segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

O Expresso fez 48 anos e já não o leio

 O Expresso comemorou no Sábado passado os 48 anos com um suplemento especial com esta capa: 


Um dos modos de celebrar o acontecimento, neste suplemento foi recolher a opinião de alguns notáveis mediáticos da sociedade portuguesa e perguntar-lhes o que significou o jornal para cada um. 

Algumas respostas, após o editorial do actual director:  


Começa por Pedro Mexia, um leitor de livros que gosta do Expresso por causa "dos artigos" como se dizia dantes da Playboy. Enfim, cada um come do que gosta, se puder. 


A seguir o catatua-mor que foi "impactado" e assim ficou, julgo que para sempre.


Finalmente ( há mais mas este é exemplar único) o filho de um antigo jornalista do O Jornal que aprendeu a gostar do Expresso por causa disso. Talvez por causa desse caldo de cultura, aziumado, ande agora a ensaiar e representar peças sobre a "morte de fascistas".  Enfim, outra vez. O gajo vivia numa casa em que havia livros e muito papel e por isso deve ter o bestunto impregnado a celulose. 


A redacção actual do Expresso é moderna e é assim: 


Porém, começou assado, com a "Gente" de sempre e do costume: 


Quanto a mim, tomei conhecimento com o Expresso ainda em 1973 e julgo que terei visto ou lido o primeiro número. Afinal era uma grande novidade naquele tempo. 
O primeiro número que guardei e se manteve guardado é este, de 14 de Julho de 1973 e julgo que o comprei por causa do "caso Wiriamu", tratado na página 5 e com um estilo sóbrio dizia que era preciso saber mais sobre o assunto e um inquérito rápido se impunha para "clarificar cabalmente a verdade dos factos". Ou seja, ainda não se sabia muito bem o que acontecera. 


O caso Wiriamu era singular e um episódio macabro da nossa guerra no Ultramar. Na notícia fala-se no assunto de modo a citar o "Times" e com a menção a um certo Mário Soares que na altura não conhecia mais gordo do que era e dizia-se que era "secretário-geral do recém-criado Partido Socialista Português" o qual disse que "não tinha conhecimento pessoal do massacre e atacou a política do Governo português em África".  



O jornal não mencionava as palavras da futura novi-língua, fascismo, colonialismo e imperialismo, mas o tal Mário Soares usou-as, pela certa...e a censura deve ter cortado. Seja como for, esta notícia passou e quem não sabia passou a saber que havia um novo partido político em Portugal...chefiado pelo tal Soares.

Tal como passou a notícia sobre a "Oposição" em Portugal e as dissensões internas que existiam entre o partido comunista que nem aparece citado e as forças socialistas e social-democratas como se pode ler na primeira página. O embrião do que se passaria em 1975 estava já aqui plenamente exposto e explicado. A linguagem novilinguística ( " monopólios", "liberdades fundamentais")  também já se tornava notória e pegou de estaca dali a menos de um ano. 


A actual edição comemorativa não é muito rebarbativa no que se refere à Censura do anterior regime, ao contrário de outros números comemorativos de aniversário do jornal, mas evidentemente que existia tal Censura, a cortar notícias que entendia inconvenientes para o regime. Mas não aquelas acimas expostas. 
E esta na última página também não e permite ver como era o jornalismo de então: mais próximo da realidade comum do que hoje em dia. É isso algo que falta ao Expresso actual.


O Expresso da época tinha na altura uma revista semanal concorrente que se chamava Observador, aparecida em escaparate no início de 1971. 
Para mim é o órgão informativo que melhor retrata a época e a que melhor informava sobre o que se passava não obstante ser um órgão de informação que apoiava o regime, inequivocamente. Mas não de modo acéfalo...

A edição de 13 de Julho desse ano de 1973 dava conta do acontecimento de Londres, assim: 










Na edição seguinte a revista dava maior cobertura ao assunto Wiriamu, como mostra o editorial: 



E mostrava de modo mais claro que o Expresso o que foi Mário Soares fazer a Londres: dizer mal do país que era a sua pátria por causa do "fassismo" e do "colonialismo" e do...socialismo. A Censura neste caso, não cortou...e ficou a saber-se a realidade dos factos nus e crus. 


A diferença entre o Expresso de então e o Observador da época? É simples: o Expresso de então era um órgão de oposição política ao regime e ao governo de Marcello Caetano; o então Observador fazia a mesma figura que o Expresso de hoje faz: apoiava o sistema e o regime, com uma diferença mais e de vulto: com maior qualidade que este jornal de hoje o faz. 

Quem melhor definiu o Expresso foi Vasco Pulido Valente numa prosa curta no Público de 2006. O jornal da "classe média" era e continua a ser um recreio de mediocridades. 
O Observador de 1971 acabou no início de 1974 e nem chegou ao 25 de Abril. O Expresso mantém-se à tona durante estas décadas por motivos insondáveis mas dou o meu palpite: a sociedade portuguesa, tal como a economia, degradou-se intelectualmente de modo irreparável por obra e graça destes figurões que agora são o regime. É uma tragédia nacional, aliás a verdadeira tragédia nacional e fruto deste gente que aí figura acima, nas páginas do Expresso actual. 



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