar Carlos do Carmo, fosse fado ou outra coisa qualquer, mas na Primavera de 1977 apareceu um disco dele que é uma obra-prima cujas cantiguinhas todos conhecem, desde "o homem das castanhas" ao fado do "cacilheiro". 

Carlos Carmo era também um indivíduo da "outra banda", da esquerda que agora se apropria despudoradamente da fama do artista. 

Em Maio de 1977 a revista Música & Som que nunca dava destaque algum ao fado, género menor da música popular portuguesa, muito abaixo dos cães grandes das cantigas de intervenção, mostrou que devia apreciar o disco, assim e já com os tiques habituais da esquerda de sempre, tingindo ideologicamente aquilo em que toca:



"O fado não é reaccionário" era o mote do artigo porque era necessário o caveat e a benção e caução esquerdista para que o artista não fosse também catalogado no seio de outros cantores de fado como Hermínia Silva, Ada de Castro, Teixeirinha ou José Malhoa, pimbas avant la lettre. A caução esquerdista conferia o estilo "aristocrático" complementado pela pose do cantor que porém não era nem melhor nem pior que aqueles. 

E senão vejamos como se vendia música então, em Portugal, de acordo com a mesma revistinha. 

Nos primeiros meses desse ano de 1977 as tabelas de vendas eram assim recheadas com pérolas como "saca o saca rolhas" de um Herman José à procura de identidade ou de um José Cid no "Dia em que o rei fez anos", tal como o mesmo explica em entrevista ao mesmo número da revista. 





As cantiguinhas populares, incluindo as do fado eram para se vender em disco e em espectáculos e por isso José Cid não fazia grandes distinções de classe: o "comercial" era para o artista, nessa altura, "o mais importante". 

Como para Carlos do Carmo que agora passava a ter a caução de poetas como Ary dos Santos, comunista que o religava ao sistema de esquerda que nunca mais abandonou. Ary dos Santos fora um dos autores de letras mais conhecidos das cançonetas dos festivais de canção antes e depois de 25 de Abril de 1974 e ninguém dizia por isso que as cantiguinhas ligeiras eram fassistas. O fado, esse, ainda tinha tal conotação porque não se ligava aos autores progressistas, apesar de alguns o tentarem.

Por exemplo um Frei Hermano da Câmara ou este cujos trabalhos também passaram a merecer a atenção do público mais alargado, com o passar dos anos: João Braga, com a Canção Futura, em Outubro de 1977. 


Quanto a Amália tinha que se justificar por andar a cantar no tempo do regime anterior...e fê-lo assim, na edição de 1.12.1977 da revistinha:


E por isso podia continua a vender discos, sem a lepra do fassismo sempre a assombrar...


Aliás esse mês foi de boa colheita para o fado tradicional, mesmo o fassista:


Tendo em atenção tudo isto é preciso dizer que no número de 15 de Janeiro de 1978 em que se fez um apanhado geral do ano anterior em matéria musical, os discos de fado, mormente aquela obra-prima de Carlos do Carmo, nem aparecem citados no elenco habitual dos melhores ou piores. Esta crónica de Jaime Fernandes nesse número da revista é bem reveladora: 


O fado, mesmo caucionado à esquerda, não tinha grande valor artístico para a crítica musical em Portugal, nessa altura. E assim continuou durante alguns anos. Os suficientes para as editoras perceberem que também poderia dar receitas e os organizadores de espectáculos saírem das casas de fado para os grandes recintos, até então reservados apenas a alguns, muito poucos. 

Quanto a resto...é folclore. De esquerda, no caso. 


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